Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Fundada em 1950, a UERJ mudou de nome quatro vezes, foi erguida sobre uma favela removida, abriu as portas do ensino superior brasileiro para as cotas e criou o vestibular mais peculiar do país.
Foto: Avelludo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 — recortada
A UERJ não foi fundada do zero. Ela nasceu da reunião de quatro faculdades que já funcionavam no Rio de Janeiro e que, juntas, formaram algo maior do que a soma das partes. Essa origem explica muito do que a universidade é hoje: uma instituição plural, espalhada pela cidade e pelo estado, com forte vocação pública.
Ao longo de mais de sete décadas, a universidade acompanhou de perto as transformações políticas do Rio. Cada mudança de nome corresponde a uma virada na história da cidade: a perda da condição de capital federal, a criação do estado da Guanabara, a fusão que deu origem ao Rio de Janeiro que conhecemos. Poucas instituições brasileiras têm a própria identidade tão amarrada à história do lugar onde estão.
Linha do tempo
Em 4 de dezembro, a lei municipal nº 547 cria a UDF, reunindo quatro faculdades já existentes: Ciências Econômicas, Direito, Filosofia (do Instituto La-Fayette) e Ciências Médicas. É a segunda instituição a levar esse nome, depois que a UDF original, de 1935, foi extinta em 1939.
A UDF passa a se chamar URJ, acompanhando a consolidação da instituição como referência de ensino superior na cidade.
Com a transferência da capital federal para Brasília, o antigo Distrito Federal vira o estado da Guanabara. A universidade acompanha a mudança e se torna UEG.
A fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro dá origem ao nome que a universidade carrega até hoje: Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O campus é oficialmente inaugurado no terreno onde antes ficava a Favela do Esqueleto, removida na década anterior. Ali se ergue o Pavilhão Reitor João Lyra Filho, o prédio que virou o símbolo visual da universidade.
A ALERJ aprova a lei nº 3.524, que reserva metade das vagas das universidades estaduais para estudantes da rede pública. No ano seguinte, a lei nº 3.708 destina parte das vagas a candidatos negros e pardos.
A UERJ se torna a primeira universidade brasileira a aplicar um sistema de reserva de vagas em seu vestibular. A decisão antecede em quase uma década a Lei de Cotas federal e muda a composição social do ensino superior no país.
A lei estadual nº 5.346 consolida as regras da reserva de vagas, incluindo a exigência de comprovação de carência socioeconômica que se tornou uma marca do modelo da UERJ.
A lei estadual nº 8.121 renova o sistema de cotas nas universidades públicas estaduais, mantendo a reserva de 45% das vagas distribuídas em três grupos.
Em 22 de março, a UERJ incorpora o Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO) e passa a ter um campus em Campo Grande, ampliando o alcance da universidade na cidade.
O campus
Quem passa pela Avenida Professor Manuel de Abreu, no Maracanã, reconhece de longe o bloco de concreto que abriga quase toda a vida acadêmica da UERJ. O Pavilhão Reitor João Lyra Filho é um dos maiores prédios universitários do Brasil, e é dentro dele que acontece boa parte das aulas, das pesquisas e das provas do Vestibular Estadual.
O terreno tem uma história que a universidade não esconde: ali ficava a Favela do Esqueleto, removida na década de 1960, cujos moradores foram transferidos para conjuntos habitacionais distantes. O campus foi oficialmente inaugurado em 1976, e a memória desse apagamento urbano é tema recorrente de pesquisas dentro da própria UERJ.
Além do Maracanã, a UERJ mantém campi e unidades em municípios como Duque de Caxias, São Gonçalo, Nova Friburgo, Petrópolis, Resende, Cabo Frio e Campo Grande, além do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), referência em atendimento público no estado.
De todos os capítulos da história da UERJ, nenhum teve impacto nacional maior do que o sistema de cotas. Em 2003, a universidade se tornou a primeira do Brasil a reservar vagas em seu vestibular para grupos historicamente excluídos do ensino superior.
A decisão foi corajosa e controversa. Veio antes de qualquer consenso nacional sobre o tema e quase uma década antes da Lei de Cotas federal, de 2012. O modelo da UERJ tem uma característica própria que sobrevive até hoje: além de pertencer a um dos grupos previstos em lei, o candidato precisa comprovar carência socioeconômica, exigência que não existe na maioria das universidades federais.
Hoje, 45% das vagas são reservadas, divididas em três grupos: 20% para candidatos negros, indígenas e quilombolas; 20% para quem cursou todo o ensino médio na rede pública; e 5% para pessoas com deficiência e filhos de agentes de segurança mortos ou incapacitados em serviço.
Entenda as regras em detalhe no guia completo das cotas da UERJ.
Enquanto a maior parte das universidades brasileiras migrou para o ENEM e o SiSU, a UERJ manteve um processo seletivo próprio, o Vestibular Estadual. E não por conservadorismo: o formato tem uma lógica clara, pensada para avaliar o candidato ao longo do ano, e não em um único fim de semana.
São dois Exames de Qualificação, aplicados em momentos diferentes, cada um com 60 questões objetivas. A universidade considera a melhor das duas notas, o que significa que um dia ruim não elimina ninguém. Quem atinge conceito D ou superior avança para o Exame Discursivo, com Redação obrigatória e duas provas específicas do curso pretendido.
Há ainda uma marca registrada da banca: a cada etapa, uma obra literária diferente é cobrada. É um dos poucos vestibulares do país em que a leitura de um livro específico pode decidir a aprovação, e é exatamente por isso que a preparação para a UERJ não pode ser genérica.
Veja o passo a passo de cada etapa no guia completo do Vestibular UERJ e conheça os temas que mais caem em Linguagens.
Com cerca de 46 mil estudantes, 100 cursos de graduação e programas de mestrado e doutorado em quase todas as áreas do conhecimento, a UERJ é uma das principais universidades públicas do país. Seu hospital universitário atende milhares de pessoas pelo SUS, e sua produção científica é reconhecida internacionalmente.
A universidade também é conhecida pelas crises orçamentárias que enfrentou ao longo dos anos, com atrasos de salários e paralisações que ganharam repercussão nacional. Que ela tenha atravessado tudo isso mantendo a qualidade acadêmica e o compromisso com o ensino gratuito diz muito sobre a comunidade que a sustenta.
Todo ano, mais de 60 mil candidatos disputam pouco mais de 6 mil vagas. Se você é um deles, o próximo passo é entender exatamente como essa disputa funciona.
O DoMonteiro prepara candidatos para o Vestibular UERJ em Linguagens e Redação, com material gratuito e projetos completos para cada etapa.
Fontes: dados institucionais do portal da UERJ (uerj.br), legislação estadual publicada pela ALERJ (leis nº 3.524/2000, 3.708/2001, 5.346/2008 e 8.121/2018) e registros históricos públicos sobre a universidade. Números de estudantes e cursos referem-se aos dados institucionais mais recentes divulgados pela universidade.
Imagens: as fotografias desta página vêm do acervo livre do Wikimedia Commons e foram apenas redimensionadas para uso na web. Vista aérea do campus por Avelludo (CC BY-SA 4.0); fachada por Thiagopinheirodasilva (CC0). O DoMonteiro não tem vínculo institucional com a UERJ.
Conteúdo revisado pelo Prof. Sérgio Monteiro em .