Caim, último romance publicado em vida por José Saramago, é uma reescrita irônica e provocadora de episódios do Antigo Testamento, narrada por um protagonista que viaja livremente pelo tempo bíblico. Neste post você vai encontrar o resumo da obra e as chaves de leitura mais exploradas em prova.
Sobre José Saramago
Saramago nasceu em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna no Brasil, e teve uma trajetória incomum para um escritor: formou-se em serralharia mecânica, profissão técnica e braçal, antes de se dedicar à literatura. Publicou seu primeiro livro, Terra do Pecado, em 1947, mas sua consagração viria décadas depois. Trabalhou como tradutor e crítico literário, filiou-se ao Partido Comunista Português, e em 1998 tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Caim provocou controvérsia já em sua publicação, em Portugal, por sua reinterpretação irônica e crítica de passagens bíblicas, a ponto de o governo português ter, em outro contexto, retirado apoio a uma indicação de Saramago justamente pela postura crítica de sua obra em relação à religião.
A estrutura: um narrador que viaja no tempo
O grande recurso narrativo de Caim é a capacidade do protagonista de se deslocar livremente pelo tempo bíblico, encontrando personagens e presenciando episódios do Antigo Testamento fora da ordem cronológica linear. Essa estrutura permite que Caim testemunhe, e por vezes intervenha, em diferentes histórias bíblicas ao longo do livro.
Capítulos 1 e 2: a criação e a insensibilidade divina
O romance começa reinterpretando o Gênesis: a criação de Adão e Eva e o Jardim do Éden. Saramago já demonstra, desde as primeiras páginas, seu projeto de ironizar a figura de Deus: ao perceber que o casal recém-criado não sabe falar, Deus, irritado, resolve o problema de forma brusca e violenta, enfiando a língua goela abaixo de cada um, sem cerimônia. Essa cena estabelece o tom do livro: um Deus impaciente, arbitrário e pouco cuidadoso com suas próprias criações.
Capítulos 3 e 4: o assassinato de Abel
Adão e Eva são acolhidos por uma caravana e passam a trabalhar a terra. Seus filhos, Abel e Caim, têm ofícios diferentes: Abel cuida do gado, Caim planta a terra. A narrativa destaca a harmonia entre os irmãos, invejada por outras famílias, até o momento em que ambos fazem oferendas ao Senhor.
A oferenda de Abel, pastor, é aceita, com a fumaça subindo ao céu; a de Caim é rejeitada. Essa preferência divina arbitrária é o estopim para o conflito entre os irmãos, culminando no assassinato de Abel por Caim, episódio bíblico central que dá início à jornada errante do protagonista.
Capítulos 5 e 6: Lilit
Caim chega a uma terra onde trabalha como pisador de barro e desperta o interesse de Lilit, mulher poderosa que efetivamente comanda a cidade, apesar de ter marido. Ela é tratada com temor pelos homens locais, quase como uma figura de bruxa que os “consome”. Lilit seduz Caim, e o encontro entre os dois desperta nele desejos e valores até então adormecidos, episódio que a crítica lê como reflexão sobre desejo, poder feminino e transgressão.
Capítulos 7 e 8: Abraão, Sodoma e Gomorra
Caim reencontra Abraão, mas em um momento anterior ao encontro que já havia tido com ele em outro ponto de sua jornada, e essa confusão temporal, decorrente de sua capacidade de viajar erraticamente pelo tempo, gera desorientação no próprio protagonista. Os episódios de Sodoma e Gomorra e a figura de Moisés também são revisitados nessa parte da obra, sempre sob a ótica crítica e irônica de Saramago em relação às narrativas bíblicas de destruição e punição divina.
Capítulos 9 e 10: a conquista de Jericó
Caim testemunha a tomada de Jericó pelo exército de Josué. Após a vitória, trinta e seis soldados israelitas morrem em batalha, e Josué questiona o Senhor sobre a derrota parcial. A explicação divina é reveladora do tom crítico da obra: a morte dos soldados teria sido uma lição pedagógica, punição por israelitas terem se apropriado de despojos de guerra que pertenceriam a Deus. Josué então pune os responsáveis e monta nova ofensiva contra a cidade de Ai, com Caim decidindo abandonar o exército diante da crueldade que presencia.
Capítulos 11, 12 e 13: Jó e o desfecho
Caim chega à terra de Jó, homem descrito como imensamente rico e justo. O Senhor aceita um desafio proposto por Satã: testar a fidelidade de Jó submetendo-o à perda de todos os seus bens e de sua família. Caim, ao testemunhar essa aposta cruel entre Deus e Satã às custas do sofrimento humano, reage com indignação, questionando a moralidade de um poder divino que trata vidas humanas como objeto de jogo e capricho.
Essa reação de Caim resume o projeto crítico central da obra: colocar em xeque a legitimidade moral de um Deus que pune, testa e destrói arbitrariamente, sob o pretexto de desígnios superiores que a narrativa expõe como caprichosos e cruéis.
O projeto crítico de Saramago
Caim não é apenas reconto: é releitura crítica e irônica. Saramago usa o recurso da viagem no tempo para justapor diferentes episódios de violência e arbitrariedade divina no Antigo Testamento, construindo um painel acumulativo que questiona a figura de Deus como justa e benevolente.
A escolha de Caim, o primeiro assassino da tradição bíblica, como narrador e testemunha crítica desses episódios é irônica em si: aquele que foi condenado por seu crime se torna a voz que denuncia crimes muito maiores, cometidos ou permitidos pela própria divindade.
O que cai na UERJ
Quando Caim está no programa, as questões costumam explorar:
- A intertextualidade com o Antigo Testamento, exigindo reconhecimento dos episódios bíblicos reescritos.
- O tom irônico e crítico empregado por Saramago na reconstrução dessas narrativas.
- A estrutura de viagem no tempo e seu efeito na construção do enredo.
- A crítica à arbitrariedade divina, evidenciada em episódios como a aposta com Jó e a punição dos israelitas em Jericó.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
O recurso narrativo central que estrutura Caim, de José Saramago, é:
a) a narração linear e cronológica dos episódios bíblicos. b) a capacidade do protagonista de viajar livremente pelo tempo, testemunhando episódios do Antigo Testamento fora de ordem cronológica. c) a ausência total de referências bíblicas na obra. d) um narrador onisciente que nunca interage com os episódios narrados. e) uma estrutura epistolar, composta por cartas entre personagens bíblicos.
Gabarito: b
Comentário: A viagem errática de Caim pelo tempo bíblico é o que permite ao romance justapor diferentes episódios do Antigo Testamento, muitas vezes gerando confusões cronológicas para o próprio protagonista, como o reencontro com um Abraão anterior ao que já conhecera. Esse recurso estrutural sustenta o projeto crítico da obra, ao acumular episódios de violência e arbitrariedade divina ao longo da narrativa.
Questão 2 (Estilo UERJ)
A explicação divina para a morte de trinta e seis soldados israelitas na tomada de Jericó, descrita como “lição pedagógica” por terem se apropriado de despojos que pertenceriam a Deus, ilustra:
a) a benevolência incondicional de Deus para com o povo israelita. b) a crítica de Saramago à arbitrariedade e à crueldade atribuídas às ações divinas no relato bíblico. c) uma defesa da guerra como instrumento pedagógico legítimo. d) a ausência de qualquer conflito moral na obra. e) a exaltação do heroísmo militar de Josué.
Gabarito: b
Comentário: Ao apresentar a morte de soldados como punição pedagógica por uma falta relativamente menor, a narrativa evidencia o projeto crítico de Saramago de questionar a proporcionalidade e a justiça das ações atribuídas a Deus nos relatos bíblicos, construindo um painel acumulativo de episódios que expõem essa crueldade como arbitrária.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A reação de indignação de Caim diante da aposta entre Deus e Satã envolvendo o sofrimento de Jó resume:
a) a aceitação plena, por parte de Caim, da autoridade divina em qualquer circunstância. b) o projeto crítico central da obra, que questiona a legitimidade moral de um poder divino que trata vidas humanas como objeto de capricho. c) um episódio isolado sem relação com o restante da narrativa. d) a defesa, por Saramago, da tradição bíblica sem qualquer reinterpretação. e) a total indiferença de Caim perante o sofrimento alheio.
Gabarito: b
Comentário: Ao reagir com indignação à aposta que trata a vida e os bens de Jó como mero objeto de teste entre Deus e Satã, Caim expressa a crítica central que sustenta toda a obra: a denúncia de uma divindade que age de forma arbitrária e cruel, características que Saramago acumula ao longo dos diversos episódios reescritos ao longo do romance.
Revisão rápida
- Caim é o último romance de José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998.
- A obra reinterpreta ironicamente episódios do Antigo Testamento a partir da perspectiva de Caim.
- O protagonista viaja livremente pelo tempo bíblico, testemunhando diferentes episódios fora de ordem.
- Deus é retratado como impaciente, arbitrário e cruel ao longo da narrativa.
- Episódios como a tomada de Jericó e a aposta envolvendo Jó sustentam a crítica central da obra.
- Caim, o primeiro assassino bíblico, torna-se ironicamente a voz que denuncia crimes divinos maiores.
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