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Intertextualidade: paródia, paráfrase, citação e alusão

Intertextualidade explicada tipo a tipo. Diferencie paródia de paráfrase, entenda epígrafe, citação e alusão e domine um tema clássico das provas da UERJ.

Capa do artigo: Intertextualidade: paródia, paráfrase, citação e alusão

Intertextualidade é o diálogo entre textos. A palavra explica o conceito: inter (entre) mais textualidade (texto). Um autor retoma outro texto, já conhecido do público, e a partir dele constrói um novo sentido.

Esse diálogo não se limita ao verbal. Uma pintura pode conversar com um quadrinho, uma canção com um poema, um filme com uma obra literária. Quando os Simpsons reproduzem a pose de O Grito, de Munch, há intertextualidade.

Neste post você vai aprender a reconhecer os principais tipos e, sobretudo, a não confundir paródia com paráfrase, que é onde a maioria erra.

Paródia: recria subvertendo

A paródia retoma um texto conhecido e subverte o seu sentido original. Há reconstrução com intenção crítica, irônica ou humorística.

  • Original: “Penso, logo existo.”
  • Paródia: “Tenho um filho, logo desisto.”

O exemplo mais explorado nas provas é a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, um dos textos mais parodiados da literatura brasileira:

  • Original: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.”
  • Paródia de Oswald de Andrade: “Minha terra tem palmares, onde gorjeia o mar.”

Os modernistas de 22 entendiam a paródia como um processo simultâneo de destruição e construção: pega-se um texto que todos conhecem, desmonta-se e ergue-se outro no lugar. Por isso a paródia é central no Modernismo brasileiro.

Paráfrase: reescreve mantendo

A paráfrase reescreve um texto sem alterar o sentido original. É releitura, não subversão.

  • Original: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.”
  • Paráfrase de Murilo Mendes: “Minha terra tem macieiras da Califórnia, onde cantam gaturamos de Veneza.”

O contraste com a paródia cabe em uma linha:

Paródia rompe com o sentido original. Paráfrase o preserva.

A paráfrase aparece o tempo todo nas provas de interpretação, mesmo quando o enunciado não usa a palavra: quando uma alternativa reformula uma ideia do texto com outras palavras, ela está parafraseando.

Epígrafe

Citação colocada antes do texto, funcionando como abertura e chave de leitura. Ela guarda relação direta com o que será desenvolvido.

É comum em livros, artigos, monografias e teses, quase sempre com trechos bíblicos, versos de poetas ou frases de filósofos.

Citação

Reprodução de um trecho de outro texto no corpo do que se está escrevendo, com indicação da fonte. Vem entre aspas ou em destaque.

A diferença em relação à epígrafe é a posição: a epígrafe abre o texto, a citação aparece dentro dele.

Alusão

Referência indireta a outro texto, obra, personagem ou fato. Não há reprodução, há sugestão.

  • “Ele enfrentou seu moinho de vento.” (alusão a Dom Quixote)
  • “Foi seu calcanhar de Aquiles.” (alusão à mitologia grega)

A alusão exige repertório do leitor: quem não conhece a referência não capta o sentido pleno.

Outros tipos

  • Pastiche: imita o estilo de um autor ou de uma obra, sem a intenção crítica da paródia.
  • Tradução: transposição de um texto para outra língua, sempre uma forma de recriação.
  • Bricolagem: montagem de fragmentos de vários textos.

Tabela de consulta rápida

TipoO que fazMarca
Paródiarecria subvertendo o sentidocrítica, ironia, humor
Paráfrasereescreve mantendo o sentidooutras palavras, mesma ideia
Epígrafeabre o texto com citaçãovem antes do corpo
Citaçãoreproduz trecho com fonteaspas, dentro do texto
Alusãorefere-se indiretamentesugestão, exige repertório
Pasticheimita o estilohomenagem, sem crítica

O que cai na UERJ

Intertextualidade é assunto recorrente na banca, e aparece de formas bem definidas:

  • Confronto de dois textos. A prova apresenta o texto original e a releitura, e pergunta qual relação se estabelece entre eles. A resposta quase sempre passa por distinguir paródia de paráfrase.
  • Identificação de alusão. Um texto faz referência indireta a uma obra do programa de literatura, e reconhecer essa referência é o que permite responder.
  • Efeito de sentido. Mais do que nomear o mecanismo, a banca quer saber o que a retomada acrescenta: crítica social, ironia, homenagem, atualização do tema.

Na redação, a intertextualidade é aliada direta do repertório. Citar uma obra, um pensador ou uma referência cultural de modo pertinente demonstra leitura e sustenta o argumento. O cuidado é usar referências que realmente dialoguem com a tese, e não enfeites deslocados.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

Leia os textos:

Texto I: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.” (Gonçalves Dias)

Texto II: “Minha terra tem palmares, onde gorjeia o mar.” (Oswald de Andrade)

A relação intertextual estabelecida entre os textos é de:

a) paráfrase, pois o sentido original é preservado. b) paródia, pois há subversão do sentido original com intenção crítica. c) citação, pois há reprodução literal do primeiro texto. d) epígrafe, pois o segundo texto abre uma obra. e) tradução, pois há transposição para outro código.

Gabarito: b

Comentário: Oswald de Andrade substitui “palmeiras” por “palmares”, deslocando a natureza idealizada do Romantismo para a referência histórica ao Quilombo dos Palmares, e altera a imagem seguinte de modo desconcertante. Há reconstrução com intenção crítica, o que caracteriza paródia. A alternativa a estaria correta apenas se o sentido original tivesse sido mantido, como acontece na versão de Murilo Mendes.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Em um artigo acadêmico, o autor abre o texto com um verso de Drummond antes do primeiro parágrafo. Esse recurso intertextual denomina-se:

a) citação b) alusão c) epígrafe d) pastiche e) paráfrase

Gabarito: c

Comentário: A epígrafe é definida pela posição: trata-se de uma citação colocada antes do corpo do texto, funcionando como chave de leitura para o que será desenvolvido. A citação, por sua vez, aparece no interior do texto, integrada à argumentação. A alusão não reproduz o texto de origem, apenas o sugere indiretamente, o que também não corresponde à situação descrita.


Questão 3 (Estilo UERJ)

No trecho “Diante do cargo, descobriu que enfrentava moinhos de vento”, o recurso intertextual empregado é:

a) paródia da obra de Cervantes. b) citação de trecho de Dom Quixote. c) alusão à obra de Cervantes. d) paráfrase de um episódio do romance. e) epígrafe deslocada para o interior do texto.

Gabarito: c

Comentário: A expressão “moinhos de vento” remete ao célebre episódio de Dom Quixote, em que o protagonista confunde moinhos com gigantes e os ataca. Não há reprodução de trecho, o que exclui a citação, nem reescrita do episódio, o que exclui a paráfrase. Trata-se de referência indireta que depende do repertório do leitor para produzir sentido, o que define a alusão. Note que o efeito pretendido é caracterizar a luta como inútil ou ilusória.

Revisão rápida

  • Intertextualidade é o diálogo entre textos, e vale também entre linguagens diferentes.
  • Paródia recria subvertendo o sentido; paráfrase reescreve preservando o sentido.
  • Epígrafe abre o texto; citação aparece dentro dele, com indicação de fonte.
  • Alusão é referência indireta e depende do repertório do leitor.
  • Os modernistas viam a paródia como destruição e construção simultâneas.
  • Na UERJ, além de nomear o mecanismo, é preciso explicar o efeito de sentido produzido.

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