Quem estuda crase aprende primeiro os casos em que ela é obrigatória. Mas fica sempre a pergunta seguinte: e quando eu não devo usar?
Este post responde a isso. Ele completa o guia da crase tratando dos dois grupos que sobram: onde o acento é proibido e onde ele é facultativo.
Relembrando o mecanismo
A crase é um fenômeno fonético: a fusão de dois sons de “a” que se juntam. Para que ela exista, são necessárias duas coisas ao mesmo tempo:
- A preposição a, exigida pelo verbo ou pelo nome.
- O artigo definido feminino a, admitido pela palavra seguinte.
Falhando qualquer uma das duas, não há crase. Toda a lista de proibições abaixo decorre desse princípio.
Onde a crase é proibida
Antes de palavra masculina
Palavra masculina não admite o artigo a, e sem artigo não há fusão.
- “Viajamos a pé.”
- “Comprei a prazo.”
- “Andava a cavalo.”
A exceção: quando estiver subentendida a expressão “à moda de”, a crase ocorre mesmo diante de nome masculino.
- “Escrita à Machado de Assis.” (à moda de)
- “Bife à milanesa.” (à moda milanesa)
Antes de verbo
Verbo no infinitivo não admite artigo.
- “Começou a cantar.”
- “Ele passou a estudar mais.”
Antes de pronome pessoal
Pronomes pessoais não admitem artigo.
- “Entreguei o livro a ela.”
- “Dirijo-me a você.”
Antes da maioria dos pronomes
Não há crase antes de pronomes indefinidos, demonstrativos, relativos e de tratamento.
- “Referiu-se a alguma coisa.”
- “Dirigiu-se a Vossa Excelência.”
- “Não sei a que horas chega.”
Duas exceções importantes: àquele, àquela e àquilo levam crase, porque o “a” inicial desses pronomes se funde com a preposição. E os pronomes de tratamento senhora, senhorita e dona admitem artigo, portanto admitem crase.
Entre palavras repetidas
- “Ficaram cara a cara.”
- “Avançaram gota a gota.”
- “De ponta a ponta.”
Antes de nomes de cidades que não admitem artigo
- “Vou a Roma.” (porque venho de Roma)
- “Vou à Bahia.” (porque venho da Bahia)
Vale lembrar o macete: se o nome do lugar for especificado, ele passa a admitir artigo e recebe crase.
- “Vou à Roma dos Césares.”
Antes de numeral cardinal
- “Chegaremos a duzentos participantes.”
Exceção: as horas levam crase. “Saio às duas horas.”
Antes da palavra “casa” sem especificação
- “Voltou a casa cedo.”
- Mas: “Voltou à casa dos pais.”
Antes da palavra “terra” com sentido de solo firme
- “O marinheiro desceu a terra.”
- Mas: “Voltou à Terra depois da missão.”
Antes de “distância” sem especificação
- “Observava a distância.”
- Mas: “Observava à distância de dez metros.”
Onde a crase é facultativa
Três casos, e nos três as duas formas estão corretas. É frequente a prova apresentar as duas e perguntar qual está certa: a resposta é ambas.
1. Antes de nome próprio feminino
- “Entreguei o bilhete a Maria.” ou “Entreguei o bilhete à Maria.”
O uso do artigo antes de nome próprio depende do grau de proximidade: costuma-se usá-lo com pessoas próximas ou muito conhecidas. Como é escolha do falante, a crase é facultativa.
2. Após a preposição “até”
- “Fui até a porta.” ou “Fui até à porta.”
3. Antes de pronome possessivo feminino
- “Cedi lugar a minha prima.” ou “Cedi lugar à minha prima.”
O possessivo admite artigo opcionalmente, e essa opcionalidade se transfere para a crase.
Tabela de consulta rápida
| Situação | Crase |
|---|---|
| palavra masculina | proibida (salvo “à moda de”) |
| verbo no infinitivo | proibida |
| pronome pessoal | proibida |
| palavras repetidas | proibida |
| numeral cardinal | proibida (salvo horas) |
| àquele, àquela, àquilo | obrigatória |
| nome próprio feminino | facultativa |
| após “até” | facultativa |
| pronome possessivo feminino | facultativa |
O que cai na UERJ
A crase é cobrada de três maneiras:
- Na correção da redação. É desvio de norma culta e um dos mais frequentes. O uso indevido diante de verbo e de palavra masculina lidera as ocorrências.
- Em questões de reescrita. A banca propõe outra construção e o candidato avalia se a crase se mantém correta.
- Em questões de sentido. A presença ou ausência do acento pode alterar o significado: “Refiro-me a mulher” e “refiro-me à mulher” não dizem a mesma coisa.
Um lembrete útil: como a crase depende da preposição exigida pelo verbo, quem não domina regência não domina crase. Os dois conteúdos se sustentam mutuamente.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa em que o emprego da crase está incorreto:
a) “Chegamos à conclusão esperada.” b) “Referiu-se à aquela decisão.” c) “Vou à Bahia nas férias.” d) “Saímos às oito horas.” e) “Escreveu à moda dos clássicos.”
Gabarito: b
Comentário: A forma correta é “àquela”, contração da preposição a com o pronome demonstrativo aquela, e não “à aquela”, que duplicaria indevidamente o elemento. Nas demais alternativas o emprego está adequado: em c o topônimo admite artigo, o que se verifica pelo teste “venho da Bahia”; em d as horas exigem crase; em e a expressão “à moda de” justifica o acento.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Em qual das alternativas a crase é facultativa?
a) “Voltamos a pé para casa.” b) “Entreguei o documento a Maria.” c) “Começou a estudar cedo.” d) “Refiro-me a você.” e) “Ficaram frente a frente.”
Gabarito: b
Comentário: Diante de nome próprio feminino, o uso do artigo depende do grau de familiaridade do falante com a pessoa mencionada, e essa opcionalidade torna a crase facultativa. Assim, tanto “a Maria” quanto “à Maria” são formas corretas. Nas demais alternativas a crase é proibida, respectivamente por palavra masculina, verbo no infinitivo, pronome pessoal e palavras repetidas.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Considere as construções:
I. “Bife à milanesa” II. “Viajamos a cavalo”
Sobre o emprego da crase, é correto afirmar que:
a) ambas estão incorretas, pois as palavras seguintes são masculinas. b) em I a crase se justifica pela expressão subentendida “à moda de”; em II não há crase por se tratar de palavra masculina. c) em I não deveria haver crase e em II deveria haver. d) ambas estão corretas pelo mesmo motivo. e) a crase é facultativa nos dois casos.
Gabarito: b
Comentário: A regra geral proíbe a crase diante de palavra masculina, o que explica a ausência do acento em II. A exceção ocorre quando está subentendida a expressão “à moda de”, em que o artigo feminino se refere à palavra elíptica moda, e não ao termo masculino que aparece na superfície. É o mesmo mecanismo de construções como “escrita à Machado de Assis”.
Revisão rápida
- Sem preposição ou sem artigo, não há crase: é dessa regra que decorrem todas as proibições.
- Não há crase antes de palavra masculina, verbo, pronome pessoal e palavras repetidas.
- A exceção da palavra masculina é a expressão subentendida “à moda de”.
- Àquele, àquela e àquilo sempre levam crase.
- A crase é facultativa antes de nome próprio feminino, após “até” e antes de possessivo feminino.
- Crase depende de regência: sem preposição exigida, não há acento.
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