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Crase Proibida e Facultativa: os casos que confundem

Onde a crase é proibida e onde é facultativa. A lista completa dos casos em que não se usa acento grave e os três em que tanto faz, com questões comentadas.

Capa do artigo: Crase Proibida e Facultativa: os casos que confundem

Quem estuda crase aprende primeiro os casos em que ela é obrigatória. Mas fica sempre a pergunta seguinte: e quando eu não devo usar?

Este post responde a isso. Ele completa o guia da crase tratando dos dois grupos que sobram: onde o acento é proibido e onde ele é facultativo.

Relembrando o mecanismo

A crase é um fenômeno fonético: a fusão de dois sons de “a” que se juntam. Para que ela exista, são necessárias duas coisas ao mesmo tempo:

  1. A preposição a, exigida pelo verbo ou pelo nome.
  2. O artigo definido feminino a, admitido pela palavra seguinte.

Falhando qualquer uma das duas, não há crase. Toda a lista de proibições abaixo decorre desse princípio.

Onde a crase é proibida

Antes de palavra masculina

Palavra masculina não admite o artigo a, e sem artigo não há fusão.

  • “Viajamos a pé.”
  • “Comprei a prazo.”
  • “Andava a cavalo.”

A exceção: quando estiver subentendida a expressão “à moda de”, a crase ocorre mesmo diante de nome masculino.

  • “Escrita à Machado de Assis.” (à moda de)
  • “Bife à milanesa.” (à moda milanesa)

Antes de verbo

Verbo no infinitivo não admite artigo.

  • “Começou a cantar.”
  • “Ele passou a estudar mais.”

Antes de pronome pessoal

Pronomes pessoais não admitem artigo.

  • “Entreguei o livro a ela.”
  • “Dirijo-me a você.”

Antes da maioria dos pronomes

Não há crase antes de pronomes indefinidos, demonstrativos, relativos e de tratamento.

  • “Referiu-se a alguma coisa.”
  • “Dirigiu-se a Vossa Excelência.”
  • “Não sei a que horas chega.”

Duas exceções importantes: àquele, àquela e àquilo levam crase, porque o “a” inicial desses pronomes se funde com a preposição. E os pronomes de tratamento senhora, senhorita e dona admitem artigo, portanto admitem crase.

Entre palavras repetidas

  • “Ficaram cara a cara.”
  • “Avançaram gota a gota.”
  • “De ponta a ponta.”

Antes de nomes de cidades que não admitem artigo

  • “Vou a Roma.” (porque venho de Roma)
  • “Vou à Bahia.” (porque venho da Bahia)

Vale lembrar o macete: se o nome do lugar for especificado, ele passa a admitir artigo e recebe crase.

  • “Vou à Roma dos Césares.”

Antes de numeral cardinal

  • “Chegaremos a duzentos participantes.”

Exceção: as horas levam crase. “Saio às duas horas.”

Antes da palavra “casa” sem especificação

  • “Voltou a casa cedo.”
  • Mas: “Voltou à casa dos pais.”

Antes da palavra “terra” com sentido de solo firme

  • “O marinheiro desceu a terra.”
  • Mas: “Voltou à Terra depois da missão.”

Antes de “distância” sem especificação

  • “Observava a distância.”
  • Mas: “Observava à distância de dez metros.”

Onde a crase é facultativa

Três casos, e nos três as duas formas estão corretas. É frequente a prova apresentar as duas e perguntar qual está certa: a resposta é ambas.

1. Antes de nome próprio feminino

  • “Entreguei o bilhete a Maria.” ou “Entreguei o bilhete à Maria.”

O uso do artigo antes de nome próprio depende do grau de proximidade: costuma-se usá-lo com pessoas próximas ou muito conhecidas. Como é escolha do falante, a crase é facultativa.

2. Após a preposição “até”

  • “Fui até a porta.” ou “Fui até à porta.”

3. Antes de pronome possessivo feminino

  • “Cedi lugar a minha prima.” ou “Cedi lugar à minha prima.”

O possessivo admite artigo opcionalmente, e essa opcionalidade se transfere para a crase.

Tabela de consulta rápida

SituaçãoCrase
palavra masculinaproibida (salvo “à moda de”)
verbo no infinitivoproibida
pronome pessoalproibida
palavras repetidasproibida
numeral cardinalproibida (salvo horas)
àquele, àquela, àquiloobrigatória
nome próprio femininofacultativa
após “até”facultativa
pronome possessivo femininofacultativa

O que cai na UERJ

A crase é cobrada de três maneiras:

  • Na correção da redação. É desvio de norma culta e um dos mais frequentes. O uso indevido diante de verbo e de palavra masculina lidera as ocorrências.
  • Em questões de reescrita. A banca propõe outra construção e o candidato avalia se a crase se mantém correta.
  • Em questões de sentido. A presença ou ausência do acento pode alterar o significado: “Refiro-me a mulher” e “refiro-me à mulher” não dizem a mesma coisa.

Um lembrete útil: como a crase depende da preposição exigida pelo verbo, quem não domina regência não domina crase. Os dois conteúdos se sustentam mutuamente.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

Assinale a alternativa em que o emprego da crase está incorreto:

a) “Chegamos à conclusão esperada.” b) “Referiu-se à aquela decisão.” c) “Vou à Bahia nas férias.” d) “Saímos às oito horas.” e) “Escreveu à moda dos clássicos.”

Gabarito: b

Comentário: A forma correta é “àquela”, contração da preposição a com o pronome demonstrativo aquela, e não “à aquela”, que duplicaria indevidamente o elemento. Nas demais alternativas o emprego está adequado: em c o topônimo admite artigo, o que se verifica pelo teste “venho da Bahia”; em d as horas exigem crase; em e a expressão “à moda de” justifica o acento.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Em qual das alternativas a crase é facultativa?

a) “Voltamos a pé para casa.” b) “Entreguei o documento a Maria.” c) “Começou a estudar cedo.” d) “Refiro-me a você.” e) “Ficaram frente a frente.”

Gabarito: b

Comentário: Diante de nome próprio feminino, o uso do artigo depende do grau de familiaridade do falante com a pessoa mencionada, e essa opcionalidade torna a crase facultativa. Assim, tanto “a Maria” quanto “à Maria” são formas corretas. Nas demais alternativas a crase é proibida, respectivamente por palavra masculina, verbo no infinitivo, pronome pessoal e palavras repetidas.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Considere as construções:

I. “Bife à milanesa” II. “Viajamos a cavalo”

Sobre o emprego da crase, é correto afirmar que:

a) ambas estão incorretas, pois as palavras seguintes são masculinas. b) em I a crase se justifica pela expressão subentendida “à moda de”; em II não há crase por se tratar de palavra masculina. c) em I não deveria haver crase e em II deveria haver. d) ambas estão corretas pelo mesmo motivo. e) a crase é facultativa nos dois casos.

Gabarito: b

Comentário: A regra geral proíbe a crase diante de palavra masculina, o que explica a ausência do acento em II. A exceção ocorre quando está subentendida a expressão “à moda de”, em que o artigo feminino se refere à palavra elíptica moda, e não ao termo masculino que aparece na superfície. É o mesmo mecanismo de construções como “escrita à Machado de Assis”.

Revisão rápida

  • Sem preposição ou sem artigo, não há crase: é dessa regra que decorrem todas as proibições.
  • Não há crase antes de palavra masculina, verbo, pronome pessoal e palavras repetidas.
  • A exceção da palavra masculina é a expressão subentendida “à moda de”.
  • Àquele, àquela e àquilo sempre levam crase.
  • A crase é facultativa antes de nome próprio feminino, após “até” e antes de possessivo feminino.
  • Crase depende de regência: sem preposição exigida, não há acento.

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