A literatura contemporânea brasileira é o trecho mais difícil de organizar do programa, e por uma razão simples: não há distância histórica. Não existe consenso crítico consolidado, os movimentos se sobrepõem e muitos autores seguem produzindo.
Ainda assim, é possível montar um mapa. Neste post você vai encontrar um panorama do que vem depois da Geração de 45, organizado por décadas e por linhas de força.
Anos 50: o concretismo
O Concretismo nasce em São Paulo, em torno dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari, e propõe uma ruptura radical: acabar com o verso.
A proposta é uma poesia verbivocovisual, que trabalha simultaneamente:
- Verbo: o significado da palavra.
- Voco: a sonoridade.
- Visual: a disposição no espaço da página.
O poeta concreto trata a folha em branco como uma tela. A palavra é decomposta, os espaços são calculados, a diagramação carrega sentido. Não há mais linearidade: o poema pode ser lido em várias direções.
É a poesia que mais depende da visualidade, e por isso a que mais se aproxima do design gráfico e da publicidade.
Anos 60 e 70: a censura e a poesia marginal
O contexto muda tudo. Com a ditadura militar e, sobretudo, com o endurecimento do regime a partir do Ato Institucional nº 5, a censura se intensifica e a perseguição aos artistas se radicaliza.
Os autores precisam se reinventar. Criam camadas de metáfora, cifram o texto, dizem por imagens o que não podem dizer diretamente.
Este é um dado essencial para a prova: quando um enunciado situa o texto nesse contexto, ele está oferecendo a chave de leitura. As metáforas não são ornamento, são estratégia de sobrevivência.
A poesia marginal
Também chamada de geração mimeógrafo, porque os poetas imprimiam e vendiam os próprios livros à mão, fora do circuito editorial.
Características: linguagem coloquial, humor, cotidiano, brevidade, ironia, recusa da solenidade literária.
Nomes centrais: Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal.
A prosa contemporânea
A prosa se organiza em linhas que convivem:
Regionalista renovada
Não é o regionalismo documental de 30. Aqui o interior é ponto de partida para uma reflexão metafísica e universal sobre a condição humana.
Guimarães Rosa é o nome decisivo. Em Grande Sertão: Veredas, o sertão é geografia e é condição existencial, e a linguagem é reinventada palavra por palavra, com neologismos e sintaxe própria.
Intimista e psicológica
O foco vai para a interioridade, o fluxo de consciência, a epifania.
Clarice Lispector é a referência. Seus contos e romances trabalham momentos banais que se abrem em revelação súbita.
Urbana e da violência
A cidade grande, a marginalidade, a violência cotidiana. Rubem Fonseca é o nome principal, com linguagem direta, cortante e sem concessões.
Memorialística e de testemunho
Narrativas que recuperam a experiência da ditadura, do exílio e da perda. É uma das linhas mais produtivas da literatura brasileira recente, e uma das mais presentes nos vestibulares.
O que caracteriza o contemporâneo
Alguns traços atravessam a produção do período:
- Pluralidade. Não há escola dominante nem programa comum.
- Hibridismo de gêneros. As fronteiras entre conto, crônica, ensaio e poesia se dissolvem.
- Metalinguagem. O texto reflete sobre o próprio ato de narrar.
- Fragmentação. Narrativas não lineares, capítulos autônomos.
- Diversidade de vozes. Autores e autoras que antes não tinham acesso ao circuito literário passam a publicar.
- Novos suportes. A literatura circula em blogs, redes sociais e plataformas digitais.
O que cai na UERJ
Este período é especialmente relevante para a banca:
- Obras contemporâneas no programa. A UERJ adota com frequência autores vivos ou recentes, e obras de testemunho e memória aparecem regularmente.
- Contexto da ditadura. Quando o enunciado situa o texto nos anos 60 e 70, a leitura das metáforas como resposta à censura costuma ser o caminho da resposta.
- Concretismo. Poemas concretos aparecem em questões que exigem leitura do arranjo visual, não apenas do texto.
- Hibridismo. Questões que pedem a classificação de gênero em textos que escapam às categorias tradicionais.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A proposta verbivocovisual, característica do Concretismo, significa que o poema trabalha simultaneamente:
a) verso, estrofe e rima. b) significado, sonoridade e disposição visual na página. c) narrativa, descrição e dissertação. d) autor, narrador e personagem. e) métrica, ritmo e acentuação.
Gabarito: b
Comentário: O termo condensa as três dimensões exploradas pelo poema concreto: o verbo, referente ao significado das palavras; o voco, referente à materialidade sonora; e o visual, referente ao arranjo espacial na página. Essa proposta implica o abandono do verso tradicional, com a folha em branco tratada como campo de composição gráfica, o que aproxima a poesia concreta do design.
Questão 2 (Estilo UERJ)
A intensificação do uso de metáforas e imagens cifradas na literatura brasileira dos anos 60 e 70 explica-se principalmente por:
a) influência tardia do Simbolismo. b) exigência estética do concretismo paulista. c) necessidade de driblar a censura imposta pelo regime militar. d) retomada dos ideais parnasianos de rebuscamento formal. e) predomínio da linguagem coloquial na poesia marginal.
Gabarito: c
Comentário: Com o endurecimento do regime militar, a perseguição a artistas se intensificou, e a produção de camadas metafóricas tornou-se estratégia para dizer o que não podia ser dito diretamente. Trata-se de recurso de sobrevivência e resistência, não de escolha puramente estética. Quando o enunciado de uma questão situa o texto nesse contexto, está indicando a chave de leitura a ser adotada.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Sobre a obra de Guimarães Rosa, é correto afirmar que ela:
a) reproduz o regionalismo documental característico do romance de 30. b) toma o sertão como ponto de partida para reflexão metafísica, com reinvenção da linguagem. c) filia-se à prosa urbana da violência, ao lado de Rubem Fonseca. d) caracteriza-se pelo fluxo de consciência e pela epifania cotidiana. e) adota a linguagem seca e econômica típica de Graciliano Ramos.
Gabarito: b
Comentário: Guimarães Rosa parte do universo sertanejo, mas o transforma em espaço de indagação existencial sobre o bem, o mal e o destino, distanciando-se do regionalismo documental descrito na alternativa a. A linguagem é reinventada por meio de neologismos e sintaxe própria, o que a opõe frontalmente à economia vocabular de Graciliano mencionada em e. As alternativas c e d descrevem, respectivamente, Rubem Fonseca e Clarice Lispector.
Revisão rápida
- A literatura contemporânea não tem escola dominante nem consenso crítico consolidado.
- O Concretismo dos anos 50 propõe a poesia verbivocovisual e abandona o verso.
- A censura da ditadura leva os autores a cifrar o texto em camadas de metáfora.
- A poesia marginal circula fora do mercado, com humor, coloquialismo e brevidade.
- A prosa se divide em regionalista renovada, intimista, urbana e memorialística.
- Hibridismo de gêneros, metalinguagem e fragmentação atravessam o período.
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