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Figuras de Linguagem: guia completo para a UERJ

Figuras de linguagem uma a uma, com os pares que mais confundem. Metáfora e metonímia, antítese e paradoxo, eufemismo e disfemismo, com questões comentadas.

Capa do artigo: Figuras de Linguagem: guia completo para a UERJ

Figuras de linguagem, também chamadas de figuras de retórica, são recursos que exploram a linguagem conotativa, isto é, a palavra usada fora do seu sentido literal. Elas estão no centro da função poética da linguagem e, por isso, no centro de qualquer texto literário.

Reconhecê-las não é exercício de nomenclatura. Em uma prova como a da UERJ, que trabalha com poesia, crônica e prosa literária, a compreensão do texto depende de identificar a figura empregada. Sem isso, a leitura fica na superfície.

Neste guia você vai encontrar as principais figuras organizadas por grupo, com atenção especial aos pares que mais geram confusão.

Denotação e conotação

Antes das figuras, a distinção que sustenta todas elas:

  • Denotação: sentido literal, dicionarizado. “O deserto do Saara é quente.”
  • Conotação: sentido figurado, construído no contexto. “Amar é um deserto e seus temores.”

No verso de Djavan, deserto não é o acidente geográfico. O autor aproxima o amor e o deserto porque enxerga entre eles uma característica comum, e não diz qual. Essa transferência de sentido é o mecanismo da figura de linguagem.

Figuras de palavra

Metáfora

Comparação subjetiva, feita sem conectivo comparativo. Há transferência de valor entre dois elementos distintos, e o autor não explicita o que eles têm em comum.

  • “O pai era uma onça.”
  • “A internet é um tribunal.”

Repare no primeiro exemplo: a metáfora se estabelece entre o núcleo do sujeito e o predicativo, construção que a banca da UERJ já cobrou e que costuma ser chamada de metáfora predicativa.

O que caracteriza a metáfora é a lacuna deixada ao leitor. Ao dizer que a mulher é uma flor, o poeta pode estar falando de beleza, delicadeza ou fragilidade. Cabe a quem lê levantar a hipótese.

Comparação

Também aproxima dois elementos, mas de forma explícita, com conectivo: como, tal qual, feito, que nem, assim como.

  • “Ele era forte como um touro.”

A diferença entre metáfora e comparação está apenas na presença do conectivo. Sem ele, metáfora; com ele, comparação.

Metonímia

Substituição de um nome por outro que guarda com ele uma relação de proximidade. Não há comparação, há troca.

RelaçãoExemplo
Parte pelo todo”Várias pernas andavam na rua.”
Autor pela obra”Gosto de ler Clarice Lispector.”
Lugar pelo produto”Fumei um saboroso Havana.”
Continente pelo conteúdo”Bebeu a taça toda.”
Marca pelo produto”Comprou uma gilete.”
Singular pelo pluralA mulher foi às ruas.”
Efeito pela causa”Comprou a casa com o suor do rosto.”

O critério de distinção em relação à metáfora é direto: metáfora compara, metonímia substitui.

Catacrese

Uso de uma palavra na ausência de um termo próprio. É tão incorporada à língua que passa despercebida.

  • da mesa”, “céu da boca”, “braço da cadeira”, “dente de alho”, “embarcar no ônibus”

Sinestesia

Cruzamento de sensações de sentidos diferentes.

  • “Um doce perfume.” (paladar e olfato)
  • “Uma voz áspera.” (tato e audição)

Figuras de pensamento

Antítese e paradoxo

Este é o par que mais derruba candidato, porque os dois trabalham com oposição. A diferença está no que se faz com as ideias opostas:

Antítese: separa. As ideias contrárias aparecem lado a lado, distinguíveis.

Paradoxo: funde. As ideias contrárias se unem numa imagem que soa absurda.

Antítese:

  • “Chora-se no frio, canta-se no calor.”
  • “Desejo viver o divino enquanto muitos desejam o material.”

Paradoxo:

  • “Estou cheio de me sentir vazio.”
  • “É ferida que dói e não se sente.” (Camões)
  • “Sua liberdade era sua escravidão.” (Vinicius de Moraes)

Em “ferida que dói e não se sente”, as duas ideias se anulam: se dói, sente-se. É a impossibilidade lógica que caracteriza o paradoxo.

Ironia

Diz-se o oposto do que se pensa. Depende inteiramente do contexto, e às vezes é tão sutil que passa despercebida.

  • “Ele é muito amigo.” (dito de quem fala mal de todos)
  • “O aproveitamento escolar não poderia ser melhor: foi reprovado em todas as matérias.”

Quando a UERJ apresenta um quadrinho ou uma crônica e pergunta pelo efeito de sentido, a ironia é uma das respostas mais frequentes. E ela nunca se identifica pela palavra isolada, só pela situação.

Eufemismo e disfemismo

Eufemismo suaviza uma ideia negativa, em geral ligada à morte.

  • “Os amigos antigos foram estudar a geologia dos campos-santos.” (Machado de Assis)
  • “Quando a indesejada das gentes chegar.” (Manuel Bandeira)

Disfemismo faz o contrário: agrava, torna grosseiro.

  • “Bateu as botas.”
  • “Está comendo capim pela raiz.”

Este é um ponto que muita gente erra. Expressões como “bater as botas” não são eufemismo: elas não suavizam a morte, elas a tratam de forma rude. A gramática as classifica como disfemismo.

Prosopopeia ou personificação

Atribui características de ser animado a seres inanimados.

  • “A lua pedia atenção aos amantes.”
  • “As pedras suspiravam.”

Hipérbole

Exagero intencional para causar impacto.

  • “Quero ter um milhão de amigos.”
  • “Estou morrendo de fome.”

Lítotes

Afirma algo pela negação do contrário, atenuando a expressão.

  • “Ela não é nada boba.” (é muito esperta)
  • “O resultado não foi mau.” (foi bom)

Figuras de sintaxe

Elipse

Omissão de um termo facilmente recuperável pelo contexto.

  • “Falamos a verdade sempre.” (omite-se o sujeito nós)
  • “Na sala, apenas o silêncio.” (omite-se o verbo havia)

Zeugma

Elipse de um termo já mencionado antes.

  • “Ele prefere cinema; ela, teatro.” (omite-se prefere)

Pleonasmo

Repetição intencional de uma ideia, com valor de ênfase.

  • Vi com meus próprios olhos.”

Não confundir com o pleonasmo vicioso, que é erro: “subir para cima”, “entrar para dentro”.

Anáfora

Repetição de uma palavra no início de versos ou frases sucessivas.

  • Se eu pudesse, se eu quisesse, se eu ousasse.”

Polissíndeto

Repetição enfática de conectivos.

  • “E ri, e canta, e dança, e grita.”

Silepse

Concordância com a ideia, não com a forma escrita.

  • Vossa Excelência parece cansado.” (silepse de gênero)
  • Os brasileiros somos otimistas.” (silepse de pessoa)

Os pares que mais confundem

ConfusãoComo resolver
Metáfora x comparaçãotem conectivo? comparação. sem conectivo? metáfora
Metáfora x metonímiacompara? metáfora. substitui? metonímia
Antítese x paradoxoideias separadas? antítese. ideias fundidas? paradoxo
Eufemismo x disfemismosuaviza? eufemismo. agrava? disfemismo
Elipse x zeugmatermo nunca dito? elipse. termo já dito antes? zeugma

O que cai na UERJ

Figuras de linguagem estão explicitamente no programa da UERJ, e a banca as cobra de um jeito característico:

  • Nunca de forma isolada. A questão não pergunta “qual é a figura empregada” e para por aí. Ela pergunta que efeito de sentido a figura produz no texto, o que exige compreender o argumento do autor.
  • Sempre dentro de texto literário. Poema, crônica, conto e quadrinho são os suportes preferidos. Metáfora, metonímia, ironia e antítese são as mais recorrentes.
  • Em pares contrastantes. A banca gosta de montar alternativas que trocam metáfora por metonímia ou antítese por paradoxo, exatamente os pares tratados acima.

Na redação, o cuidado é inverso: o texto dissertativo pede linguagem denotativa e objetiva. Metáforas gastas e hipérboles enfraquecem a argumentação. A figura, quando usada, deve servir à clareza, não ao ornamento.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

No verso “Várias pernas atravessavam a avenida sob a chuva”, a figura de linguagem empregada é:

a) metáfora b) metonímia c) prosopopeia d) hipérbole e) catacrese

Gabarito: b

Comentário: Não são as pernas que atravessam a avenida, são as pessoas. Houve substituição da parte pelo todo, relação típica da metonímia. Não há comparação entre dois elementos, o que exclui a metáfora. Também não há atribuição de característica animada a ser inanimado, o que exclui a prosopopeia, nem exagero, o que exclui a hipérbole.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Leia os versos:

I. “Amor é fogo que arde sem se ver.” II. “É ferida que dói e não se sente.”

As figuras de linguagem predominantes em I e II são, respectivamente:

a) comparação e antítese b) metáfora e antítese c) metáfora e paradoxo d) metonímia e paradoxo e) hipérbole e ironia

Gabarito: c

Comentário: Em I, o amor é identificado ao fogo sem conectivo comparativo, o que caracteriza metáfora. Em II, as ideias de doer e não sentir se fundem em uma única imagem logicamente impossível, o que caracteriza paradoxo. A alternativa b é a distratora mais forte: a antítese exigiria que as ideias opostas aparecessem separadas e distinguíveis, como em “chora-se no frio, canta-se no calor”, e não fundidas na mesma afirmação.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Considere as expressões referentes à morte:

I. “Foi desta para melhor.” II. “Bateu as botas.”

Sobre elas, é correto afirmar que:

a) ambas são eufemismos, pois evitam a palavra morte. b) ambas são disfemismos, pois recorrem à linguagem informal. c) I é eufemismo e II é disfemismo. d) I é disfemismo e II é eufemismo. e) I é metonímia e II é catacrese.

Gabarito: c

Comentário: A alternativa a é a armadilha da questão, porque as duas expressões de fato evitam a palavra morte. Mas o critério não é o de evitar, e sim o de suavizar. Em I, a formulação atenua e ameniza a ideia da morte, caracterizando eufemismo. Em II, a expressão trata a morte de modo grosseiro e jocoso, o que a gramática classifica como disfemismo, a figura oposta ao eufemismo.

Revisão rápida

  • Figura de linguagem é uso conotativo da palavra, fora do sentido literal.
  • Metáfora compara sem conectivo; comparação usa conectivo; metonímia substitui por relação de proximidade.
  • Antítese separa ideias opostas; paradoxo funde ideias que se anulam.
  • Eufemismo suaviza a ideia negativa; disfemismo a agrava.
  • Ironia depende do contexto e não se reconhece pela palavra isolada.
  • Na UERJ, a pergunta nunca é qual a figura, e sim que efeito ela produz no texto.

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