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Não Me Abandone Jamais: resumo e análise de Kazuo Ishiguro

Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, resumido em suas três partes. Kathy, Ruth, Tommy, os clones doadores de órgãos e o tema da memória.

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Não Me Abandone Jamais, do escritor britânico nascido em Nagasaki Kazuo Ishiguro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, é um romance que se revela aos poucos: o leitor só compreende plenamente a natureza do mundo narrado à medida que a própria narradora, Kathy, também vai reconstruindo suas memórias. Neste post você vai encontrar o resumo das três partes e as chaves de leitura mais importantes.

Um romance memorialista e de revelação lenta

Muitos leitores reclamam do ritmo lento da obra, mas essa lentidão é projeto, não defeito. O romance é construído como memória: Kathy, a narradora, reconstrói fragmentos de seu passado em Hailsham, e a compreensão do leitor sobre a verdadeira natureza daquele mundo se dá no mesmo ritmo gradual da narradora, que também precisou de tempo para entender plenamente sua própria condição.

Um dos temas centrais que emerge dessa estrutura é a importância da memória para a construção da identidade: como olhar para o passado ajuda a entender quem somos no presente, mesmo quando esse passado é doloroso ou incompleto.

Parte 1: Hailsham

A primeira parte se passa no internato de Hailsham, sob a direção de Miss Emily. Os capítulos iniciais estabelecem o cotidiano dos estudantes, incluindo a polêmica em torno de “vales” recebidos por trabalhos artísticos, trocados posteriormente em um bazar.

Um episódio revelador ocorre quando os alunos, já adolescentes, assistem a uma aula sobre a Segunda Guerra Mundial e fazem comentários displicentes sobre campos de concentração cercados por arame, sem perceber a ironia sinistra: Hailsham também é cercado. Quando questionada, Miss Emily afirma que os alunos “foram contados, mas não lhes contaram tudo”, frase que condensa o clima de mistério proposital que envolve toda a instituição.

Ao longo dessa parte, o leitor começa a perceber, por meio de referências indiretas e comentários dos personagens, que os estudantes de Hailsham são clones, criados com uma finalidade que ainda não é revelada explicitamente, mas que já se insinua através de discussões sobre suas possíveis origens genéticas.

Parte 2: a transição para Cottages

A segunda parte acompanha Kathy, Ruth e Tommy deixando Hailsham para viver nos chamados Cottages, um espaço de transição antes de assumirem seus papéis definitivos como cuidadores e, posteriormente, doadores. Essa mudança marca o início de uma fase de maior autonomia e maturidade para os personagens.

Nesta fase, o sexo aparece como tema recorrente e tratado com naturalidade instintiva entre os jovens, sem culpa moral associada. Surge inclusive uma teoria entre eles de que a prática sexual melhoraria o funcionamento dos órgãos, ideia que ganha peso irônico à luz do que o leitor descobre progressivamente sobre o destino desses corpos.

O relacionamento entre Kathy e Ruth é marcado por tensões e ciúmes, sobretudo envolvendo Tommy, com quem as duas têm vínculos afetivos complexos ao longo da narrativa. Um episódio de humilhação pública de Ruth em uma lanchonete e a busca pelos personagens por informações sobre suas origens, incluindo teorias sobre quais pessoas poderiam ter servido de base genética para os clones, ocupam boa parte dessa seção.

Parte 3: o adiamento e a verdade

Na terceira parte, já adultos, os personagens buscam informações sobre um suposto “adiamento”: a possibilidade de casais genuinamente apaixonados conseguirem postergar o início de suas doações de órgãos. Kathy e Tommy, seguindo pistas, procuram Madame, figura misteriosa ligada a Hailsham, na tentativa de comprovar essa possibilidade.

O encontro com Madame e, posteriormente, com Miss Emily, traz as revelações finais sobre a verdadeira natureza de Hailsham: uma instituição criada para dar aos clones uma educação e uma infância mais humanizadas do que a de outros centros de criação, numa tentativa das idealizadoras de provar que essas crianças possuíam alma e sensibilidade artística, e não seriam meros recipientes biológicos destinados à doação de órgãos.

Essa revelação, porém, não muda o destino dos personagens: não existe, de fato, “adiamento” possível. Kathy, Ruth e Tommy seguirão seus papéis de cuidadores e doadores até o fim de suas vidas, tal como todos os demais clones criados com essa finalidade.

A crítica bioética da obra

Não Me Abandone Jamais levanta questões centrais sobre bioética, dignidade humana e os limites da ciência: até que ponto seres criados por clonagem, mesmo dotados de sentimentos, memórias e sensibilidade artística equivalentes aos de qualquer ser humano, podem ser tratados como recursos a serem utilizados em benefício de outros?

A obra não oferece respostas fáceis, e a aceitação relativamente passiva dos próprios personagens diante de seu destino é um dos aspectos mais perturbadores e discutidos da narrativa: eles não se rebelam contra o sistema que os condena, apenas buscam, dentro dele, pequenos gestos de humanidade, afeto e significado.

O que cai na UERJ

Quando Não Me Abandone Jamais está no programa, sobretudo como base de redação, as questões costumam explorar:

  • A importância da memória na reconstrução da identidade e na compreensão do próprio passado.
  • A crítica bioética sobre os limites éticos da manipulação genética e da instrumentalização de vidas.
  • A revelação gradual da narrativa, e como essa estrutura reflete o próprio processo de descoberta da narradora.
  • A aceitação passiva do destino pelos personagens, e o que isso revela sobre resignação diante de sistemas opressivos.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

A revelação gradual da natureza dos estudantes de Hailsham como clones, ao longo do romance, tem como efeito:

a) confundir desnecessariamente o leitor sem função narrativa. b) reproduzir, na experiência de leitura, o mesmo processo gradual de descoberta vivido pela narradora sobre sua própria condição. c) eliminar qualquer tensão dramática da obra. d) tornar a obra incompreensível sem explicações externas. e) indicar falha de planejamento narrativo por parte do autor.

Gabarito: b

Comentário: A estrutura memorialista do romance faz com que o leitor descubra a verdadeira natureza de Hailsham no mesmo ritmo gradual em que a narradora Kathy reconstrói e compreende suas próprias memórias, o que aproxima a experiência de leitura da experiência de descoberta da personagem. Essa lentidão deliberada é recurso central do projeto narrativo de Ishiguro, e não falha de construção.


Questão 2 (Estilo UERJ)

A frase atribuída a Miss Emily, segundo a qual os alunos “foram contados, mas não lhes contaram tudo”, sintetiza:

a) uma mentira completa contada aos estudantes de Hailsham. b) a estratégia de revelar parcialmente aos clones sua condição, sem expor toda a crueldade de seu destino final. c) uma afirmação sem qualquer relevância para o enredo. d) a garantia de que os estudantes teriam vida plena e livre de restrições. e) a comprovação de que Hailsham era uma escola comum, sem particularidades.

Gabarito: b

Comentário: A frase revela a lógica de revelação parcial adotada pelas instituições que criam os clones: os estudantes sabem, em algum nível, que serão doadores, mas o peso completo dessa condição e suas implicações são administrados de forma gradual e incompleta, o que gera o clima de mistério e desconforto que permeia toda a narrativa.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Sobre o desfecho de Não Me Abandone Jamais, no qual se revela que não existe “adiamento” real para o destino dos clones, é correto afirmar que:

a) representa um final feliz e reconfortante para os personagens. b) confirma que a esperança de Kathy e Tommy era infundada, e reforça a crítica bioética central da obra sobre a instrumentalização de vidas criadas por clonagem. c) indica que Hailsham conseguiu, de fato, salvar seus alunos do destino de doação. d) muda completamente o gênero da obra para comédia romântica. e) é irrelevante para a interpretação do romance.

Gabarito: b

Comentário: A confirmação de que não existe possibilidade real de adiamento reforça o projeto crítico da obra: por mais humanizada que tenha sido a educação oferecida em Hailsham, e por mais genuínos que sejam os sentimentos e vínculos afetivos dos personagens, o sistema que os criou para servir de doadores de órgãos permanece inalterado e implacável, o que constitui a denúncia bioética central do romance.

Revisão rápida

  • Kazuo Ishiguro é vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.
  • O romance é memorialista, e a revelação da trama acompanha o ritmo da memória da narradora.
  • A primeira parte se passa em Hailsham, internato que educa clones destinados a doação de órgãos.
  • A segunda parte acompanha a transição de Kathy, Ruth e Tommy para os Cottages.
  • A terceira parte revela que não existe “adiamento” real para o destino de doador.
  • A obra levanta questões bioéticas sobre dignidade e instrumentalização de vidas criadas por clonagem.

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