Método O Prof. Projetos Vestibular UERJ ↳ A UERJ (história) ↳ Cursos da UERJ ↳ Nota de Corte (79 cursos) ↳ Calculadora de Nota ↳ Cotas UERJ ↳ Glossário Provas e Gabaritos ↳ Gabarito 2º EQ (06/09) ↳ Prova UERJ 2027 ↳ Simulado UERJ (PDF) ↳ Simulado Interativo ↳ Banco de Questões ↳ Temas que Mais Caem Obras ↳ O Cortiço (2º EQ) ↳ Ainda Estou Aqui (1º EQ) ↳ Luanda, Lisboa, Paraíso ↳ O Bem-Amado YouTube Blog Quero minha vaga
← Voltar ao blog

O Quase Fim do Mundo, de Pepetela: resumo e análise

O Quase Fim do Mundo, de Pepetela, resumido capítulo a capítulo. Simba, os sobreviventes de Calpe, a crítica social angolana e o que a UERJ cobra da obra.

Capa do artigo: O Quase Fim do Mundo, de Pepetela: resumo e análise

O Quase Fim do Mundo, de Pepetela, é leitura obrigatória para a prova discursiva de língua portuguesa da UERJ. Neste post você vai encontrar o resumo da obra, apresentado ao longo dos capítulos, e as chaves de leitura mais exploradas em prova.

Pepetela: o autor

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo literário Pepetela, nasceu em Benguela, Angola, e estudou em Lisboa, no Porto, em Paris e na Argélia, onde se formou em sociologia. Fez parte do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e participou da luta armada pela independência do país, experiência que dá origem ao seu apelido literário. Foi vice-ministro da Educação, lecionou sociologia na Universidade de Luanda e recebeu, entre outros prêmios, o Prêmio Camões de 1997.

Essa trajetória política e social é indissociável da obra: Pepetela constrói uma escrita marcada por crítica política e sociocultural, discutindo a presença europeia na formação da cultura africana e defendendo um caráter nacionalista, voltado para a construção de uma identidade angolana que não fique presa ao fascínio pela cultura ocidental.

A premissa: um apocalipse silencioso

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por Simba Colo, médico formado em Londres, que trabalha na cidade fictícia de Calpe, em Angola. Ao voltar de um trabalho extra de vacinação, Simba percebe um clarão estranho no céu e, ao se aproximar de casa, encontra um silêncio absoluto: ruas vazias, carros parados, rádio e televisão sem sinal, e nenhum sinal de sua esposa, de sua filha ou de qualquer vizinho. Toda a humanidade parece ter desaparecido de uma só vez, sem explicação.

Esse início estabelece o tom do romance: uma ficção especulativa que usa a hipótese do apocalipse para investigar, mais do que a sobrevivência física, o comportamento humano diante da ausência de regras e de sociedade.

Os sobreviventes se encontram

Aos poucos, Simba descobre que não está sozinho. Encontra Geni, uma mulher que interpreta o desastre como sinal religioso e passa a se apresentar como líder espiritual dos sobreviventes, e o garoto Kiari, que perambula gritando frases sem sentido sobre lepra, revelando algum grau de perturbação diante do trauma. Depois se junta ao grupo a jovem Jude. Ao longo da narrativa, o número de sobreviventes identificados por Simba cresce lentamente, e cada novo encontro traz também uma reflexão do narrador sobre o comportamento humano em situação-limite.

Entre os personagens que se somam ao grupo estão Kiboro, um antigo ladrão que passa a usar roupas extravagantes e a exagerar em tudo o que nunca teve oportunidade de ter; Janet, pesquisadora norte-americana que estudava o comportamento sexual de gorilas na floresta; Isis, mulher que desperta a paixão obsessiva de Simba e que carrega uma história pessoal marcada pela fuga do próprio pai de um ritual tradicional de mutilação genital feminina; Jan, sul-africano que sabe pilotar avião e cuja relação com o passado do apartheid permanece em aberto; e Rick, personagem ligado a um saber ancestral sobre fertilidade e geração de vida, tratado pelo grupo, por vezes com ironia, como uma espécie de curandeiro.

As reflexões que Pepetela insere na narrativa

Um traço central da técnica de Pepetela é interromper a trama de sobrevivência para inserir reflexões críticas, quase ensaísticas, sobre temas sociais e políticos. Ao longo dos capítulos, o narrador comenta o aquecimento global e o derretimento das geleiras do Kilimanjaro, o papel das ONGs que lucram com a tragédia africana, a forma como tradições patriarcais responsabilizam as mulheres pelo trabalho doméstico, e a mutilação genital feminina como imposição cultural que retira das mulheres o controle sobre o próprio corpo.

Essas digressões não são acessórias: constroem o projeto crítico do romance, que usa o cenário apocalíptico como pretexto para expor, sem os filtros da convivência social cotidiana, valores e estruturas de poder que a civilização normalmente disfarça.

A disputa amorosa e o ciúme de Simba

À medida que o grupo cresce, desenvolve-se uma teia de tensões amorosas centrada em Simba, que se apaixona por Isis e passa a nutrir ciúme de Kiboro, mesmo sabendo que a diferença de formação e de posição social entre os dois lhe dá vantagem. Isis e Janet, mulheres independentes e reflexivas, colocam-se por vezes contra Simba justamente quando ele assume posturas tradicionalistas e conservadoras, sobretudo em relação ao papel que as mulheres deveriam cumprir na reconstrução da humanidade. Esse embate revela uma das camadas mais férteis da obra: a crítica ao machismo do próprio narrador, que se apresenta como racional e científico, mas reproduz, sem perceber, os mesmos padrões patriarcais que o mundo anterior sustentava.

A viagem rumo à Europa

Na segunda metade do livro, o grupo se organiza para uma expedição maior: parte em busca de outros sobreviventes, passando pelo Egito antes de seguir para a Europa. Ao longo do trajeto, encontram outros grupos de sobreviventes com quem não conseguem se comunicar, o que reforça o isolamento e a fragmentação da humanidade pós-catástrofe. Descobre-se também que Janet e Isis estão grávidas, fato percebido por Rick antes mesmo delas, o que projeta sobre o grupo a responsabilidade simbólica de dar continuidade à espécie.

Ao chegarem à Europa, passando por Nápoles e Roma, os sobreviventes constatam que a antiga fronteira do Acordo de Schengen, que antes barrava a entrada de imigrantes africanos, perdeu todo o sentido: não há mais ninguém para impedir a passagem de quem quer que seja. Esse detalhe funciona como crítica pontual às políticas migratórias europeias, agora esvaziadas de qualquer poder diante do colapso geral.

O epílogo: o que aprendemos com a história

No capítulo final e no epílogo, o grupo retorna a Paris e discute o que teria causado a catástrofe, aventando a hipótese de que um grupo religioso radical teria provocado o desastre em nome de suas crenças. Diante das ruínas de uma civilização inteira, os sobreviventes debatem hipóteses sobre o futuro da humanidade e sobre a possibilidade de haver sobreviventes em outros lugares do planeta, inclusive nos Estados Unidos, hipótese que Janet quer acreditar verdadeira, mas que o silêncio do outro lado do oceano contraria.

Isis, como historiadora, formula a reflexão que sintetiza o projeto crítico do romance: a humanidade estuda sua própria história, mas insiste em repetir os erros do passado, como se o que já aconteceu não tivesse relação com o presente. O quase fim do mundo, mais do que um evento sobrenatural, funciona como experimento narrativo para testar se, diante da chance de recomeçar do zero, o ser humano reproduziria as mesmas hierarquias e os mesmos preconceitos de sempre.

O que cai na UERJ

Quando O Quase Fim do Mundo está no programa, as questões costumam explorar:

  • A crítica sociocultural angolana, ligada à trajetória política de Pepetela e à luta pela independência de Angola.
  • A crítica de gênero, presente tanto na mutilação genital feminina quanto no conservadorismo de Simba diante de Isis e Janet.
  • As digressões reflexivas do narrador, sobre aquecimento global, ONGs e política migratória europeia.
  • O sentido simbólico da gravidez de Janet e Isis para a continuidade da humanidade.
  • A reflexão final sobre a repetição da história, formulada por Isis no epílogo.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

A trajetória política de Pepetela, com participação na luta armada pela independência de Angola, relaciona-se com a obra O Quase Fim do Mundo na medida em que:

a) é completamente irrelevante para a compreensão do romance. b) impregna a narrativa de crítica sociocultural e reflexão sobre a formação de uma identidade nacional africana livre do fascínio pela cultura europeia. c) transforma o romance em um manifesto exclusivamente político, sem qualquer valor ficcional. d) indica que o autor abandonou totalmente suas posições políticas ao escrever ficção. e) restringe a obra a um público exclusivamente angolano.

Gabarito: b

Comentário: A vivência de Pepetela como participante do movimento de libertação de Angola molda sua escrita, marcada por crítica política e sociocultural voltada à relação entre a cultura africana e a presença europeia, e à construção de uma identidade nacional angolana. Essas reflexões atravessam o romance por meio de comentários e digressões inseridos ao longo da narrativa de sobrevivência.


Questão 2 (Estilo UERJ)

O conflito entre Simba e as personagens Isis e Janet, ao longo da segunda metade do romance, evidencia principalmente:

a) uma disputa exclusivamente afetiva, sem qualquer dimensão crítica. b) a contradição de um narrador que se apresenta como racional e científico, mas reproduz posturas tradicionalistas e conservadoras em relação ao papel das mulheres. c) a total ausência de conflitos entre os sobreviventes. d) a superioridade moral incontestável de Simba sobre as demais personagens. e) uma crítica exclusiva à ciência, sem relação com questões de gênero.

Gabarito: b

Comentário: Isis e Janet, mulheres independentes e reflexivas, colocam-se contra Simba justamente quando ele assume posições tradicionalistas sobre o papel feminino na reconstrução da humanidade. Essa tensão expõe a contradição de um narrador-médico que se vê como símbolo da razão e da ciência, mas reproduz, sem perceber, os mesmos padrões patriarcais da sociedade que desapareceu.


Questão 3 (Estilo UERJ)

A reflexão de Isis, no epílogo do romance, sobre a tendência humana de repetir erros do passado, sugere que:

a) a humanidade aprendeu definitivamente com sua história e não repetirá seus erros. b) o quase fim do mundo funciona como experimento narrativo para testar se, diante da chance de recomeçar, o ser humano reproduziria as mesmas hierarquias e preconceitos anteriores. c) o estudo da história é inútil e deve ser abandonado. d) apenas os sobreviventes europeus têm responsabilidade sobre o futuro da humanidade. e) a catástrofe eliminou por completo qualquer possibilidade de conflito futuro entre os sobreviventes.

Gabarito: b

Comentário: Ao formular, como historiadora, a ideia de que a humanidade estuda sua história mas insiste em repeti-la, Isis condensa o projeto crítico do romance: o quase fim do mundo não é apenas um evento catastrófico, mas um dispositivo narrativo que expõe como os sobreviventes, mesmo diante da oportunidade de recomeçar, seguem reproduzindo hierarquias, ciúmes e preconceitos do mundo anterior.

Revisão rápida

  • O Quase Fim do Mundo, de Pepetela, é narrado em primeira pessoa pelo médico Simba Colo.
  • A obra parte de um apocalipse silencioso, sem explicação imediata, que faz desaparecer quase toda a humanidade.
  • Pepetela insere reflexões críticas sobre aquecimento global, ONGs, patriarcado e mutilação genital feminina.
  • O grupo de sobreviventes viaja da África até a Europa em busca de outros sobreviventes.
  • Janet e Isis engravidam, projetando sobre o grupo a responsabilidade pela continuidade da espécie.
  • No epílogo, Isis reflete sobre a tendência humana de repetir os erros do passado.

Leia também:


Quer se preparar de verdade para a UERJ?

O DoMonteiro tem projetos completos para cada etapa do vestibular da UERJ, do 1º Exame de Qualificação ao Discursivo, com diagnóstico inicial, trilha semanal, simulados comentados e revisão por mapa de erros.

Conheça os projetos DoMonteiro em domonteiro.com.br e comece a sua preparação com quem conhece a UERJ de ponta a ponta.

Quer ir além do conteúdo gratuito? Conheça os projetos DoMonteiro para o Vestibular UERJ 2027.

Ver projetos