O papel da mulher na sociedade é um dos temas mais recorrentes em redações de vestibular, e também um dos mais fáceis de tratar de forma rasa. Este post reúne repertório consistente para sair do senso comum e construir um argumento sólido.
O estereótipo literário: a mulher que se respeita e a que se despreza
A literatura brasileira do século XIX e início do XX construiu, repetidamente, uma dicotomia reveladora: a mulher idealizada, pura e recatada, em oposição à mulher sedutora, associada à perdição e à queda moral do homem.
Em Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, o narrador Silvestre constrói exatamente essa divisão em torno das mulheres que cruzam seu caminho: algumas são tratadas como dignas de respeito, outras como responsáveis por seus próprios infortúnios amorosos.
Essa dicotomia não é peculiaridade de uma obra: ela atravessa a literatura ocidental e reflete uma estrutura social mais ampla, em que o valor da mulher era medido por sua conformidade a um padrão de comportamento estabelecido por homens.
Uso em redação: esse repertório literário serve para demonstrar que o julgamento moral da mulher com base em seu comportamento sexual ou social não é fenômeno recente, tem raízes históricas profundas, e a literatura documenta e, por vezes, reproduz essa estrutura.
A perspectiva jurídica: da omissão à criminalização
Um caminho argumentativo robusto passa pela evolução do tratamento legal dado às mulheres e à violência contra elas no Brasil.
Pontos que merecem repertório:
- A Lei Maria da Penha (2006) foi um marco no reconhecimento legal da violência doméstica como questão de Estado, não como “briga de casal”.
- A tipificação do feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio, reconhecendo que existe uma modalidade específica de violência letal motivada pelo gênero da vítima.
- A persistência do problema apesar da legislação: ter lei não é o mesmo que ter mudança social efetiva, e essa distância entre norma e prática é, em si, matéria rica para argumentação.
Uso em redação: citar a legislação demonstra domínio de repertório concreto e verificável, mas o argumento fica mais forte quando você discute a distância entre a lei e a realidade, e não apenas menciona que a lei existe.
O argumento contra a banalização
Um recurso argumentativo eficaz é abordar diretamente a tentativa, frequente em discursos públicos e nas redes sociais, de desqualificar o debate sobre violência de gênero como “mimimi” ou pauta secundária.
Esse tipo de discurso opera por minimização: trata como exagero ou vitimismo aquilo que é, na verdade, um problema de saúde pública e segurança, mensurável por estatísticas de feminicídio e violência doméstica.
Uso em redação: desmontar esse argumento de desqualificação, mostrando por que ele é logicamente frágil (nega dados concretos em nome de uma opinião), fortalece a tese e demonstra maturidade argumentativa.
Estruturando o argumento
Um caminho possível de desenvolvimento:
- Contextualização histórica: a construção literária e social da mulher idealizada versus a mulher condenada moralmente.
- Argumento jurídico: a evolução legal, da omissão à criminalização específica, e a distância entre lei e prática.
- Argumento crítico: a análise dos discursos que buscam desqualificar o debate, e por que eles não resistem aos dados disponíveis.
O que cai na UERJ
Este tema pode aparecer de duas formas:
- Como tema direto de redação, explorando facetas históricas, jurídicas ou sociais do papel da mulher.
- Como repertório para outros temas, já que a discussão sobre gênero atravessa questões de trabalho, educação, representatividade política e violência.
Em obras do programa que constroem personagens femininas de forma estereotipada, como Coração, Cabeça e Estômago, a leitura crítica dessa construção é competência exigida tanto na interpretação quanto, potencialmente, como repertório para a redação.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A dicotomia entre “a mulher que se respeita” e “a mulher que se despreza”, presente em obras do século XIX, revela:
a) uma visão neutra e objetiva sobre o comportamento feminino. b) uma estrutura social que media o valor da mulher pela conformidade a padrões de comportamento estabelecidos externamente. c) ausência completa de julgamento moral nas relações da época. d) uma crítica direta e consciente ao machismo por parte dos autores. e) tema irrelevante para a análise literária contemporânea.
Gabarito: b
Comentário: A separação entre mulheres dignas de respeito e mulheres associadas à perdição reflete uma lógica social em que o valor feminino era julgado a partir de critérios de comportamento impostos, frequentemente ligados à sexualidade e à conformidade com expectativas masculinas. Reconhecer essa estrutura em obras literárias permite uma leitura crítica que ultrapassa a mera fruição do enredo.
Questão 2 (Estilo UERJ)
A tipificação do feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio, na legislação brasileira, reconhece que:
a) toda morte de mulher deve ser automaticamente classificada como feminicídio. b) existe uma modalidade específica de violência letal motivada pelo gênero da vítima, distinta do homicídio comum. c) a violência doméstica deixou de existir no Brasil após a lei. d) a legislação anterior já contemplava adequadamente esses casos. e) o problema está inteiramente resolvido do ponto de vista jurídico.
Gabarito: b
Comentário: A qualificação jurídica específica reconhece que certas mortes de mulheres ocorrem em razão de sua condição de gênero, geralmente dentro de relações de violência doméstica ou de controle, distinguindo-as do homicídio genérico. Isso não significa, porém, que o problema esteja resolvido: a distância entre a existência da lei e sua efetividade prática continua sendo objeto de debate e argumentação.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Discursos que classificam o debate sobre violência de gênero como pauta secundária ou exagerada operam, do ponto de vista argumentativo, por meio de:
a) apresentação de dados que contradizem estatísticas oficiais. b) minimização do problema, negando sua relevância sem contestar diretamente os dados que o comprovam. c) argumentação rigorosa baseada em evidências. d) reconhecimento da gravidade do problema com proposta de solução. e) uso exclusivo de argumento de autoridade científica.
Gabarito: b
Comentário: Esse tipo de discurso não costuma apresentar dados que refutem as estatísticas de feminicídio e violência doméstica; em vez disso, desqualifica o debate por meio de rótulos que sugerem exagero ou vitimismo, sem enfrentar diretamente as evidências disponíveis. Reconhecer essa estratégia é o que permite construir, em uma redação, uma resposta argumentativa consistente a esse tipo de posição.
Revisão rápida
- A literatura do século XIX frequentemente dividiu as mulheres entre idealizadas e condenadas moralmente.
- A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio marcam avanços jurídicos importantes.
- Existe distância entre a lei e a mudança social efetiva, e essa distância é material de argumento.
- Discursos de desqualificação do tema operam por minimização, não por refutação de dados.
- Use repertório literário, jurídico e crítico combinados para um argumento mais robusto.
- O tema conecta-se a trabalho, educação, representatividade política e violência.
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