O primeiro ponto sobre o Pré-Modernismo é o que mais se erra em prova: ele não é uma escola literária. Não há manifesto, não há grupo organizado, não há programa estético comum.
Pré-Modernismo é o nome que a crítica deu a um período histórico que vai do início do século XX até a Semana de Arte Moderna. É uma categoria de organização didática, criada para dar conta de autores muito diferentes entre si que produziram nesse intervalo.
O que os une não é uma estética. É uma atitude: todos olham para o Brasil real e mostram o que a literatura anterior preferia não ver.
O contexto histórico
O período coincide com a consolidação da República, proclamada no fim do século XIX e ainda buscando legitimidade no início do XX.
Essa consolidação foi feita à força, com o Exército sendo usado para combater movimentos que ameaçavam a unidade nacional. Canudos é o episódio mais conhecido, e não por acaso gerou a obra maior do período.
No mundo, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa reorganizavam a ordem internacional. No Brasil, a política do café com leite governava, e o país que aparecia nos discursos oficiais tinha pouca relação com o país que existia.
A marca do período: o Brasil invisível
A literatura pré-modernista traz para a cena regiões e populações que eram ignoradas, marginalizadas e invisíveis para a elite literária do Rio de Janeiro.
Cada autor traz um Brasil:
- Euclides da Cunha traz o sertão baiano de Canudos.
- Lima Barreto traz o subúrbio carioca e o funcionalismo público.
- Monteiro Lobato traz o caipira do interior paulista.
- Graça Aranha traz a imigração no Maranhão.
- Augusto dos Anjos traz a matéria em decomposição, tema que ninguém ousava tratar em verso.
As características comuns
Apesar da diversidade, alguns traços se repetem:
- Denúncia social. O contraste entre o Brasil oficial e o Brasil real.
- Regionalismo. O interior do país como espaço legítimo de literatura.
- Linguagem mais próxima da fala, rompendo com o rebuscamento parnasiano.
- Personagens marginalizadas. O sertanejo, o mulato, o funcionário público pobre, o caipira.
- Permanência de elementos anteriores. Muitos autores mantêm traços realistas, naturalistas ou parnasianos.
Esse último ponto é o que justifica o prefixo pré: são autores de transição, que já apontam para a ruptura modernista sem tê-la realizado.
Os autores centrais
Euclides da Cunha
Os Sertões é a obra maior do período. Dividida em A Terra, O Homem e A Luta, ela relata a Guerra de Canudos.
O livro é atravessado por uma contradição produtiva: Euclides parte de teorias deterministas e racistas da época, mas o que ele vê em campo contradiz o que ele pensava. A frase mais citada da obra, sobre a resistência do sertanejo, nasce desse choque entre teoria e observação.
Vale a atenção: a linguagem é científica e rebuscada, herança do Naturalismo.
Lima Barreto
Triste Fim de Policarpo Quaresma é a outra obra central. Lima Barreto escreve sobre o subúrbio, o preconceito racial e a burocracia, com linguagem simples e direta, muito à frente de seu tempo.
Policarpo é o nacionalista ingênuo que acredita no país e é destruído por ele. A crítica ao ufanismo é implacável.
Monteiro Lobato
Criou o Jeca Tatu, símbolo do caipira paulista. É um caso que exige leitura crítica: inicialmente, Lobato apresenta o Jeca como preguiçoso por natureza, reproduzindo o determinismo da época. Depois, revê a posição e passa a atribuir a condição do personagem à doença e ao abandono do Estado.
Augusto dos Anjos
Poeta singular, que não cabe em nenhuma classificação. Une vocabulário científico a temas como a morte, a decomposição e o horror da matéria. Sua poesia choca ainda hoje.
O que cai na UERJ
Este é um período especialmente relevante para a banca:
- Triste Fim de Policarpo Quaresma já integrou o programa da UERJ, e é obra recorrente em vestibulares do Rio.
- Identificação do período. Um trecho é apresentado e se pede a caracterização. Denúncia social somada a permanência de traços anteriores indica Pré-Modernismo.
- Leitura crítica do determinismo. Questões que exploram como os autores do período reproduzem ou contestam as teorias raciais da época.
Na redação, o período rende repertório robusto em temas sobre desigualdade regional, invisibilidade social e a distância entre o Brasil oficial e o real.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Sobre o Pré-Modernismo, é correto afirmar que:
a) constitui escola literária com manifesto e programa estético definidos. b) é um período histórico de transição, que reúne autores diversos unidos pela denúncia da realidade brasileira. c) representa a continuidade do idealismo romântico. d) surge após a Semana de Arte Moderna, como reação ao modernismo. e) caracteriza-se pela recusa de temas sociais em favor do rigor formal.
Gabarito: b
Comentário: O Pré-Modernismo não possui manifesto, grupo organizado nem programa comum, o que invalida a alternativa a. Trata-se de rótulo criado pela crítica para organizar didaticamente a produção do início do século XX até a Semana de Arte Moderna. O que aproxima autores tão distintos entre si é a atitude de voltar-se para o Brasil real e expor o que a literatura anterior ignorava.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Em Os Sertões, de Euclides da Cunha, observa-se uma tensão fundamental entre:
a) o lirismo do narrador e a objetividade dos fatos narrados. b) as teorias deterministas de que o autor partia e a resistência do sertanejo que ele observou em campo. c) a linguagem coloquial e o tema erudito. d) a defesa da República e a crítica ao Exército. e) o regionalismo nordestino e o cosmopolitismo carioca.
Gabarito: b
Comentário: Euclides parte do arcabouço determinista e racialista corrente em sua época, segundo o qual a mestiçagem produziria populações degeneradas. O que ele testemunha em Canudos, porém, é uma resistência prolongada contra forças muito superiores. Essa contradição entre a teoria de partida e a observação direta atravessa toda a obra e explica a célebre afirmação sobre a força do sertanejo.
Questão 3 (Estilo UERJ)
O personagem Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, pode ser caracterizado como:
a) o herói romântico que triunfa sobre as adversidades. b) o nacionalista idealista cuja crença no país o conduz à destruição, o que configura crítica ao ufanismo. c) o representante da elite carioca satisfeita com a República. d) o sertanejo que resiste às forças do governo. e) o caipira determinado pelo meio em que vive.
Gabarito: b
Comentário: Policarpo dedica a vida a projetos de exaltação nacional e é sistematicamente derrotado pelas instituições em que acreditava, terminando incompreendido e punido. A trajetória constrói uma crítica ao ufanismo e à distância entre o discurso patriótico e o funcionamento real do país. A alternativa d descreve o sertanejo de Os Sertões, e a alternativa e, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato.
Revisão rápida
- O Pré-Modernismo não é escola literária, é um período histórico de transição.
- Une autores diversos pela denúncia do Brasil real e pela visibilidade dada aos marginalizados.
- Mantém traços realistas, naturalistas e parnasianos, o que justifica o prefixo pré.
- Os Sertões nasce do choque entre teoria determinista e observação de campo.
- Triste Fim de Policarpo Quaresma critica o ufanismo pela derrota do protagonista.
- Monteiro Lobato revê sua posição sobre o Jeca Tatu, do determinismo à denúncia do abandono.
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