Realismo e Naturalismo são duas escolas literárias que surgem praticamente ao mesmo tempo no Brasil e compartilham uma marca decisiva: são antirromânticas. As duas nascem para romper com os valores da sociedade burguesa que o Romantismo idealizava.
Mas, a partir dessa origem comum, elas tomam caminhos diferentes. Confundi-las é um dos erros mais frequentes em prova. Neste post você vai entender o que cada uma propõe e como distingui-las com segurança.
A ruptura com o Romantismo
O Realismo é a escola mais explicitamente antirromântica: ela pega cada valor romântico e o inverte.
| Romantismo | Realismo |
|---|---|
| valoriza o passado | retrata o presente |
| idealiza a realidade | analisa a realidade |
| personagens planas e previsíveis | personagens complexas e esféricas |
| subjetividade e sentimentalismo | objetividade na narração |
| narração rápida, movida pela ação | narração lenta, movida pela análise |
| herói exemplar | ser humano contraditório |
| casamento como coroamento | adultério como tema recorrente |
A narração lenta não é um defeito: ela é consequência do projeto. Para mostrar a complexidade de uma personagem, é preciso tempo. Um ritmo cadenciado permite ao narrador demorar-se em uma hesitação, em um autoengano, em um gesto ambíguo.
Realismo: a análise psicológica
O Realismo volta o olhar para o interior do indivíduo. Interessa a ele a psicologia da personagem, suas contradições e a distância entre o que ela diz de si e o que de fato é.
Dois eixos temáticos organizam a escola:
- A relação entre ser e parecer. A hipocrisia social, a aparência mantida a qualquer custo.
- O adultério. Não pelo escândalo, mas como situação que expõe a fragilidade das convenções.
Marco inicial no Brasil: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Naturalismo: o romance de tese
O Naturalismo usa a narrativa para comprovar teorias científicas em voga na época. Por isso suas obras são chamadas de romances de tese: a história existe para demonstrar uma proposição.
Três teorias sustentam a escola:
Determinismo
Formulado por Hippolyte Taine, sustenta que o indivíduo não tem vontade própria: ele é produto da raça, do meio e do momento. O ambiente determina o comportamento e suprime o livre-arbítrio.
Vale um registro importante: a antropologia contemporânea já desmontou essa teoria. Ainda assim, ela reaparece em comentários preconceituosos que tratam o comportamento de grupos sociais como consequência inevitável da origem. Reconhecer a teoria em sua origem literária ajuda a identificar o argumento quando ele reaparece hoje.
Darwinismo social
Transposição da seleção natural para a sociedade: os mais aptos prevalecem, os menos aptos são eliminados. Nos romances naturalistas, aparece nas relações de dominação entre personagens.
Positivismo
De Auguste Comte, valoriza o conhecimento científico como única forma legítima de saber. Os valores religiosos passam a segundo plano.
Marco inicial no Brasil: O Mulato, de Aluísio Azevedo.
As diferenças que decidem a questão
| Realismo | Naturalismo | |
|---|---|---|
| Foco | psicologia do indivíduo | comportamento como fenômeno coletivo |
| Método | análise interior | romance de tese |
| Base | observação e ironia | teorias científicas |
| Personagem | complexa, contraditória | determinada pelo meio |
| Ambiente | cenário da ação | força que molda o destino |
| Linguagem | contida, irônica | crua, por vezes chocante |
| Marco no Brasil | Memórias Póstumas de Brás Cubas | O Mulato |
O teste mais rápido: pergunte se a obra investiga por que aquela pessoa é assim (Realismo) ou demonstra que ela não poderia ser diferente (Naturalismo).
Um cuidado com a periodização
O Naturalismo é contemporâneo do Realismo, não posterior a ele. Os dois começam praticamente juntos no Brasil, com o lançamento quase simultâneo de Memórias Póstumas e O Mulato. Tratá-los como fases sucessivas é um erro comum.
O que cai na UERJ
O tema aparece por dois caminhos:
- Caracterização de escola. Questões que apresentam um trecho e pedem a identificação do movimento. As marcas decisivas são o tipo de personagem e o papel do ambiente.
- Obras do programa. Quando um romance realista ou naturalista é adotado, as questões exploram a análise psicológica, a ironia e a relação entre indivíduo e meio.
Na redação, as teorias naturalistas rendem repertório em temas sobre determinismo social, mobilidade e desigualdade, desde que apresentadas criticamente. Usá-las como se fossem válidas é o oposto do que se espera.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A principal distinção entre Realismo e Naturalismo reside no fato de que:
a) o Realismo é anterior ao Naturalismo em várias décadas. b) apenas o Naturalismo apresenta postura antirromântica. c) o Realismo investiga a psicologia do indivíduo, enquanto o Naturalismo constrói romances de tese apoiados em teorias científicas. d) o Realismo idealiza a realidade e o Naturalismo a retrata objetivamente. e) o Naturalismo constrói personagens planas e o Realismo, esféricas.
Gabarito: c
Comentário: As duas escolas surgem quase simultaneamente e compartilham a ruptura com o Romantismo, o que afasta as alternativas a e b. A idealização é marca romântica, não realista, o que invalida d. A distinção efetiva está no método: o Realismo se detém na complexidade interior da personagem, ao passo que o Naturalismo utiliza a narrativa para demonstrar teses como o determinismo do meio.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Em um romance, o narrador atribui repetidamente o comportamento violento de um personagem às condições do cortiço em que ele cresceu, sugerindo que outro desfecho seria impossível. Essa construção evidencia a influência do:
a) positivismo b) determinismo c) romantismo d) simbolismo e) idealismo
Gabarito: b
Comentário: A ideia de que o meio molda o indivíduo a ponto de suprimir seu livre-arbítrio corresponde ao determinismo formulado por Hippolyte Taine, segundo o qual raça, meio e momento explicam o comportamento humano. O positivismo, descrito na alternativa a, refere-se à valorização do conhecimento científico e não trata especificamente dessa relação causal entre ambiente e conduta.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Considere as afirmações sobre o Realismo:
I. A narração tende a ser mais lenta que a romântica. II. O adultério é tema recorrente. III. As personagens são construídas de modo plano e previsível.
Está correto o que se afirma em:
a) I apenas b) I e II apenas c) II e III apenas d) I e III apenas e) I, II e III
Gabarito: b
Comentário: A afirmação I é correta e tem explicação técnica: revelar a complexidade psicológica exige um ritmo cadenciado, que permita ao narrador deter-se em hesitações e contradições. A afirmação II também procede, pois o adultério funciona como situação que expõe a fragilidade das convenções sociais. A afirmação III descreve característica romântica, e não realista: no Realismo, as personagens são esféricas, contraditórias e capazes de surpreender o leitor.
Revisão rápida
- Realismo e Naturalismo são contemporâneos e ambos antirrománticos.
- O Realismo inverte os valores românticos: presente, análise, personagem esférica, narração lenta.
- Seus eixos temáticos são a relação entre ser e parecer e o adultério.
- O Naturalismo constrói romance de tese sobre determinismo, darwinismo social e positivismo.
- No Realismo o ambiente é cenário; no Naturalismo, é força que molda o destino.
- Os marcos no Brasil são Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Mulato.
Leia também:
- Machado de Assis: as duas fases, estilo e obras
- Romantismo: as três gerações da poesia e a prosa
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