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Anos de Chumbo: resumo e análise dos contos de Chico Buarque

Anos de Chumbo e Outros Pontos, de Chico Buarque, resumido conto a conto. Meu Tio, o narrador infantil, e os temas centrais da coletânea para a UERJ.

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Anos de Chumbo e Outros Pontos, coletânea de contos de Chico Buarque, reúne oito narrativas com foco narrativo e temas variados, unidas por uma qualidade em comum: a capacidade de Chico Buarque de construir vozes narrativas muito distintas entre si. Neste post você vai encontrar o resumo dos contos principais e as chaves de leitura mais exploradas em prova.

A diversidade da coletânea

Um ponto que causa certa estranheza a quem começa a leitura: os oito contos do livro têm tons, focos narrativos e temáticas muito diferentes entre si, o que exige do leitor abordar cada texto isoladamente, sem esperar continuidade temática entre eles. Essa variedade é justamente uma das forças da obra, evidenciando a versatilidade de Chico Buarque como contista.

Meu Tio: o primeiro conto

O conto de abertura, “Meu Tio”, é narrado em primeira pessoa por uma menina, sobrinha do personagem-título. O foco narrativo em narrador personagem é central para a interpretação: o leitor tem acesso apenas à percepção da menina, suas hipóteses e suposições sobre o que os adultos ao seu redor pensam ou sentem, sem confirmação externa.

Essa limitação de perspectiva é rica para questões de prova sobre o que fica subentendido no texto: a menina levanta suposições sobre a relação entre o tio e seus pais que talvez não correspondam exatamente à realidade dos fatos, e cabe ao leitor perceber essa diferença entre a percepção infantil e o que de fato pode estar acontecendo.

O conto contrasta a atitude dos pais no início e no final da narrativa, gerando um efeito de choque que reconfigura a leitura de toda a história quando se olha retrospectivamente para as pistas deixadas ao longo do texto.

O Passaporte

O segundo conto acompanha, em terceira pessoa, um grande artista que esquece o passaporte antes de uma viagem internacional. A partir desse esquecimento aparentemente banal, a narrativa desenvolve uma reflexão sobre identidade, burocracia e as situações inusitadas que emergem de pequenos deslizes do cotidiano.

Os Primos de Campos

Narrado em primeira pessoa por um narrador que relembra sua infância e o início da vida adulta, este conto acompanha a convivência entre o protagonista, seu irmão mais velho, sua mãe, e os primos que vêm de Campos para uma visita, envolvendo também a presença de um delegado na trama. A ambientação memorialista, olhando para o passado a partir de um ponto posterior no tempo, é recorrente nesse tipo de narrativa de Chico Buarque.

Cida

Também narrado em primeira pessoa, este conto tem como protagonistas o próprio narrador e a personagem Cida. A ambientação se passa na região da Praia do Leblon, no Rio de Janeiro, com uma temporalidade que mistura passado recente e presente, sem precisão cronológica exata.

Copacabana

Um dos contos mais comentados da coletânea, ambientado no bairro carioca de Copacabana, com um tom descrito como intenso e inusitado, explorando a paisagem urbana e humana característica dessa região da cidade.

Para Clarice com Candura

Este conto, narrado em terceira pessoa, apresenta um jovem poeta, sua mãe e uma personagem chamada Clarice, numa clara referência intertextual a Clarice Lispector. A temporalidade da narrativa remete às décadas de 1960 e 1970, período histórico e literário evocado explicitamente pelo texto através de referências a obras e ao clima cultural da época.

O Sítio

Ambientado durante um período de isolamento social, este conto narra o encontro entre uma atriz e um escritor na Lapa, no Rio de Janeiro. Os dois personagens trocam histórias e desenvolvem a ideia de se isolarem juntos em um sítio, longe do mundo, num contexto em que todos ao redor também vivem confinados. A reflexão sobre isolamento, conexão humana e a criação artística durante crises coletivas atravessa esse conto.

Anos de Chumbo: o conto que dá título ao livro

O oitavo e último conto, que empresta seu nome à coletânea inteira, é descrito como o mais sugestivo e provocante do conjunto, fechando o livro com um tom que convida à reflexão política e histórica, dialogando com o próprio título da obra, expressão associada ao período de repressão da ditadura militar brasileira.

Chaves de leitura para a coletânea

Alguns eixos atravessam, de formas diferentes, os oito contos:

  • Variação de foco narrativo, entre primeira e terceira pessoa, exigindo atenção específica a cada conto.
  • Memória e passado, presente em vários contos que reconstroem a infância ou momentos anteriores da vida dos narradores.
  • Intertextualidade, sobretudo no conto que remete a Clarice Lispector.
  • Reflexão política e histórica, mais evidente no conto-título, mas presente de forma sutil em vários outros textos do conjunto.

O que cai na UERJ

Quando Anos de Chumbo está no programa, as questões costumam explorar:

  • O foco narrativo de cada conto e seus efeitos sobre a informação disponível ao leitor, sobretudo em “Meu Tio”.
  • O que fica subentendido nas narrativas em primeira pessoa, exigindo diferenciação entre percepção do narrador e realidade dos fatos.
  • A intertextualidade presente em “Para Clarice com Candura”.
  • O diálogo entre o conto-título e o contexto histórico que empresta nome à obra.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

O foco narrativo em primeira pessoa do conto “Meu Tio”, conduzido pela perspectiva de uma criança, tem como efeito:

a) garantir ao leitor acesso total e objetivo aos fatos narrados. b) limitar a informação disponível às hipóteses e suposições da narradora, exigindo que o leitor distinga percepção infantil de realidade dos fatos. c) eliminar qualquer ambiguidade da narrativa. d) tornar o conto incompreensível sem narrador onisciente. e) indicar que a narradora sempre compreende corretamente as situações que presencia.

Gabarito: b

Comentário: Como narradora personagem, a menina relata apenas o que percebe e supõe sobre as ações e sentimentos dos adultos ao seu redor, sem garantia de que suas interpretações correspondam à realidade completa dos fatos. Essa limitação de perspectiva exige do leitor atenção ao que fica subentendido no texto, distinguindo a leitura infantil da situação do que pode estar de fato ocorrendo entre os personagens adultos.


Questão 2 (Estilo UERJ)

A referência a Clarice Lispector no conto “Para Clarice com Candura” constitui um exemplo de:

a) coincidência sem qualquer intenção do autor. b) intertextualidade, que situa a narrativa em diálogo com a autora e o período histórico e literário evocado. c) plágio da obra de Clarice Lispector. d) crítica direta e hostil à escritora. e) recurso irrelevante para a interpretação do conto.

Gabarito: b

Comentário: Ao nomear uma personagem como Clarice e situar a narrativa nas décadas de 1960 e 1970, período de intensa produção da escritora, o conto estabelece diálogo intertextual que enriquece a leitura para quem reconhece essa referência, ancorando a narrativa em um contexto cultural e literário específico da época evocada.


Questão 3 (Estilo UERJ)

O conto que dá título à coletânea, “Anos de Chumbo”, posicionado como último texto do livro, sugere em seu próprio nome:

a) uma referência exclusivamente meteorológica, sem dimensão histórica. b) um diálogo com o período de repressão da ditadura militar brasileira, associado historicamente à expressão “anos de chumbo”. c) ausência total de relação com o contexto histórico brasileiro. d) uma comédia leve sem qualquer reflexão política. e) uma crítica exclusiva à literatura contemporânea, sem relação histórica.

Gabarito: b

Comentário: A expressão “anos de chumbo” é historicamente associada a períodos de repressão política e censura, sobretudo ao contexto da ditadura militar brasileira. Ao emprestar esse título tanto ao conto final quanto à coletânea inteira, Chico Buarque sinaliza uma camada de reflexão histórica e política que atravessa, de forma mais ou menos explícita, o conjunto dos oito contos do livro.

Revisão rápida

  • Anos de Chumbo e Outros Pontos reúne oito contos de Chico Buarque, com temas e focos narrativos variados.
  • “Meu Tio” é narrado em primeira pessoa por uma criança, exigindo leitura atenta ao que fica subentendido.
  • Vários contos exploram memória e reconstrução do passado a partir de um ponto posterior no tempo.
  • “Para Clarice com Candura” estabelece diálogo intertextual com Clarice Lispector.
  • “O Sítio” reflete sobre isolamento social e conexão humana durante uma crise coletiva.
  • O conto-título fecha a obra com reflexão histórica associada ao período da ditadura militar.

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