Todo texto diz mais do que está escrito. Parte do sentido fica implícita, e o leitor a reconstrói. Os dois principais mecanismos desse não dito são a pressuposição e o subentendido.
Este é um tema que aparece praticamente todos os anos na prova da UERJ, e sempre com a mesma formulação: identificar o pressuposto de um trecho. Neste post você vai aprender a fazer isso com segurança.
Pressuposição
Pressuposto é o que se supõe antecipadamente: uma informação que o texto não afirma, mas que precisa ser verdadeira para que a frase faça sentido.
- “Paulo ainda não foi julgado.”
O que a frase afirma: Paulo não foi julgado. O que ela pressupõe: Paulo será julgado. Essa segunda informação não está escrita, mas está inscrita no advérbio ainda.
A característica decisiva: o pressuposto está marcado no texto por um elemento linguístico identificável. Ele não depende de interpretação subjetiva, e por isso é objetivamente verificável.
As marcas que revelam pressupostos
Advérbios
São os marcadores mais frequentes.
| Advérbio | Exemplo | Pressuposto |
|---|---|---|
| ainda | ”Ele ainda estuda.” | ele estudava antes |
| já | ”Ela já chegou.” | esperava-se a chegada |
| também | ”Ele também foi aprovado.” | outros foram aprovados |
| só, apenas | ”Apenas dois vieram.” | esperavam-se mais |
| agora | ”Agora ele aceita.” | antes não aceitava |
Verbos de mudança de estado
Verbos como tornar-se, virar, passar a, começar a, deixar de e *continuar carregam pressupostos sobre a situação anterior.
- “Amanda tornou-se gerente.” → Pressuposto: Amanda não era gerente antes.
- “Ele deixou de fumar.” → Pressuposto: ele fumava.
- “A empresa continua operando.” → Pressuposto: ela já operava.
Adjetivos e orações adjetivas
- “Os alunos indisciplinados serão advertidos.” → Pressuposto: há alunos indisciplinados.
- “O programa que fracassou será revisto.” → Pressuposto: o programa fracassou.
Note que a oração adjetiva restritiva funciona como pressuposto: ela apresenta a informação como dado assentado, não como algo a ser discutido.
Substantivos que indicam retomada
- “A volta do programa foi anunciada.” → Pressuposto: o programa existiu antes e foi interrompido.
Subentendido
Subentendido é a informação que o leitor infere a partir do contexto, sem que haja marca linguística que a sustente.
- “Está frio aqui.” → Subentendido possível: feche a janela.
Nada na frase obriga essa leitura. Ela depende da situação: quem fala, para quem, em que circunstância.
A diferença que decide a questão
| Pressuposição | Subentendido | |
|---|---|---|
| Está marcado no texto? | sim, por elemento linguístico | não |
| Depende do contexto? | pouco | totalmente |
| Pode ser negado por quem falou? | não, é assumido | sim, é dedução do ouvinte |
| Verificação | objetiva | interpretativa |
Essa última linha é a mais reveladora. Se alguém diz “Paulo ainda não foi julgado”, não pode depois negar que esperava o julgamento: o pressuposto está assumido no enunciado.
Já quem diz “está frio aqui” pode perfeitamente negar que estivesse pedindo para fechar a janela. O subentendido é responsabilidade de quem interpreta, e por isso é uma forma de dizer sem se comprometer.
Por que isso importa além da prova
Pressuposição e subentendido são instrumentos poderosos de argumentação, e nem sempre honestos.
Uma pergunta como “quando você vai parar de mentir?” pressupõe que o interlocutor mente. Ao responder, ele já aceitou o pressuposto. Essa é a estrutura da pergunta capciosa, e ela aparece no discurso político e publicitário o tempo todo.
Reconhecer pressupostos é, portanto, um instrumento de leitura crítica, não apenas um conteúdo de vestibular.
O que cai na UERJ
O padrão da banca é bastante estável:
- Identificação direta do pressuposto. O enunciado fornece o conceito e pede que o candidato indique o pressuposto de um trecho. Advérbios e verbos de mudança de estado são os marcadores mais explorados.
- Distinção entre pressuposto e subentendido. A questão apresenta duas informações implícitas e pede a classificação de cada uma.
- Efeito argumentativo. Textos publicitários e políticos usam pressupostos para apresentar como dado aquilo que deveria ser discutido, e a banca explora esse mecanismo.
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Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Na frase “A empresa deixou de investir em pesquisa”, o pressuposto é que:
a) a empresa nunca investiu em pesquisa. b) a empresa investia em pesquisa anteriormente. c) a empresa pretende voltar a investir. d) a pesquisa não é relevante para a empresa. e) outras empresas investem em pesquisa.
Gabarito: b
Comentário: A locução “deixar de” pertence ao grupo dos verbos que indicam mudança de estado, e ela só faz sentido se a situação anterior existia. Ao afirmar que a empresa deixou de investir, o enunciado assume como dado que ela investia antes. As alternativas c e e descreveriam subentendidos possíveis em certos contextos, mas não estão marcadas linguisticamente no enunciado.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Considere as afirmações sobre o enunciado “Está muito quente nesta sala”, dito por alguém ao entrar em um ambiente:
I. Há o pressuposto de que a temperatura da sala é elevada. II. Há o subentendido de que o falante deseja que se ligue o ar-condicionado.
Sobre as afirmações, é correto dizer que:
a) apenas I está correta. b) apenas II está correta. c) I e II estão corretas, e a distinção entre elas é adequada. d) ambas descrevem pressupostos. e) ambas descrevem subentendidos.
Gabarito: c
Comentário: A elevação da temperatura está afirmada e marcada no enunciado pelo intensificador muito, constituindo informação assumida pelo falante. Já o pedido para ligar o ar-condicionado não tem qualquer marca linguística: é inferência do ouvinte a partir da situação, e o falante poderia negá-la sem contradizer-se. Essa possibilidade de negação é justamente o critério que distingue subentendido de pressuposto.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A pergunta “Quando o governo vai parar de ignorar o problema?” constitui recurso argumentativo porque:
a) apresenta dados objetivos sobre a atuação do governo. b) pressupõe que o governo ignora o problema, apresentando como dado aquilo que deveria ser demonstrado. c) apenas solicita informação sobre um prazo. d) constitui subentendido, sem marca linguística no enunciado. e) não contém informação implícita.
Gabarito: b
Comentário: A locução “parar de” marca linguisticamente o pressuposto de que a ação vinha ocorrendo, ou seja, de que o governo ignora o problema. Essa informação não é apresentada para discussão: ela é assumida como ponto de partida, de modo que qualquer resposta à pergunta já a valida. Trata-se da estrutura da pergunta capciosa, recurso frequente no discurso político e explorado pela banca em textos argumentativos.
Revisão rápida
- Pressuposto é informação implícita marcada por elemento linguístico no texto.
- Subentendido é inferência do leitor, sem marca linguística, dependente do contexto.
- Advérbios como ainda, já, também e apenas são os marcadores mais frequentes.
- Verbos de mudança de estado como tornar-se e deixar de carregam pressupostos sobre o antes.
- O falante não pode negar o pressuposto que assumiu; pode negar o subentendido.
- Pressupostos são recurso argumentativo: apresentam como dado o que deveria ser discutido.
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