As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Veríssimo, é leitura obrigatória para o primeiro Exame de Qualificação da UERJ. Diferente de um romance com enredo único, a obra reúne dezenas de crônicas independentes, o que exige uma leitura atenta a cada texto isoladamente. Neste post você vai encontrar a apresentação do autor, o tom que atravessa a coletânea e a análise de algumas das crônicas mais exploradas em prova.
Luís Fernando Veríssimo: o cronista
Luís Fernando Veríssimo, nascido em Porto Alegre em 1936, filho do escritor Erico Verissimo, é cronista, humorista, tradutor, roteirista, autor de teatro e romancista, com participação ativa na vida cultural brasileira desde o jornalismo até a televisão. Entre suas criações mais conhecidas estão o personagem O Analista de Bagé e o detetive atrapalhado Ed Mort, além da série Comédias da Vida Privada, adaptada para a TV.
O humor como lente crítica
O traço definidor da escrita de Veríssimo é o uso do humor, da ironia e do sarcasmo como instrumentos de observação social. O autor tem um olhar atento ao cotidiano e usa o riso para expor as contradições e as “mazelas” da sociedade, sejam elas relacionadas a homens, mulheres, casados ou solteiros. Ler suas crônicas “com os olhos sérios”, sem perceber essa camada irônica, é um dos erros mais comuns de quem se depara pela primeira vez com sua obra: o humor não é acessório, é o instrumento principal de crítica.
Um livro de crônicas sobre pequenas mentiras cotidianas
As Mentiras que os Homens Contam reúne cerca de quarenta crônicas curtas, cada uma explorando, de forma distinta, o tema da mentira nas relações humanas: mentiras no casamento, mentiras de sedução, mentiras que escondem vaidades, mentiras que evitam confrontos. A força do livro está justamente nessa variedade de situações cotidianas em que a mentira, pequena ou grande, aparece como parte constitutiva da convivência social.
A Verdade: a mentira em cadeia
Uma das crônicas mais emblemáticas da coletânea, com estrutura de fábula, narra a história de uma donzela que perde um anel de diamante e, para evitar a repreensão do pai, inventa que foi assaltada. A mentira inicial desencadeia uma sequência de consequências trágicas: o pai e os irmãos capturam e matam um homem inocente à procura do suposto ladrão, e, como o anel não é encontrado, a moça precisa inventar novos culpados para sustentar a mentira original, levando à morte de mais um inocente. Ao final, descobre-se a verdade real por meio de um pescador condenado à forca, que revela ter recebido o anel da própria moça em troca de uma experiência amorosa. A crônica funciona como reflexão sobre como uma mentira, uma vez contada, tende a exigir novas mentiras para se sustentar, ampliando progressivamente o dano que provoca.
Lar Desfeito: a crítica aos filhos que preferem o drama
Nesta crônica, José e Maria formam um casal genuinamente feliz e harmonioso havia vinte anos, sem brigas dignas de nota. Paradoxalmente, é essa harmonia que incomoda a filha mais velha, Vera, que sente inveja da amiga Nora, cujos pais vivem em conflito constante, o que Vera interpreta, de forma equivocada, como sinal de intensidade emocional e drama interessante. A crônica ironiza a tendência contemporânea de romantizar o conflito e a instabilidade, sugerindo, pelo contrário, que a verdadeira excepcionalidade está numa relação estável e duradoura, incompreendida justamente por quem cresceu sem vivenciá-la de perto.
Cantada: o jogo da sedução em discurso direto
Construída inteiramente em discurso direto, por meio de um diálogo entre um homem e uma mulher, esta crônica retrata uma situação clássica de sedução: o homem tenta convencer a mulher de que já se conheceram antes, inventando uma história compartilhada rica em detalhes (um encontro em Nice, em 1971, apresentados por um suposto barão) para criar intimidade e justificar sua abordagem. A crônica exemplifica como a mentira, nesse contexto, funciona como estratégia retórica de aproximação afetiva, e como o discurso direto contribui para dar ritmo e verossimilhança à cena.
O Jargão: a crítica ao vício de linguagem
Nesta crônica, Veríssimo satiriza pessoas que desenvolvem o hábito de usar excessivamente um jargão ou expressão específica, a ponto de essa mania se tornar traço definidor de sua identidade social. O texto, escrito de forma mais fragmentada, exige do leitor atenção redobrada às entrelinhas, e ilustra bem o tipo de humor linguístico que caracteriza parte da produção do autor, que brinca com vícios de fala reconhecíveis no cotidiano de qualquer leitor.
O que cai na UERJ
Quando As Mentiras que os Homens Contam está no programa, as questões costumam explorar:
- O tom irônico e humorístico como chave de leitura indispensável para interpretar corretamente as crônicas.
- A estrutura da mentira em cadeia, em “A Verdade”, e suas consequências progressivamente trágicas.
- A crítica social presente em crônicas como “Lar Desfeito”, sobre a romantização do conflito.
- O uso do discurso direto, como em “Cantada”, para construir cenas de diálogo verossímeis.
- A brevidade e a ambiguidade proposital de algumas crônicas, que exigem leitura atenta às entrelinhas.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
O uso do humor, da ironia e do sarcasmo nas crônicas de Luís Fernando Veríssimo cumpre principalmente a função de:
a) tornar os textos apenas leves e sem qualquer intenção crítica. b) funcionar como instrumento de observação e crítica das contradições e mazelas da sociedade cotidiana. c) eliminar qualquer possibilidade de reflexão social por parte do leitor. d) afastar o autor de qualquer relação com o cotidiano brasileiro. e) tornar as crônicas incompreensíveis para o público em geral.
Gabarito: b
Comentário: O humor em Veríssimo não é apenas recurso de entretenimento, mas ferramenta central de observação crítica: ao rir das mazelas sociais, sejam elas relacionadas a homens, mulheres, casados ou solteiros, o autor expõe contradições do comportamento humano que uma abordagem inteiramente séria dificilmente alcançaria com a mesma eficácia.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Na crônica “A Verdade”, a mentira inicial da donzela sobre o roubo do anel desencadeia:
a) a resolução rápida e pacífica do conflito familiar. b) uma sequência de consequências trágicas, já que a mentira original exige novas mentiras para se sustentar, ampliando progressivamente o dano provocado. c) a total indiferença do pai e dos irmãos da moça. d) a incapacidade do leitor de compreender qualquer desfecho para a história. e) a valorização da sinceridade como princípio absoluto de todos os personagens.
Gabarito: b
Comentário: A crônica constrói, em estrutura de fábula, o efeito bola de neve da mentira: para sustentar a primeira invenção, a donzela precisa inventar novos elementos, levando à morte de inocentes, até que a verdade emerge de forma trágica e tardia, ilustrando como mentiras contadas para evitar pequenos constrangimentos podem gerar consequências desproporcionalmente graves.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A crônica “Lar Desfeito”, ao narrar a inveja de Vera pela amizade conturbada de Nora com os pais, constrói uma crítica a:
a) a valorização excessiva da estabilidade e harmonia nos relacionamentos familiares contemporâneos. b) a tendência de romantizar o conflito e a instabilidade como sinônimos de intensidade emocional, em detrimento da harmonia genuína. c) a incapacidade total dos jovens de estabelecer qualquer relação afetiva significativa. d) a defesa explícita do divórcio como solução para todos os conflitos familiares. e) a ausência completa de crítica social na crônica.
Gabarito: b
Comentário: Ao construir a inveja de Vera por uma amiga cujos pais vivem em conflito, a crônica ironiza a tendência contemporânea de associar drama e instabilidade a uma vida emocional mais interessante, sugerindo, pelo contrário, que a harmonia duradoura de José e Maria é a verdadeira exceção, incompreendida por quem nunca a vivenciou de perto.
Revisão rápida
- As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Veríssimo, reúne cerca de quarenta crônicas independentes.
- O humor, a ironia e o sarcasmo são as chaves de leitura indispensáveis para interpretar a obra.
- “A Verdade” narra, em estrutura de fábula, como uma mentira exige novas mentiras, com consequências trágicas.
- “Lar Desfeito” critica a romantização do conflito familiar como sinal de intensidade emocional.
- “Cantada” usa o discurso direto para construir uma cena de sedução baseada numa mentira compartilhada.
- “O Jargão” satiriza o vício de linguagem como traço de identidade social.
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