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Barroco: o conflito entre fé e razão na literatura

Barroco explicado pelo conflito entre teocentrismo e antropocentrismo. Cultismo, conceptismo, figuras características e o que a UERJ cobra, com questões comentadas.

Capa do artigo: Barroco: o conflito entre fé e razão na literatura

O Barroco é a escola literária do século XVII, e a chave para entendê-lo é uma só: ele nasce de um conflito de ideias. Não é um estilo apenas ornamental, é a expressão de um homem dividido.

Neste post você vai entender de onde vem esse conflito, como ele se traduz em recursos de linguagem e por que a arquitetura de Ouro Preto, apesar de barroca, não é o Barroco que se estuda em literatura.

O conflito que define o movimento

Dois movimentos históricos se chocam nesse período:

  • O Renascimento havia colocado o homem no centro. É o antropocentrismo: a razão, a ciência, o prazer terreno.
  • A Contrarreforma devolve a Igreja ao centro. É o teocentrismo: a fé, o pecado, a salvação.

O homem barroco vive entre os dois. Ele deseja o mundo e teme a condenação. Quer o prazer e sente culpa. Acredita e duvida.

Esse dualismo não é tema do Barroco: é a sua estrutura. Ele explica todas as características formais da escola.

Um esclarecimento sobre lugar e tempo

Aqui mora uma confusão frequente. Muita gente associa Barroco a Minas Gerais, por causa de Ouro Preto, das igrejas e do Aleijadinho.

Mas o Barroco literário brasileiro é do século XVII, quando Salvador era a capital do país. As referências literárias do período são baianas.

O barroco mineiro é do século XVIII, ligado ao ciclo do ouro, e é um fenômeno sobretudo arquitetônico e escultórico. Na literatura, o século XVIII brasileiro é do Arcadismo.

Marco inicial na literatura brasileira: Prosopopeia, de Bento Teixeira.

As características do Barroco

Dualismo e antítese

O conflito entre fé e razão se traduz em oposições constantes: corpo e alma, céu e terra, vida e morte, pecado e perdão.

Fugacidade do tempo

O tempo passa e destrói tudo. Daí dois temas latinos recorrentes:

  • Carpe diem: aproveite o dia, porque ele não volta.
  • Tempus fugit: o tempo foge.

A rosa que floresce pela manhã e murcha ao anoitecer é a imagem barroca por excelência.

Pessimismo e culpa

A consciência do pecado e da morte atravessa a poesia religiosa do período.

Rebuscamento

A linguagem é complexa, carregada de figuras. Não por vaidade, mas porque um conteúdo contraditório pede uma forma tensionada.

Cultismo e conceptismo

As duas vertentes do estilo barroco, e a distinção mais cobrada em prova:

CultismoConceptismo
Também chamado degongorismoquevedismo
Jogo depalavrasideias
Marcaexcesso de figuras, inversões, imagensraciocínio lógico, argumentação
Predomina empoesiaprosa, sobretudo sermões

Cultismo vem de Luís de Góngora. Aposta na sofisticação formal: metáforas complexas, hipérbatos, sonoridade elaborada.

Conceptismo vem de Francisco de Quevedo. Aposta no encadeamento lógico, na argumentação rigorosa, no jogo conceitual.

Os autores centrais

Gregório de Matos

Chamado de Boca do Inferno pela virulência de sua poesia satírica. Sua obra costuma ser dividida em:

  • Poesia religiosa: o conflito entre pecado e arrependimento.
  • Poesia lírica: o amor, entre o sagrado e o sensual.
  • Poesia satírica: a crítica ferina à sociedade baiana, ao clero e às autoridades.

Padre Antônio Vieira

Mestre do conceptismo e um dos maiores prosadores da língua portuguesa. Seus sermões são construções argumentativas rigorosas, em que cada passo do raciocínio conduz ao seguinte.

O Sermão da Sexagésima é uma peça metalinguística: um sermão sobre como se deve pregar.

O que cai na UERJ

O Barroco aparece de duas maneiras:

  • Identificação da escola e da vertente. Um trecho é apresentado e se pede o movimento ou a distinção entre cultismo e conceptismo. As marcas decisivas são o dualismo e o tipo de jogo, verbal ou conceitual.
  • Figuras de linguagem em contexto barroco. Antítese e paradoxo são as figuras estruturantes da escola, e a banca costuma cobrar a distinção entre elas justamente em textos do período.

Um verso barroco que resume o movimento: em “É ferida que dói e não se sente”, de Camões, as ideias se anulam numa mesma imagem. É paradoxo, e é o coração do imaginário barroco.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

O conflito que estrutura a estética barroca é o embate entre:

a) racionalismo iluminista e sentimentalismo romântico. b) teocentrismo da Contrarreforma e antropocentrismo renascentista. c) nacionalismo e cosmopolitismo. d) determinismo científico e livre-arbítrio. e) classicismo e vanguardismo.

Gabarito: b

Comentário: O Barroco surge no momento em que a Contrarreforma reage ao Renascimento, recolocando Deus no centro depois de o Humanismo ter colocado o homem nessa posição. O homem barroco vive dividido entre o desejo terreno e o temor da condenação, e esse dualismo se traduz em antíteses e paradoxos. As alternativas a e d referem-se a conflitos de períodos posteriores.


Questão 2 (Estilo UERJ)

A diferença entre cultismo e conceptismo pode ser assim caracterizada:

a) o cultismo é jogo de ideias e o conceptismo, jogo de palavras. b) o cultismo predomina na prosa e o conceptismo, na poesia. c) o cultismo é jogo de palavras, com excesso de figuras, e o conceptismo é jogo de ideias, com encadeamento lógico. d) o cultismo caracteriza o Barroco e o conceptismo, o Arcadismo. e) ambos são sinônimos, referindo-se ao mesmo recurso estilístico.

Gabarito: c

Comentário: O cultismo, derivado de Góngora, investe na sofisticação formal, com metáforas complexas, inversões sintáticas e elaboração sonora, predominando na poesia. O conceptismo, derivado de Quevedo, organiza-se pela argumentação rigorosa e pelo raciocínio encadeado, predominando na prosa, sobretudo nos sermões. A alternativa a inverte exatamente as definições.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Sobre a localização histórica e geográfica do Barroco brasileiro, é correto afirmar que:

a) o Barroco literário desenvolveu-se em Minas Gerais no século XVIII, ligado ao ciclo do ouro. b) o Barroco literário é do século XVII, com produção associada a Salvador, então capital do país. c) Barroco literário e barroco arquitetônico mineiro são fenômenos do mesmo período. d) o Barroco brasileiro inicia-se com a obra de Gregório de Matos, no século XVIII. e) não houve produção barroca no Brasil, apenas em Portugal.

Gabarito: b

Comentário: O Barroco literário brasileiro pertence ao século XVII, período em que Salvador era a capital e concentrava a produção cultural. A confusão descrita na alternativa a é frequente: o barroco mineiro, com suas igrejas e a obra do Aleijadinho, é do século XVIII e constitui fenômeno principalmente arquitetônico e escultórico. Na literatura, o século XVIII brasileiro corresponde ao Arcadismo.

Revisão rápida

  • O Barroco é do século XVII e nasce do conflito entre teocentrismo e antropocentrismo.
  • O dualismo é a estrutura do movimento, não apenas um de seus temas.
  • Fugacidade do tempo, carpe diem, pessimismo e rebuscamento são marcas centrais.
  • Cultismo é jogo de palavras e predomina na poesia; conceptismo é jogo de ideias e predomina na prosa.
  • Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira são os autores centrais no Brasil.
  • O barroco mineiro é do século XVIII e é arquitetônico, não literário.

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