O Quinhentismo é o primeiro período da história literária brasileira, e o mais mal compreendido. Costuma ser tratado como uma curiosidade cronológica, quando na verdade é o momento em que se estabelece um olhar sobre esta terra que atravessaria séculos.
Antes das características, uma imagem que ajuda a entender o que está em jogo. Imagine alguém chegando à sua casa, oferecendo presentes, dizendo que é seu amigo. Com o tempo, seus filhos e netos descobrem que essas pessoas tomaram a casa e o terreno, afirmando que aquilo nunca lhes pertenceu e que agora tem novo dono.
Os textos do Quinhentismo são o registro do primeiro momento dessa história, escrito por quem chegava. E é essa perspectiva que a leitura crítica precisa enxergar.
Não é bem literatura brasileira
Uma ressalva necessária: os textos quinhentistas não são propriamente literatura, nem propriamente brasileira.
Não são literatura porque não têm intenção estética: são documentos, relatos administrativos, instrumentos de catequese.
Não são brasileiros porque foram escritos por portugueses, para portugueses, sobre uma terra que ainda não era o Brasil.
Por isso a designação mais precisa é literatura colonial ou literatura de informação. Ainda assim, o período abre a periodização literária brasileira por razões de método.
Literatura de informação
São os relatos enviados a Portugal descrevendo a terra encontrada. Também chamados de cartas de navegantes ou crônicas de viagem.
O que eles registram:
- A natureza: fauna, flora, clima.
- A terra: acidentes geográficos, possibilidades de exploração.
- Os habitantes: costumes, aparência, organização social.
O olhar etnocêntrico
Aqui está o ponto central da leitura crítica, e o que a prova mais explora.
Todo esse registro é feito por um olhar que julga a partir dos próprios valores. O português não descreve o que vê: ele avalia o que vê pela régua europeia. A nudez é falta de pudor, a ausência de igrejas é ausência de fé, a organização social diferente é ausência de organização.
Esse é o etnocentrismo: tomar a própria cultura como medida de todas as outras.
A Carta de Pero Vaz de Caminha
O documento mais conhecido do período. Nela, dois interesses se articulam com clareza:
- A busca de riquezas. O relato avalia o potencial econômico da terra.
- A justificativa religiosa. Caminha sugere ao rei a catequese e a ocupação, apresentando-as como salvação de almas perdidas.
A articulação entre os dois é o que sustenta o projeto colonial: exploração legitimada por missão civilizatória.
Outros textos: o Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo, e as cartas de Pero Lopes de Sousa.
Literatura de catequese
A segunda vertente do período são os textos produzidos pelos jesuítas com finalidade de conversão dos indígenas.
José de Anchieta é o nome central. Ele escreveu poemas, cartas e, sobretudo, autos: peças teatrais de estrutura simples, com personagens alegóricas representando o Bem e o Mal, encenadas para catequizar.
Um dado importante: Anchieta escreveu em português, espanhol, latim e tupi. A produção em língua indígena não era gesto de valorização cultural, era instrumento de conversão mais eficiente.
Tabela de consulta rápida
| Literatura de informação | Literatura de catequese | |
|---|---|---|
| Autores | cronistas, navegantes | jesuítas |
| Destinatário | a Coroa portuguesa | os indígenas |
| Finalidade | informar e avaliar a terra | converter |
| Gêneros | cartas, tratados, crônicas | autos, poemas, sermões |
| Nome central | Pero Vaz de Caminha | José de Anchieta |
O que cai na UERJ
O período é cobrado de modo característico:
- Leitura crítica do olhar colonial. A banca apresenta um trecho da Carta de Caminha e pergunta o que o texto revela sobre a perspectiva de quem escreve. A resposta passa pelo etnocentrismo.
- Intertextualidade. Autores modernistas e contemporâneos reescrevem a Carta de Caminha em chave crítica, e o confronto entre original e releitura é questão recorrente.
- Distinção entre as duas vertentes. Informação e catequese têm destinatários e finalidades distintas.
Na redação, o tema rende repertório em propostas sobre povos originários, apagamento cultural e memória histórica. O Quinhentismo é o registro do momento em que esse apagamento começou a ser narrado como descobrimento.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A designação “literatura de informação”, aplicada aos textos quinhentistas, justifica-se porque:
a) tratava-se de obras com elaborada intenção estética. b) eram relatos descritivos enviados à Coroa portuguesa sobre a terra encontrada. c) informavam os indígenas sobre a religião católica. d) constituíam a primeira produção literária de autores nascidos no Brasil. e) discutiam questões filosóficas do Renascimento europeu.
Gabarito: b
Comentário: Os textos do período são documentos de caráter informativo, produzidos por cronistas e navegantes para relatar à Coroa as características da terra, de seus habitantes e de seu potencial de exploração. A alternativa a é incorreta porque não havia intenção estética, e a alternativa d também falha, pois os autores eram portugueses escrevendo para portugueses. A catequese, mencionada em c, constitui a outra vertente do período.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Ao descrever os habitantes da terra, Pero Vaz de Caminha avalia seus costumes a partir dos valores da cultura europeia. Essa perspectiva caracteriza:
a) relativismo cultural b) objetividade científica c) etnocentrismo d) idealização romântica e) determinismo geográfico
Gabarito: c
Comentário: O etnocentrismo consiste em tomar a própria cultura como medida para julgar as demais, o que se manifesta na Carta quando comportamentos indígenas são interpretados como ausência de pudor, de fé ou de organização, por não corresponderem aos padrões europeus. O relativismo cultural, descrito em a, é justamente a postura oposta, pois procura compreender cada cultura em seus próprios termos.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Sobre a produção de José de Anchieta em língua tupi, é correto afirmar que:
a) demonstrava valorização da cultura indígena como equivalente à europeia. b) constituía instrumento para tornar a catequese mais eficiente junto aos indígenas. c) tinha finalidade exclusivamente documental e linguística. d) destinava-se ao público leitor português interessado em línguas exóticas. e) representava a primeira manifestação literária autenticamente brasileira.
Gabarito: b
Comentário: Anchieta escreveu em português, espanhol, latim e tupi, e o uso da língua indígena integrava a estratégia jesuítica de conversão: pregar no idioma do destinatário aumentava a eficácia da catequese. A alternativa a inverte o sentido do gesto, pois o objetivo não era reconhecer a cultura indígena, mas substituí-la pela fé católica, o que fica evidente na estrutura alegórica de seus autos.
Revisão rápida
- O Quinhentismo abre a periodização literária brasileira, mas não é literatura nem é brasileiro em sentido estrito.
- A literatura de informação reúne relatos enviados à Coroa sobre a terra e seus habitantes.
- O olhar dos cronistas é etnocêntrico: julga o outro pela régua europeia.
- A Carta de Caminha articula busca de riquezas e justificativa religiosa da ocupação.
- A literatura de catequese é produzida por jesuítas, com destaque para os autos de Anchieta.
- O tupi era usado como instrumento de conversão, não como valorização cultural.
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