Todo mundo quer nota mil. Pouca gente consegue. E o motivo não é talento: é que a maioria escreve sem conhecer as regras do jogo.
A comparação do Prof. Monteiro é direta: você não entra em campo sem saber as regras. Se a redação é corrigida por cinco competências, o primeiro passo para tirar nota máxima é dominar exatamente o que cada uma avalia.
Neste post você vai encontrar as cinco competências destrinchadas, com o que se perde em cada uma, e uma nota final sobre o que muda quando a prova é a da UERJ.
Competência 1: domínio da norma culta
Avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
O que entra aqui:
- Ortografia e acentuação. Inclusive o candidato que simplesmente não acentua palavra nenhuma, o que não passa despercebido.
- Concordância verbal e nominal.
- Regência verbal e nominal.
- Crase.
- Pontuação. Sobretudo a vírgula entre sujeito e verbo, erro campeão.
- Separação silábica e translineação.
Esta é a competência mais treinável de todas. É estudo dirigido de gramática, sem mistério. Perder ponto aqui é desperdício, porque cada regra dominada é ponto garantido.
Competência 2: compreender a proposta
Avalia se você entendeu o tema e se desenvolveu o recorte proposto dentro do tipo textual pedido.
Três níveis de falha:
- Fuga ao tema: escrever sobre outra coisa. Zera a redação.
- Tangenciamento: escrever sobre o assunto geral sem tratar do recorte. Derruba drasticamente a nota.
- Atendimento parcial: tocar no recorte de leve, sem centrar o texto nele.
O exemplo clássico: diante de um tema sobre a persistência da violência contra a mulher, muita gente escreve sobre violência contra a mulher e ignora a palavra persistência. O recorte estava ali, e era ele que precisava ser explicado.
Recomendação: sublinhe o recorte no enunciado e volte a ele ao terminar cada parágrafo.
Competência 3: selecionar e organizar informações
Avalia a capacidade de selecionar argumentos relevantes e organizá-los em defesa de um ponto de vista.
O que a banca procura:
- Argumentos que de fato sustentem a tese.
- Repertório sociocultural produtivo, ou seja, integrado à argumentação.
- Progressão: cada parágrafo acrescenta algo novo.
- Autoria: um olhar próprio sobre o tema.
O erro típico é o repertório encaixado à força. Citação de filósofo que não dialoga com a tese não conta como repertório produtivo, conta como enfeite.
Competência 4: coesão e articulação
Avalia o uso dos mecanismos que ligam as partes do texto.
- Conectivos empregados com precisão. Usar “portanto” onde a relação é de oposição inverte o raciocínio.
- Referenciação clara: pronomes com referente identificável.
- Articulação entre parágrafos, e não só dentro deles.
- Variedade: um texto que só usa “e” e “mas” pontua abaixo do que poderia.
É a competência mais fácil de melhorar rapidamente, porque depende de um repertório de conectivos que se pode estudar em uma tarde.
Competência 5: proposta de intervenção
Avalia a elaboração de uma proposta de solução para o problema discutido, respeitando os direitos humanos.
Uma proposta completa tem cinco elementos:
| Elemento | Pergunta |
|---|---|
| Agente | quem vai fazer? |
| Ação | o que será feito? |
| Meio | como será feito? |
| Finalidade | para quê? |
| Detalhamento | um desses elementos aprofundado |
A exigência de respeito aos direitos humanos tem lógica: se o problema discutido fere a dignidade de alguém, a solução proposta não pode ferir também. Propostas que sugerem punições desproporcionais ou supressão de direitos são desclassificadas nessa competência.
O que realmente separa a nota mil
Nenhuma dessas competências exige genialidade. O que separa quem chega perto é:
- Conhecer as regras. Você não pode pontuar bem no que não sabe que está sendo avaliado.
- Treinar com correção. Escrever muito sem receber devolutiva repete os mesmos erros.
- Dominar a norma culta. É a competência mais treinável e a que mais gente negligencia.
- Ler o enunciado com atenção. Tangenciamento é falha de leitura, não de escrita.
- Ter repertório próprio. Não citações decoradas, mas conhecimento que você de fato incorporou.
O que cai na UERJ
Vale um alerta para quem vai prestar as duas provas. A UERJ não usa o sistema de cinco competências do ENEM nem exige proposta de intervenção. Sua grade se organiza em cinco eixos, pontuados de 0 a 4, somando 20 pontos, e valoriza explicitamente as marcas de autoria.
Ou seja: o domínio da norma culta, a compreensão da proposta e a coesão se transferem integralmente. Já o automatismo de fechar todo texto com uma proposta de intervenção detalhada precisa ser desligado.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Diante de uma proposta sobre a persistência da violência contra a mulher, um candidato escreve um texto consistente sobre violência de gênero, sem discutir por que o problema se mantém ao longo do tempo. Esse texto configura:
a) atendimento pleno à proposta. b) tangenciamento, por não desenvolver o recorte proposto. c) fuga ao tema, o que zera a redação. d) falha exclusiva de coesão textual. e) desvio de tipo textual.
Gabarito: b
Comentário: O candidato permaneceu no universo temático, o que afasta a fuga ao tema descrita em c. Mas o recorte da proposta estava na palavra persistência, que exige explicar por que o problema se mantém apesar das mudanças legais e sociais. Escrever sobre o assunto geral sem abordar esse recorte caracteriza tangenciamento, e a perda de pontuação ocorre na competência que avalia a compreensão da proposta.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Uma proposta de intervenção completa, na grade do ENEM, deve conter:
a) agente, ação, meio, finalidade e detalhamento de um desses elementos. b) apenas a indicação do agente responsável. c) uma citação de autoridade que legitime a solução. d) a repetição da tese com outras palavras. e) a apresentação de dados estatísticos sobre o problema.
Gabarito: a
Comentário: A proposta completa articula quem executará a ação, o que será feito, por qual meio, com que finalidade, e aprofunda um desses elementos. A alternativa b descreve proposta incompleta, que pontua parcialmente. A alternativa d é a falha mais comum do último parágrafo, pois reafirmar a tese não constitui proposta. Vale lembrar ainda que a proposta precisa respeitar os direitos humanos, sob pena de anulação nessa competência.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Um candidato que vai prestar tanto o ENEM quanto o vestibular da UERJ deve estar atento ao fato de que:
a) as duas provas utilizam o sistema de cinco competências de 200 pontos cada. b) a UERJ exige proposta de intervenção mais detalhada que o ENEM. c) a UERJ não exige proposta de intervenção e valoriza marcas de autoria em sua grade. d) o domínio da norma culta é avaliado apenas pelo ENEM. e) as duas provas exigem tipos textuais distintos.
Gabarito: c
Comentário: A tipologia é idêntica nas duas provas, o que afasta a alternativa e, e a norma culta é avaliada em ambas, o que afasta d. A diferença prática mais relevante está no fechamento e nos critérios: a UERJ dispensa a proposta de intervenção e destaca as marcas de autoria, enquanto o ENEM a exige como competência própria. O candidato precisa desligar conscientemente esse automatismo ao mudar de prova.
Revisão rápida
- São cinco competências no ENEM, e conhecer cada uma é o primeiro passo para pontuar bem.
- Competência 1 é norma culta, a mais treinável e a mais negligenciada.
- Competência 2 avalia a compreensão da proposta: tangenciar é falha de leitura.
- Competência 3 pede argumentos consistentes e repertório integrado à tese.
- Competência 4 avalia conectivos e referenciação; competência 5, a proposta de intervenção.
- A UERJ não usa esse sistema, não exige intervenção e valoriza marcas de autoria.
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