Concordância verbal é o ajuste do verbo ao número e à pessoa do sujeito. O princípio é simples e todo mundo aprendeu na escola: sujeito no plural, verbo no plural.
O problema é que a língua é mais complexa do que a regra básica, e é nos casos especiais que a prova constrói suas questões. Neste post você vai encontrar a regra geral e, principalmente, os casos que fogem dela.
A regra geral
O verbo concorda com o núcleo do sujeito.
- “A multidão gritou.” (núcleo: multidão, singular)
- “Os alunos chegaram.” (núcleo: alunos, plural)
O primeiro passo é sempre o mesmo: encontre o sujeito, identifique o núcleo, ajuste o verbo. Boa parte dos erros de concordância nasce de identificar o núcleo errado.
Sujeito composto
Com dois ou mais núcleos, o verbo vai ao plural.
- “A alegria e a dor são amigas.”
Três situações particulares:
Sujeito composto posposto ao verbo. O verbo pode concordar com todos os núcleos ou só com o mais próximo.
- “Chegaram o professor e os alunos.” ou “Chegou o professor e os alunos.”
Núcleos ligados por OU. Se houver exclusão, o verbo fica no singular; se houver soma, vai ao plural.
- “João ou Pedro será o eleito.” (só um pode ser)
- “Cinema ou teatro distraem igualmente.” (ambos distraem)
Núcleos ligados por COM. Se houver equilíbrio entre eles, o verbo vai ao plural; se o segundo for acessório e vier entre vírgulas, fica no singular.
- “O pai e o filho viajaram.” / “O pai, com o filho, viajou.”
Sujeito partitivo
Este é um dos casos mais cobrados. Ocorre quando o núcleo é um coletivo ou expressão de parte, seguido de complemento no plural.
- “A multidão de fãs gritou.” (concorda com multidão)
- “A multidão de fãs gritaram.” (concorda com fãs)
As duas formas são corretas. O falante escolhe: concordar com o coletivo enfatiza o conjunto; concordar com o complemento enfatiza os indivíduos.
O mesmo vale para expressões como “a maioria dos”, “grande parte dos”, “um bando de”, “metade dos”.
Expressões de quantidade e porcentagem
Porcentagem: o verbo pode concordar com o número ou com o substantivo que o acompanha.
- “Vinte por cento dos alunos faltou.” / “Vinte por cento dos alunos faltaram.”
Mais de um: o verbo fica no singular, apesar da ideia de plural.
- “Mais de um candidato desistiu.”
Mas se houver reciprocidade ou repetição da expressão, vai ao plural.
- “Mais de um candidato se agrediram.”
Cerca de, perto de: o verbo concorda com o numeral.
- “Cerca de mil pessoas compareceram.”
Verbos impessoais: singular obrigatório
Aqui não há concordância, porque não há sujeito. O verbo fica sempre na terceira pessoa do singular.
| Caso | Exemplo |
|---|---|
| haver com sentido de existir | ”Havia muitas pessoas.” |
| fazer indicando tempo decorrido | ”Faz dez anos que não o vejo.” |
| fenômenos da natureza | ”Choveu a noite toda.” |
O caso do haver merece destaque, porque é o erro mais frequente da língua falada:
- Correto: “Havia muitas pessoas na sala.”
- Errado: “Haviam muitas pessoas na sala.”
E há um detalhe importante: quando haver é auxiliar, ele flexiona normalmente.
- “Eles haviam chegado cedo.” (correto, aqui haver é auxiliar)
Cuidado também com o verbo existir, que tem sujeito e portanto concorda:
- “Existiam muitas pessoas na sala.” (correto)
O caso do verbo SER
O verbo ser tem comportamento próprio: em vários contextos, ele concorda com o predicativo, não com o sujeito.
- “Tudo são flores.”
- “O problema eram as dívidas.”
- “São três horas.”
Pronome relativo QUE e QUEM
Com o pronome relativo que, o verbo concorda com o antecedente.
- “Fui eu que paguei a conta.”
- “Somos nós que decidimos.”
Com quem, o verbo pode ficar na terceira pessoa do singular ou concordar com o antecedente.
- “Fui eu quem pagou.” / “Fui eu quem paguei.”
O que cai na UERJ
A concordância verbal aparece em duas frentes:
- Na correção da redação. É desvio de norma culta e um dos mais penalizados, porque é imediatamente visível.
- Em questões de reescrita. A banca propõe uma nova redação para o trecho e o candidato precisa avaliar se a concordância se manteve correta. O verbo haver impessoal e o sujeito partitivo são os alvos preferidos.
Vale ainda notar a dimensão sociolinguística: construções como “as mina é” seguem regras próprias da variedade popular, em que o plural é marcado uma única vez. Reconhecer isso não é aceitar o desvio na escrita formal, é entender que a variedade não é caótica.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa em que a concordância verbal está de acordo com a norma culta:
a) “Haviam muitos candidatos na sala de espera.” b) “Fazem dez anos que não a encontro.” c) “Existiam muitas dúvidas sobre o edital.” d) “Mais de um aluno chegaram atrasados.” e) “Cerca de mil pessoa compareceu ao evento.”
Gabarito: c
Comentário: O verbo existir possui sujeito, no caso “muitas dúvidas”, e por isso flexiona normalmente no plural. Em a, o verbo haver com sentido de existir é impessoal e deveria permanecer no singular. Em b, fazer indicando tempo decorrido também é impessoal. Em d, a expressão “mais de um” exige o singular. Em e, há erro de concordância nominal em “mil pessoa”.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Na frase “A maioria dos estudantes ___ o resultado”, a forma verbal:
a) só admite o singular, por concordar obrigatoriamente com “maioria”. b) só admite o plural, por concordar obrigatoriamente com “estudantes”. c) admite tanto o singular quanto o plural, por se tratar de sujeito partitivo. d) deve ficar no singular apenas se houver vírgula após “maioria”. e) configura caso de verbo impessoal, com singular obrigatório.
Gabarito: c
Comentário: Trata-se de sujeito partitivo: um núcleo coletivo seguido de complemento no plural. Nesse caso, a norma culta admite as duas concordâncias, e a escolha produz efeitos distintos de sentido. Concordar com “maioria” enfatiza o grupo como unidade; concordar com “estudantes” enfatiza os indivíduos que o compõem. Nenhuma das duas formas constitui desvio.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Considere as ocorrências do verbo haver:
I. “Havia poucos livros na estante.” II. “Eles haviam chegado antes do combinado.”
Sobre a flexão do verbo nas duas ocorrências, é correto afirmar que:
a) ambas estão incorretas, pois o verbo deveria ir ao plural em I. b) em I o verbo é impessoal e fica no singular; em II é auxiliar e flexiona normalmente. c) em I o verbo é auxiliar e em II, impessoal. d) ambas as ocorrências exigem o singular, pois haver nunca vai ao plural. e) a flexão em II está incorreta, pois deveria ser “havia chegado”.
Gabarito: b
Comentário: Em I, haver significa existir e é impessoal, permanecendo na terceira pessoa do singular independentemente do termo que o segue, que é objeto direto e não sujeito. Em II, o verbo funciona como auxiliar na formação do tempo composto e concorda normalmente com o sujeito “eles”. A alternativa d generaliza indevidamente a regra da impessoalidade, ignorando o emprego como auxiliar.
Revisão rápida
- O verbo concorda com o núcleo do sujeito, e o primeiro passo é identificá-lo corretamente.
- Sujeito composto leva o verbo ao plural, com flexibilidade quando posposto.
- Sujeito partitivo admite as duas concordâncias, e a escolha muda a ênfase.
- Haver com sentido de existir é impessoal e nunca vai ao plural; existir tem sujeito e concorda.
- Quando haver é auxiliar, ele flexiona normalmente.
- O verbo ser frequentemente concorda com o predicativo, não com o sujeito.
Leia também:
- Concordância Nominal: regras e casos especiais
- Tipos de Sujeito: os 5 casos que caem na UERJ
- Regência Verbal: os verbos que mais caem em prova
- Guia completo do Vestibular UERJ
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