Verbo é a classe gramatical que indica ação, estado, mudança de estado, permanência de estado ou fenômeno da natureza. E é a classe que mais flexiona da língua portuguesa: ela varia em modo, tempo, número e pessoa.
É um assunto que traumatiza muita gente, quase sempre por causa de um verbo específico que travou em algum momento da escola. Mas a lógica é organizada, e este post apresenta essa organização.
A estrutura do verbo
Todo verbo se decompõe em partes, e entender essa decomposição facilita muito a conjugação:
| Elemento | Função | Exemplo em cantávamos |
|---|---|---|
| Radical | carrega o significado | cant- |
| Vogal temática | indica a conjugação | -á- |
| Desinência modo-temporal | indica modo e tempo | -va- |
| Desinência número-pessoal | indica pessoa e número | -mos |
A vogal temática define as três conjugações:
- 1ª conjugação: verbos em -AR (cantar, falar)
- 2ª conjugação: verbos em -ER (correr, vender)
- 3ª conjugação: verbos em -IR (partir, sorrir)
Reconhecer a desinência modo-temporal é o atalho: ela se repete em todos os verbos de mesma conjugação e mesmo tempo.
Os três modos verbais
O modo indica a atitude do falante diante do que enuncia.
Indicativo: o modo da certeza
Apresenta o fato como real e certo.
- “Ele estuda todos os dias.”
- “Ela chegou cedo.”
Seus tempos:
| Tempo | Exemplo |
|---|---|
| Presente | eu falo |
| Pretérito perfeito | eu falei |
| Pretérito imperfeito | eu falava |
| Pretérito mais-que-perfeito | eu falara |
| Futuro do presente | eu falarei |
| Futuro do pretérito | eu falaria |
Subjuntivo: o modo da hipótese
Apresenta o fato como possível, duvidoso ou desejado.
- “Talvez ele estude.”
- “Se eu soubesse, teria avisado.”
Seus tempos são três:
| Tempo | Exemplo |
|---|---|
| Presente | que eu fale |
| Pretérito imperfeito | se eu falasse |
| Futuro | quando eu falar |
Imperativo: o modo da ordem
Expressa ordem, pedido, conselho ou convite, colocando o interlocutor em evidência.
- “Estude para a prova.”
- “Não saia agora.”
O macete do imperativo
Aqui está a parte que mais confunde, e ela tem uma receita fixa.
Imperativo afirmativo
Duas fontes:
- Tu e vós vêm do presente do indicativo, retirando o S final.
- Você, nós e vocês vêm do presente do subjuntivo, sem alteração.
Aplicando ao verbo correr:
- Presente do indicativo: eu corro, tu corres, ele corre, nós corremos, vós correis, eles correm.
- Presente do subjuntivo: que eu corra, que tu corras, que ele corra, que nós corramos, que vós corrais, que eles corram.
Resultado:
| Pessoa | Forma | Origem |
|---|---|---|
| tu | corre | indicativo sem o S |
| você | corra | subjuntivo |
| nós | corramos | subjuntivo |
| vós | correi | indicativo sem o S |
| vocês | corram | subjuntivo |
Imperativo negativo
Mais simples: todo ele vem do presente do subjuntivo, com o não antes.
- não corras, não corra, não corramos, não corrais, não corram
Verbos irregulares e defectivos
- Regulares: mantêm o radical e seguem o modelo da conjugação. Cantar, vender, partir.
- Irregulares: alteram o radical ou as desinências. Ser, ir, fazer, poder, querer.
- Defectivos: não têm todas as formas. Falir, reaver e precaver não se conjugam em algumas pessoas do presente.
- Abundantes: têm mais de uma forma para a mesma flexão, em geral no particípio. Aceito e aceitado, pago e pagado, entregue e entregado.
Nos abundantes, a regra prática: com ter e haver, use a forma regular (“tinha aceitado”); com ser e estar, use a irregular (“foi aceito”).
O que cai na UERJ
Este é um ponto importante, porque a banca não cobra conjugação como exercício mecânico. Ela cobra o efeito do modo verbal no texto.
O que a UERJ costuma perguntar:
- Por que o autor insiste em um modo verbal? Quando um texto concentra verbos no imperativo, ele marca o diálogo, chama o interlocutor, tenta influenciar. Isso conecta o tema à função apelativa da linguagem.
- O que muda com o subjuntivo? O subjuntivo instala dúvida e hipótese. Um texto que passa do indicativo ao subjuntivo desloca a afirmação para a possibilidade, e esse deslocamento é significativo.
- Reescrita com mudança de tempo. Questões que pedem a transposição de um trecho para outro tempo verbal e avaliam a manutenção do sentido.
Na redação, dois cuidados: o uso correto do subjuntivo em orações condicionais (“se eu soubesse”, não “se eu sabia”) e a coerência dos tempos ao longo do texto.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
O imperativo afirmativo na segunda pessoa do singular é formado a partir:
a) do presente do subjuntivo, sem alteração. b) do presente do indicativo, com a retirada do S final. c) do pretérito perfeito do indicativo. d) do infinitivo do verbo. e) do futuro do subjuntivo.
Gabarito: b
Comentário: As formas de tu e vós no imperativo afirmativo derivam do presente do indicativo com supressão do S final: de “tu corres” obtém-se “corre”, e de “vós correis” obtém-se “correi”. As demais pessoas, incluindo você, nós e vocês, vêm do presente do subjuntivo sem alteração, conforme descrito na alternativa a. Já o imperativo negativo deriva integralmente do subjuntivo.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Em um texto publicitário com predomínio de verbos no modo imperativo, o efeito produzido é:
a) a expressão de dúvida e hipótese sobre o produto anunciado. b) o distanciamento objetivo em relação ao leitor. c) a interpelação direta do interlocutor, colocando-o em evidência. d) a narração de fatos passados relacionados à marca. e) a apresentação impessoal de informações técnicas.
Gabarito: c
Comentário: O imperativo é o modo que coloca o interlocutor em evidência, expressando ordem, pedido ou convite, e por isso predomina em textos que buscam influenciar o comportamento do leitor. Esse emprego conecta-se diretamente à função apelativa ou conativa da linguagem, característica do discurso publicitário. A alternativa a descreve o efeito do subjuntivo, e a alternativa e, o da função referencial.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa em que o emprego do modo verbal está de acordo com a norma culta:
a) “Se eu sabia da verdade, teria contado.” b) “Se eu soubesse da verdade, teria contado.” c) “Quando eu ver o resultado, aviso você.” d) “Talvez ele vem à reunião amanhã.” e) “Espero que ele chega a tempo.”
Gabarito: b
Comentário: Orações condicionais introduzidas por se, com valor hipotético, exigem o pretérito imperfeito do subjuntivo, forma corretamente empregada em b. Em a, o indicativo sabia rompe essa exigência. Em c, o futuro do subjuntivo do verbo ver é “vir”, e não “ver”. Em d, após talvez usa-se o subjuntivo “venha”. Em e, o verbo esperar introduz oração que exige subjuntivo: “chegue”.
Revisão rápida
- O verbo flexiona em modo, tempo, número e pessoa, e se decompõe em radical, vogal temática e desinências.
- A vogal temática define as três conjugações: AR, ER e IR.
- O indicativo apresenta o fato como certo; o subjuntivo, como hipotético; o imperativo, como ordem.
- No imperativo afirmativo, tu e vós vêm do indicativo sem o S; as demais pessoas vêm do subjuntivo.
- O imperativo negativo vem integralmente do presente do subjuntivo.
- A UERJ cobra o efeito do modo verbal no texto, não a conjugação mecânica.
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