As vozes verbais indicam a relação entre o sujeito e a ação expressa pelo verbo. São três, e o conceito é direto:
- Voz ativa: o sujeito pratica a ação. “O juiz prendeu os criminosos.”
- Voz passiva: o sujeito sofre a ação. “Os criminosos foram presos pelo juiz.”
- Voz reflexiva: o sujeito pratica e sofre ao mesmo tempo. “O menino feriu-se.”
Neste post você vai aprender o passo a passo da transposição entre ativa e passiva, e uma distinção que a prova adora: nem toda ideia de passividade é voz passiva.
A transposição em três passos
Este é o procedimento que resolve qualquer questão de transformação:
Frase original (voz ativa): “O juiz prendeu os criminosos.”
- O objeto direto vira sujeito. “Os criminosos…”
- O verbo vai para a locução com o auxiliar SER, no mesmo tempo do verbo original, mais o particípio. “…foram presos…”
- O sujeito da ativa vira agente da passiva, precedido de preposição. “…pelo juiz.”
Resultado: “Os criminosos foram presos pelo juiz.”
O passo que mais gera erro é o segundo. O auxiliar ser precisa ficar no mesmo tempo do verbo original:
| Voz ativa | Voz passiva |
|---|---|
| ele faz | é feito |
| ele fez | foi feito |
| ele fazia | era feito |
| ele fará | será feito |
| ele faria | seria feito |
| ele tinha feito | tinha sido feito |
Só verbo transitivo direto admite passiva
Uma condição essencial: a voz passiva exige um objeto direto para virar sujeito.
Por isso não existe passiva de verbo intransitivo (“O barco afundou”) nem de verbo transitivo indireto (“Ela gostava de doces”). Sem objeto direto, não há o que promover a sujeito.
A exceção clássica é o verbo obedecer, que embora transitivo indireto admite passiva por tradição: “As normas foram obedecidas”.
Passiva analítica e passiva sintética
Há duas formas de construir a voz passiva.
Analítica
Usa o verbo auxiliar ser mais o particípio.
- “Os apartamentos foram vendidos.”
Sintética ou pronominal
Usa o verbo na terceira pessoa mais a partícula apassivadora “se”.
- “Vendem-se apartamentos.”
As duas frases dizem a mesma coisa. E aqui está o ponto que a prova cobra: na passiva sintética, o termo que parece objeto é na verdade o sujeito, e por isso o verbo concorda com ele.
- Correto: “Vendem-se apartamentos.” (sujeito: apartamentos, plural)
- Errado: “Vende-se apartamentos.”
Partícula apassivadora ou índice de indeterminação?
Este é o par mais confundido da gramática, e a distinção decide muitas questões.
| Partícula apassivadora (PA) | Índice de indeterminação (PIS) | |
|---|---|---|
| Verbo | transitivo direto | transitivo indireto ou intransitivo |
| Há sujeito? | sim, o termo seguinte | não |
| Concordância | verbo concorda | verbo sempre no singular |
| Exemplo | ”Vendem-se casas." | "Precisa-se de engenheiros.” |
O teste definitivo: tente reescrever na passiva analítica com o verbo ser.
- “Vendem-se casas” → “Casas são vendidas”. Funciona, logo é partícula apassivadora.
- “Precisa-se de engenheiros” → “Engenheiros são precisados”? Não funciona, logo é índice de indeterminação do sujeito.
Passividade não é voz passiva
Aqui está uma distinção fina que a prova explora. Uma frase pode expressar a ideia de passividade sem estar na voz passiva.
- “Ele levou uma bronca.”
- “Ele sofreu um acidente.”
- “Ela recebeu uma crítica.”
Nas três, o sujeito não pratica a ação: ele a recebe. Há passividade semântica. Mas não há voz passiva, porque a estrutura gramatical é de voz ativa: os verbos são transitivos diretos e os termos seguintes são objetos diretos.
O critério é este: voz passiva é uma estrutura, não um sentido. Ela exige auxiliar ser mais particípio, ou verbo mais partícula apassivadora.
O agente da passiva
É o termo que pratica a ação na voz passiva. Vem preposicionado, em geral por por ou suas contrações, e às vezes por de.
- “O livro foi escrito por Machado de Assis.”
- “Ela era admirada de todos.”
O agente da passiva pode ser omitido, e essa omissão é significativa: apagar quem age é um recurso de linguagem que a banca costuma explorar.
O que cai na UERJ
O tema aparece de três formas:
- Transposição entre vozes. A questão pede a reescrita e o candidato precisa acertar o tempo do auxiliar. É onde mais se perde ponto.
- Efeito de sentido do apagamento do agente. Quando um texto usa voz passiva sem agente, quem age fica invisível. A banca pergunta o que isso produz: isenção de responsabilidade, generalização, distanciamento.
- Distinção entre partícula apassivadora e índice de indeterminação. Aparece em questões de concordância e de reescrita.
Na redação, a voz passiva é útil quando o agente é irrelevante, mas usada em excesso torna o texto vago. Se você não sabe quem faz o quê, o leitor também não saberá.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A transposição correta da frase “O escritor publicará novos contos” para a voz passiva é:
a) “Novos contos foram publicados pelo escritor.” b) “Novos contos serão publicados pelo escritor.” c) “Novos contos são publicados pelo escritor.” d) “Publicam-se novos contos pelo escritor.” e) “O escritor será publicado com novos contos.”
Gabarito: b
Comentário: Na transposição, o objeto direto “novos contos” torna-se sujeito, o verbo assume a forma composta com o auxiliar ser mais particípio, e o sujeito original passa a agente da passiva. O ponto decisivo é o tempo verbal: como publicará está no futuro do presente, o auxiliar deve permanecer nesse tempo, resultando em serão publicados. As alternativas a e c erram justamente ao alterar o tempo.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Na frase “Alugam-se salas comerciais”, o termo “salas comerciais” exerce a função de:
a) objeto direto, e o “se” é índice de indeterminação do sujeito. b) sujeito, e o “se” é partícula apassivadora. c) objeto indireto, e o “se” é pronome reflexivo. d) adjunto adnominal do verbo. e) agente da passiva.
Gabarito: b
Comentário: Trata-se de voz passiva sintética, equivalente a “salas comerciais são alugadas”. A possibilidade dessa reescrita com o verbo ser comprova que o “se” é partícula apassivadora e que o termo seguinte é o sujeito da oração. É justamente por isso que o verbo concorda no plural. Se fosse índice de indeterminação, como em “precisa-se de vendedores”, o verbo permaneceria no singular.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Considere a frase “O candidato sofreu uma derrota humilhante”. Sobre a estrutura da frase, é correto afirmar que:
a) está na voz passiva, pois o sujeito não pratica a ação. b) está na voz reflexiva, pois o sujeito pratica e sofre a ação. c) está na voz ativa, embora expresse ideia de passividade. d) apresenta partícula apassivadora oculta. e) tem “uma derrota humilhante” como agente da passiva.
Gabarito: c
Comentário: Há de fato passividade no plano do sentido, pois o candidato recebe a ação em vez de praticá-la. Mas voz passiva é categoria gramatical, não semântica: ela exige a estrutura com auxiliar ser mais particípio ou com partícula apassivadora. Aqui o verbo sofrer é transitivo direto e “uma derrota humilhante” é seu objeto direto, o que caracteriza voz ativa. A distinção entre passividade e voz passiva é justamente o que a questão avalia.
Revisão rápida
- Na voz ativa o sujeito pratica a ação; na passiva, ele a sofre.
- Para transpor: objeto direto vira sujeito, verbo vai para ser mais particípio, sujeito vira agente.
- O auxiliar ser precisa ficar no mesmo tempo do verbo original.
- Só verbo transitivo direto admite voz passiva.
- Na passiva sintética, o termo após o “se” é sujeito e o verbo concorda com ele.
- Passividade é sentido; voz passiva é estrutura. “Sofreu uma derrota” é voz ativa.
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