A redação da UERJ é um texto dissertativo-argumentativo padrão. Não há mistério na tipologia: introdução, desenvolvimento e conclusão, com quatro parágrafos bem delimitados. O que torna essa prova particular não é a estrutura, é o ponto de partida.
Neste post você vai entender como organizar cada parágrafo e, principalmente, por que decorar um modelo pronto é a pior estratégia possível para essa banca.
O que torna a redação da UERJ diferente
A banca escolhe uma obra literária e monta a proposta a partir dela. Um fragmento é retirado de um capítulo qualquer do livro, e desse fragmento nasce o tema.
Isso muda o jogo de duas formas:
- A leitura da obra é pré-requisito. Sem ter lido, você não tem o que dizer. O livro é a fonte do repertório específico, e a banca percebe imediatamente quem escreveu a partir de um resumo.
- O tema é imprevisível, mas o universo temático não. Se a obra trata de miséria, seca e migração, os temas possíveis orbitam esses eixos. Ler o livro extraindo temas de cada capítulo é a preparação mais eficiente que existe.
Uma vantagem prática: em obras compostas por capítulos relativamente independentes, é possível ler um capítulo por vez, fazendo anotações e levantando ideias, sem depender da sequência.
A estrutura, parágrafo a parágrafo
Introdução
Apresenta o tema e posiciona a tese, ou seja, o ponto de vista que será defendido.
Você não precisa de fórmula. Precisa de uma escolha consciente de abordagem:
- Histórica: situa o tema no tempo, mostrando de onde ele vem.
- Causa e efeito: apresenta o problema e sua consequência.
- Comparativa: confronta duas realidades.
- Conceitual: parte da definição do termo central do tema.
- Alusiva: abre com uma referência cultural ou com o próprio fragmento da obra.
O que a banca espera é que a tese esteja clara ao fim do primeiro parágrafo. Se ao terminar a introdução o leitor não sabe o que você defende, o texto já começou perdendo.
Desenvolvimento
Dois parágrafos, cada um sustentando um argumento distinto que apoia a tese.
Cada parágrafo de desenvolvimento tem uma arquitetura interna:
- Tópico frasal: a ideia central do parágrafo, em uma frase.
- Sustentação: o argumento propriamente dito, com dados, exemplos, referências ou raciocínio.
- Fechamento: retorno à tese, mostrando como aquele argumento a sustenta.
O erro mais comum aqui é o parágrafo que apenas repete a tese com outras palavras, sem acrescentar sustentação nova.
Conclusão
Retoma a tese e fecha o raciocínio. Não é o lugar de introduzir argumento novo.
A conclusão pode reafirmar o ponto de vista à luz do que foi desenvolvido, apontar consequências ou propor um encaminhamento. O importante é que ela soe como fechamento, e não como interrupção.
Por que fórmula pronta atrapalha na UERJ
Aqui está o conselho mais importante do Prof. Monteiro sobre essa prova: fuja de receita de bolo.
A UERJ valoriza explicitamente as marcas de autoria. Autoria é o que há de pessoal no texto: a sua sacada, o seu olhar sobre o tema, a sua visão de mundo, o seu repertório de leitura.
Um texto montado sobre um esqueminha decorado, com conectivos pré-fabricados e citações de filósofos encaixadas à força, entrega exatamente o oposto do que a banca procura. Ele mostra um candidato reproduzindo um molde, não pensando.
Isso não significa escrever sem estrutura. Significa dominar a estrutura ao ponto de usá-la naturalmente, e preencher esse esqueleto com o que é seu.
Se você lê filosofia, esse olhar vai aparecer no seu texto quando você tratar de miséria ou de dignidade. Se você acompanha história ou cinema, o mesmo. O repertório vale quando é seu e quando dialoga de fato com o tema.
Projeto de texto: pensar antes de escrever
Projeto de texto é o planejamento do percurso argumentativo antes de começar a escrever. Ele responde a três perguntas:
- Qual é a minha tese? Em uma frase.
- Quais são os dois argumentos que a sustentam? Em uma frase cada.
- Como eu fecho?
Cinco minutos nesse rascunho evitam o texto que muda de rumo no meio, que é uma das falhas mais penalizadas. A banca avalia a existência de um projeto: ela quer ver que o texto foi pensado como um todo, não improvisado parágrafo a parágrafo.
Erros que custam caro
- Fuga ao tema. Zera ou derruba drasticamente a nota. Leia o enunciado duas vezes antes de escrever.
- Tangenciamento. Escrever sobre o assunto geral em vez do recorte proposto. É quase tão grave quanto a fuga.
- Escrever sobre o livro em vez de sobre o tema. O fragmento é o ponto de partida, não o objeto da redação. Resumir a obra não é dissertar.
- Fugir do tipo textual. Responder a uma proposta dissertativa com narração ou relato pessoal.
- Conclusão que abre assunto novo. Fecha mal e sugere falta de planejamento.
O que cai na UERJ
Vale reforçar o que essa prova pede, em uma linha: um texto dissertativo-argumentativo, com tese clara, dois argumentos consistentes, projeto de texto visível e marcas de autoria, escrito a partir de um tema extraído da obra literária adotada pela banca.
Quem lê a obra com atenção, treina a estrutura até ela virar automática e desenvolve um olhar próprio sobre os temas chega à prova em condições muito melhores do que quem decorou modelos.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Sobre a proposta de redação da UERJ, é correto afirmar que:
a) exige a produção de um texto narrativo a partir de um fragmento literário. b) exige um texto dissertativo-argumentativo cujo tema é extraído da obra literária adotada. c) exige o resumo da obra literária indicada pela banca. d) permite ao candidato escolher livremente entre dissertar e narrar. e) dispensa a leitura da obra, uma vez que o fragmento é fornecido na prova.
Gabarito: b
Comentário: A banca extrai um fragmento da obra adotada e, a partir dele, formula um tema a ser desenvolvido em texto dissertativo-argumentativo. A alternativa c descreve um erro grave e frequente: resumir a obra em vez de dissertar sobre o tema. A alternativa e é igualmente equivocada, pois o fragmento é apenas o disparador, e o repertório específico necessário à argumentação vem da leitura integral do livro.
Questão 2 (Estilo UERJ)
O conceito de “marcas de autoria”, valorizado na correção da redação da UERJ, refere-se a:
a) uso de citações de filósofos e teóricos consagrados. b) emprego de conectivos sofisticados ao longo do texto. c) presença de um olhar pessoal e de repertório próprio no tratamento do tema. d) assinatura do candidato ao final da folha de redação. e) reprodução fiel de um modelo estrutural aprendido em aula.
Gabarito: c
Comentário: Autoria é o que há de pessoal no texto: a perspectiva do candidato, seu repertório de leituras e a maneira própria de abordar o tema. A alternativa a é a distratora mais forte, pois citações podem contribuir, mas apenas quando integradas ao raciocínio do autor. Encaixadas à força, produzem o efeito contrário. A alternativa e descreve exatamente o que a banca não quer: a reprodução de fórmula pronta.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Um candidato desenvolve um parágrafo de desenvolvimento apenas reafirmando, com outras palavras, o que já dissera na introdução. Essa falha compromete diretamente:
a) o atendimento ao tema. b) a adequação ao tipo textual. c) a progressão argumentativa e o projeto de texto. d) a correção gramatical. e) a coesão referencial.
Gabarito: c
Comentário: O tema está sendo atendido e a tipologia dissertativa foi respeitada, o que afasta as alternativas a e b. O problema é que o texto não avança: cada parágrafo de desenvolvimento deve trazer um argumento novo que sustente a tese por um ângulo distinto. Repetir a tese sem acrescentar sustentação caracteriza ausência de progressão, revelando falta de projeto de texto.
Revisão rápida
- A redação da UERJ é dissertativo-argumentativa, com tema extraído de uma obra literária.
- Ler o livro integralmente é pré-requisito, pois ele é a fonte do repertório específico.
- A estrutura é introdução com tese, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão.
- Cada parágrafo de desenvolvimento tem tópico frasal, sustentação e fechamento.
- A banca valoriza marcas de autoria, e por isso fórmula decorada trabalha contra você.
- Resumir a obra em vez de dissertar sobre o tema é um dos erros mais graves.
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