Entre as figuras de pensamento, há um trio que gera confusão constante: lítotes, ironia e eufemismo. As três atenuam ou deslocam o que se diz, e por isso são frequentemente trocadas umas pelas outras.
Este post organiza esse trio e apresenta a lítotes, que é a menos conhecida das três e justamente por isso vale a pena dominar.
Lítotes: afirmar pela negação
Lítotes é a figura em que se afirma algo negando o contrário. Em vez de dizer diretamente, nega-se o oposto.
- “Pedro não é dos mais bonitos.” → Pedro é feio.
- “Você não está ruim de raciocínio.” → você é inteligente.
- “Ela não é nada boba.” → ela é muito esperta.
- “O resultado não foi mau.” → o resultado foi bom.
Repare no mecanismo: a estrutura é negativa, mas a mensagem é afirmativa.
Por que se usa
A lítotes tem duas funções principais:
- Atenuar, quando o que se diria diretamente soaria agressivo. “Não é dos mais bonitos” é mais delicado que “é feio”.
- Enfatizar, por contraste. “Não é nada boba” afirma a esperteza com mais força do que “é esperta”.
Em português, ela é extremamente comum na fala cotidiana, e passa despercebida justamente por isso.
O trio que confunde
| Figura | Mecanismo | Exemplo |
|---|---|---|
| Lítotes | afirma negando o contrário | ”não é dos mais bonitos” (é feio) |
| Eufemismo | suaviza com outra expressão | ”partiu desta para melhor” (morreu) |
| Ironia | diz o oposto do que se pensa | ”que belo trabalho!” (dito de um trabalho ruim) |
Os critérios que separam:
Lítotes x eufemismo: a lítotes usa estrutura negativa para afirmar o contrário do negado. O eufemismo usa outra expressão, sem negação, para suavizar.
- Lítotes: “não é muito jovem” (é velho)
- Eufemismo: “é uma pessoa de idade” (é velho)
Lítotes x ironia: na lítotes, o leitor entende o mesmo que o falante quis dizer, e não há contradição. Na ironia, o dito e o pensado são opostos, e o entendimento depende do contexto.
- Lítotes: “não foi mau” = foi bom. Direto.
- Ironia: “foi ótimo” = foi péssimo. Só o contexto revela.
As outras figuras de pensamento
Para situar a lítotes no conjunto:
- Antítese: aproxima ideias opostas, mantendo-as separadas. “Chora-se no frio, canta-se no calor.”
- Paradoxo: funde ideias que se anulam. “É ferida que dói e não se sente.”
- Ironia: diz o oposto do que se pensa.
- Eufemismo: suaviza ideia negativa.
- Disfemismo: agrava, torna grosseiro. “Bateu as botas.”
- Hipérbole: exagera. “Morrendo de fome.”
- Prosopopeia: anima o inanimado. “As pedras suspiravam.”
- Gradação: apresenta ideias em escala crescente ou decrescente.
- Apóstrofe: interpela alguém ou algo. “Ó céus, socorrei-me!”
O que caracteriza uma figura de pensamento
Vale a distinção em relação aos outros grupos:
- Figuras de palavra operam sobre o sentido das palavras: metáfora, metonímia, catacrese.
- Figuras de sintaxe operam sobre a construção: elipse, zeugma, anáfora, silepse.
- Figuras de pensamento operam sobre a ideia, sobre a relação entre o que se diz e o que se pensa.
É por isso que a lítotes, a ironia e o eufemismo estão no mesmo grupo: todas gerenciam a distância entre o enunciado e a intenção.
O que cai na UERJ
Estas figuras aparecem principalmente na interpretação de textos literários:
- Identificação e efeito. A questão apresenta um trecho e pergunta a figura empregada ou o efeito que ela produz. A resposta pede a explicação do mecanismo, não apenas o nome.
- Distinção entre figuras próximas. As alternativas costumam oferecer lítotes, ironia e eufemismo juntas, e a escolha depende de reconhecer se há negação, suavização ou inversão.
- Ironia em textos e quadrinhos. É a mais frequente das três na banca, e sempre dependente do contexto.
Uma observação sobre a lítotes: por ser menos conhecida, ela costuma aparecer como distratora. Saber o que ela é ajuda tanto a reconhecê-la quanto a descartá-la quando não se aplica.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Na frase “O desempenho da equipe não foi dos piores”, a figura de linguagem empregada é:
a) ironia b) eufemismo c) lítotes d) hipérbole e) antítese
Gabarito: c
Comentário: A construção nega o extremo negativo para afirmar algo positivo: dizer que não foi dos piores equivale a afirmar que foi razoável ou bom. Esse mecanismo de afirmar pela negação do contrário define a lítotes. A alternativa a exigiria que o sentido pretendido fosse o oposto do enunciado, e a b, uma substituição suavizadora sem estrutura negativa.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Considere as expressões referentes a uma pessoa idosa:
I. “Ela não é mais tão jovem.” II. “Ela é uma pessoa de idade.”
Sobre as figuras empregadas, é correto afirmar que:
a) ambas são eufemismos. b) ambas são lítotes. c) I é lítotes e II é eufemismo. d) I é eufemismo e II é lítotes. e) I é ironia e II é lítotes.
Gabarito: c
Comentário: Em I, a estrutura negativa afirma a idade avançada pela negação da juventude, o que caracteriza lítotes. Em II, não há negação: emprega-se uma expressão alternativa que suaviza a referência, o que define o eufemismo. As duas figuras produzem efeito atenuador semelhante, mas o mecanismo linguístico é distinto, e é ele o critério de classificação.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A diferença entre lítotes e ironia consiste no fato de que:
a) apenas a ironia depende do contexto para ser compreendida, enquanto a lítotes afirma pela negação do contrário de forma direta. b) apenas a lítotes depende do contexto. c) ambas invertem completamente o sentido do enunciado. d) a lítotes é figura de sintaxe e a ironia, de palavra. e) não há diferença entre elas.
Gabarito: a
Comentário: Na lítotes, a mensagem pretendida decorre diretamente da estrutura negativa empregada, e o leitor a apreende sem necessidade de informação externa. Na ironia, o enunciado afirma o oposto do que se pensa, e apenas o contexto permite perceber a inversão. A alternativa d é incorreta porque ambas pertencem ao grupo das figuras de pensamento.
Revisão rápida
- Lítotes afirma algo negando o contrário: “não é nada boba” significa muito esperta.
- Ela serve para atenuar ou para enfatizar por contraste.
- Eufemismo suaviza com outra expressão, sem usar negação.
- Ironia diz o oposto do que se pensa e depende do contexto.
- Figuras de pensamento operam sobre a relação entre o dito e o pensado.
- A lítotes aparece com frequência como distratora, e reconhecê-la ajuda a descartá-la.
Leia também:
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- Silepse: a concordância com a ideia, não com a palavra
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