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O QUE: morfologia e função sintática em todos os casos

A palavra que em todas as suas funções. Substantivo, pronome, advérbio, conjunção e partícula expletiva, com testes práticos e questões no estilo UERJ.

Capa do artigo: O QUE: morfologia e função sintática em todos os casos

A palavra que é o inimigo público da análise sintática. Ela aparece o tempo todo, assume classes gramaticais diferentes e é, por isso, a pergunta favorita de qualquer prova que cobre gramática.

A boa notícia: cada um desses usos tem um teste próprio de identificação. Neste post você vai encontrar todos eles, com o teste que resolve cada caso.

Os valores do QUE

ClasseComo identificarExemplo
Substantivovem depois de artigo”Ele tem um quê de mistério.”
Pronome adjetivovem antes de substantivoQue menina bela!”
Advérbiovem antes de adjetivo ou advérbioQue bela menina!”
Pronome relativoretoma antecedente, troca por “o qual""A casa que comprei.”
Conjunção integrantetroca a oração por “isso""Disse que viria.”
Conjunção com valor semânticotroca por outro conectivo”Corre que corre.”
Partícula expletivapode ser retirada sem prejuízo”Nós é que sabemos.”

Substantivo

Quando o que vem precedido de artigo, ele se substantiva. É o processo chamado de derivação imprópria: o artigo tem o poder de transformar qualquer palavra em substantivo.

  • “Ele tem um quê de mistério.”
  • “O quê da questão me escapa.”

Nesse uso, a palavra recebe acento circunflexo e exerce as funções próprias do substantivo: sujeito, objeto, complemento.

Pronome adjetivo

Quando o que vem ao lado de um substantivo, ele funciona como pronome adjetivo.

  • Que menina bela!”
  • Que coisa bonita!”

E aqui há uma consequência sintática direta: todo pronome adjetivo exerce a função de adjunto adnominal.

Advérbio

Quando o que vem ao lado de um adjetivo ou advérbio, ele intensifica, equivalendo a “quão”.

  • Que bela menina!” (quão bela)
  • Que rapidamente ele saiu!”

E também aqui a função decorre da classe: todo advérbio exerce a função de adjunto adverbial.

Compare os dois casos, porque a diferença é sutil e cobrada:

  • Que menina bela!” → que está antes de menina, substantivo. É pronome adjetivo, adjunto adnominal.
  • Que bela menina!” → que está antes de bela, adjetivo. É advérbio, adjunto adverbial.

Pronome relativo

Retoma um substantivo anterior, chamado antecedente, e introduz oração subordinada adjetiva.

Teste: pode ser substituído por o qual, a qual, os quais ou as quais.

  • “A casa que comprei é velha.” = “A casa a qual comprei é velha.”

Como pronome relativo, ele exerce uma função sintática dentro da oração que introduz, e essa função varia:

  • Sujeito: “O aluno que chegou é meu amigo.” (que = o aluno, sujeito de chegou)
  • Objeto direto: “O livro que li é ótimo.” (li o livro)
  • Objeto indireto: “O amigo de que falei chegou.” (falei do amigo)
  • Adjunto adverbial: “A época em que vivemos é difícil.”
  • Predicativo: “O professor que ele é merece respeito.”

Para descobrir a função, substitua o que pelo antecedente e analise a oração resultante.

Conjunção integrante

Introduz oração subordinada substantiva e não exerce função sintática própria: ele apenas liga.

Teste: a oração inteira pode ser substituída por isso.

  • “É verdade que nada funciona.” = “É verdade isso.”
  • “Disse que viria.” = “Disse isso.”

A diferença em relação ao pronome relativo é decisiva e cai o tempo todo:

Cabe “o qual”? Pronome relativo, oração adjetiva.

Cabe “isso”? Conjunção integrante, oração substantiva.

Conjunção com valor semântico

O que também assume valores variados como conjunção coordenativa ou subordinativa. O teste é sempre a substituição:

ValorSubstituiçãoExemplo
aditivoe”Corre que corre e não chega.”
adversativomas”Não é esta, que deve ser revista.”
explicativopois”Vá, que estamos com pressa.”
comparativodo que”Somos mais espertos que eles.”
consecutivode modo que”Falou tanto que cansou.”
causalporque”Alegrou-se, que a notícia era boa.”
finalpara que”Aproxime-se, que eu lhe explico.”

Partícula expletiva

Também chamada de partícula de realce, serve apenas para dar ênfase. Aparece na construção é que.

Teste: pode ser retirada sem prejuízo gramatical.

  • “Nós é que sabemos.” → “Nós sabemos.”
  • “Agora é que são elas.” → “Agora são elas.”

Como não tem valor semântico, a partícula expletiva não exerce função sintática.

Roteiro de decisão

  1. Vem depois de artigo? Substantivo.
  2. Vem antes de substantivo? Pronome adjetivo, com função de adjunto adnominal.
  3. Vem antes de adjetivo ou advérbio? Advérbio, com função de adjunto adverbial.
  4. Cabe “o qual”? Pronome relativo, com função dentro da oração adjetiva.
  5. A oração cabe no lugar de “isso”? Conjunção integrante, sem função sintática.
  6. Pode ser retirado sem prejuízo? Partícula expletiva.
  7. Nenhum dos anteriores? Conjunção, e o valor se descobre pela substituição.

O que cai na UERJ

Este é um dos conteúdos mais rentáveis para a banca, porque une gramática e leitura:

  • Identificação do referente. Quando o que é pronome relativo, questões pedem a que termo ele se refere, sobretudo em períodos longos de textos ensaísticos.
  • Valor semântico da conjunção. A banca destaca um que conectivo e pergunta a relação lógica que ele estabelece. A substituição por outro conectivo é o caminho da resposta.
  • Reescrita. O enunciado propõe substituir o que por “o qual” e o candidato avalia se a construção se mantém, o que só funciona com pronome relativo.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

Nas frases “Que menina bela!” e “Que bela menina!”, a palavra destacada classifica-se, respectivamente, como:

a) advérbio e pronome adjetivo b) pronome adjetivo e advérbio c) conjunção integrante e pronome relativo d) substantivo e advérbio e) partícula expletiva e conjunção

Gabarito: b

Comentário: Na primeira frase, o que antecede o substantivo menina, funcionando como pronome adjetivo e exercendo a função de adjunto adnominal. Na segunda, ele antecede o adjetivo bela, com valor equivalente a “quão”, o que o caracteriza como advérbio de intensidade, com função de adjunto adverbial. A posição em relação ao termo seguinte é o critério que separa os dois casos.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Em “O jornal noticiou que a obra que fora interrompida seria retomada”, as duas ocorrências de que são, respectivamente:

a) pronome relativo e conjunção integrante b) conjunção integrante e pronome relativo c) ambas conjunções integrantes d) ambas pronomes relativos e) partícula expletiva e conjunção integrante

Gabarito: b

Comentário: A primeira ocorrência introduz aquilo que foi noticiado, e a oração pode ser substituída por “isso”: “O jornal noticiou isso”. Trata-se de conjunção integrante em oração subordinada substantiva objetiva direta. A segunda retoma o substantivo obra e admite a troca por “a qual”, o que a caracteriza como pronome relativo em oração adjetiva restritiva. Aplicar os dois testes em sequência resolve a questão.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Na frase “Nós é que resolvemos o problema”, a expressão destacada:

a) é conjunção integrante e introduz oração substantiva. b) é pronome relativo com função de sujeito. c) é partícula expletiva, podendo ser retirada sem prejuízo gramatical. d) é advérbio de intensidade. e) constitui erro de construção, devendo ser suprimida na norma culta.

Gabarito: c

Comentário: A construção “é que” serve exclusivamente para realçar o termo que a antecede, e o teste é imediato: ao retirá-la, obtém-se “Nós resolvemos o problema”, frase gramaticalmente completa e de mesmo sentido. Por não ter valor semântico nem função sintática, a partícula é classificada como expletiva ou de realce. A alternativa e é incorreta, pois o recurso é plenamente aceito pela norma culta como marca de ênfase.

Revisão rápida

  • O que assume vários valores, e cada um tem um teste de identificação próprio.
  • Depois de artigo é substantivo; antes de substantivo é pronome adjetivo; antes de adjetivo é advérbio.
  • Se cabe “o qual”, é pronome relativo e a oração é adjetiva.
  • Se a oração cabe no lugar de “isso”, é conjunção integrante e a oração é substantiva.
  • Como conjunção, o valor se descobre substituindo por outro conectivo.
  • Se pode ser retirado sem prejuízo, é partícula expletiva e não tem função sintática.

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