Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, transpõe a tragédia grega de Medeia para o subúrbio carioca dos anos 1970, construindo uma das peças mais estudadas do teatro brasileiro. Neste post você vai encontrar o resumo da obra e as chaves de leitura mais exploradas pela UERJ.
A tragédia grega no Rio de Janeiro
Gota d’Água recria a estrutura da tragédia de Medeia, de Eurípides, ambientando o drama num conjunto habitacional periférico carioca. Essa transposição segue a tradição do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, referência do teatro carioca que raramente recebe o devido reconhecimento escolar apesar de sua importância revolucionária para o teatro brasileiro.
A peça é escrita em versos, mantendo a tradição formal das tragédias gregas, mas com vocabulário coerente com o universo popular representado, incluindo palavrões que surgem naturalmente da fala das personagens. Essa escolha linguística é fundamental para a verossimilhança da obra: seria incoerente que moradores de um conjunto popular carioca falassem com a formalidade distante de outros registros, e Chico Buarque e Paulo Pontes optam por um texto fiel à oralidade daquele universo social.
A estrutura em dois atos
A peça se organiza em dois atos. É essencial não ignorar a introdução feita pelos autores, que contextualiza historicamente a peça e situa o que está sendo discutido nas entrelinhas do texto.
No primeiro ato, Jasão não aparece diretamente: ele é mencionado apenas nas falas de outras personagens, o que cria expectativa e permite que o público conheça sua história por meio de diferentes perspectivas antes de vê-lo em cena.
Os personagens centrais
Joana e Jasão
Joana é uma mulher mais velha, guardiã de um profundo rancor: ela dedicou-se inteiramente a Jasão, trabalhando exaustivamente na costura para sustentá-lo enquanto ele ainda não passava de um “moleque”, sem ofício nem rumo. Depois de anos de dedicação e dois filhos em comum, Jasão a abandona para se casar com Alma, filha de Creonte, homem rico e poderoso.
Jasão é construído como personagem em transformação, quase “camaleônico”: era um jovem sem trabalho e ligado à escola de samba, e sua trajetória muda radicalmente quando compõe o samba que dá título à peça, “Gota d’Água”, que se torna um sucesso de rádio e o transforma em celebridade da noite para o dia. Esse sucesso repentino atrai a atenção de Alma e o aproxima da elite representada por Creonte.
Creonte
Creonte é apresentado como uma figura de poder econômico que representa a exploração da população mais pobre. Ele é o dono do conjunto habitacional e vendeu os apartamentos aos moradores, que agora vivem sob prestações pesadas em um contexto de inflação, sem perceberem plenamente a armadilha financeira em que se meteram ao comprar.
Um símbolo recorrente associado a Creonte é a cadeira: em uma passagem específica, ele oferece cadeiras a Jasão em um diálogo carregado de metáforas sobre poder e hierarquia social, revelando como o mobiliário funciona como signo de status e domínio nas relações representadas.
Mestre Egeu
Em contraste com Creonte, o Mestre Egeu é retratado como um homem simples, que vive de seu próprio trabalho, consertando rádios e aparelhos eletroeletrônicos em sua oficina. Ele representa um modelo alternativo de vida ao lado da exploração encarnada por Creonte, evidenciando o contraste entre dignidade pelo trabalho e poder pela exploração alheia.
A antítese de gênero
Um dos eixos estruturais mais ricos da peça é a antítese entre homens e mulheres. As amigas de Joana formam um bloco de solidariedade feminina, buscando compreendê-la e apoiá-la em sua dor, num movimento de identificação entre mulheres que reconhecem o risco de viverem situação semelhante.
Do outro lado, os homens se reúnem no bar do Galego, incluindo figuras como Cafetão e Amorim, criando um espaço social masculino que opera segundo uma lógica distinta, muitas vezes cúmplice da atitude de Jasão. Essa divisão espacial e social entre o universo feminino e o masculino constrói uma crítica de gênero explícita na obra.
A letra da canção “Gota d’Água”
A canção que dá nome à peça, com a primeira pessoa marcando a voz de Joana, expressa a entrega total: “já lhe dei meu corpo, minha alegria”. O eu lírico relata a doação de tudo o que possuía de mais íntimo e essencial, o que intensifica a dimensão da traição sofrida quando Jasão a abandona.
Diálogo com “Quadrilha”, de Drummond
A canção “Flor da Idade” dialoga intertextualmente com o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, cerca de quarenta anos antes da peça. A estrutura de amores não correspondidos em cadeia, em que “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria…”, é retomada na música, numa referência que amplia o sentido da obra ao situá-la em diálogo com a tradição poética modernista brasileira.
Joana e os filhos
Em um momento notável da obra, quando alguém pede a Joana que pense em seus filhos diante da possível vingança contra Jasão, ela profere um discurso que rompe com a expectativa tradicional do amor materno incondicional, revelando a complexidade emocional de uma mulher tomada pela dor da traição a ponto de questionar até mesmo sua relação com os próprios filhos. Esse é um dos momentos mais controversos e discutidos da peça, exatamente por subverter a imagem idealizada da maternidade.
O que cai na UERJ
Quando Gota d’Água está no programa, as questões costumam explorar:
- A transposição da tragédia grega para o contexto popular carioca, e sua verossimilhança linguística.
- A crítica social representada por Creonte como símbolo de exploração econômica.
- A antítese de gênero entre o bloco feminino solidário e o universo masculino do bar.
- A intertextualidade com “Quadrilha”, de Drummond, na canção “Flor da Idade”.
- O discurso de Joana sobre os filhos, que rompe com expectativas tradicionais de maternidade.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A escolha de Chico Buarque e Paulo Pontes de escrever Gota d’Água em versos, mas com vocabulário popular e uso de palavrões, justifica-se pela busca de:
a) elevação formal desconectada do contexto social representado. b) verossimilhança, já que a linguagem popular condiz com o universo social das personagens retratadas. c) ruptura total com a tradição da tragédia grega. d) comicidade gratuita sem função dramática. e) imitação irônica do Parnasianismo.
Gabarito: b
Comentário: Mantendo a estrutura em versos da tragédia grega, mas adaptando o vocabulário ao universo popular carioca representado, os autores garantem coerência entre a linguagem empregada e o contexto social das personagens, princípio central da verossimilhança. Seria inconsistente que moradores de um conjunto habitacional periférico se expressassem com formalidade distante de sua realidade linguística cotidiana.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Creonte, na peça, representa simbolicamente:
a) a dignidade do trabalho manual e simples. b) o poder econômico que explora a população mais pobre através de mecanismos como o endividamento imobiliário. c) a solidariedade entre vizinhos de um mesmo conjunto habitacional. d) a resistência da classe trabalhadora à exploração. e) um personagem secundário sem relevância simbólica.
Gabarito: b
Comentário: Como dono do conjunto habitacional que vendeu os apartamentos aos moradores, Creonte personifica o poder econômico que se aproveita da necessidade da população mais pobre, prendendo-a a prestações que se tornam pesadas em contexto de inflação. O símbolo da cadeira, usado em seu diálogo com Jasão, reforça essa representação de hierarquia e domínio social.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A referência ao poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, na canção “Flor da Idade”, presente em Gota d’Água, constitui um exemplo de:
a) plágio não reconhecido pelos autores. b) intertextualidade, que amplia o sentido da obra ao dialogar com a tradição poética modernista brasileira. c) crítica direta à obra de Drummond. d) tradução literal do poema para a linguagem musical. e) recurso sem qualquer função interpretativa na peça.
Gabarito: b
Comentário: Ao retomar a estrutura de amores em cadeia não correspondidos, presente no célebre poema modernista de Drummond, a canção “Flor da Idade” estabelece diálogo intertextual que amplia as camadas de sentido de Gota d’Água, situando a obra em relação com uma tradição literária reconhecida e enriquecendo sua leitura para quem identifica a referência.
Revisão rápida
- Gota d’Água transpõe a tragédia de Medeia para o subúrbio carioca dos anos 1970.
- A peça é escrita em versos, mas com vocabulário popular, em busca de verossimilhança.
- Joana é abandonada por Jasão, que se casa com Alma, filha do poderoso Creonte.
- Creonte representa a exploração econômica através da venda de imóveis a prestação.
- A obra constrói uma antítese de gênero entre o bloco feminino solidário e o universo masculino do bar.
- A canção “Flor da Idade” dialoga intertextualmente com “Quadrilha”, de Drummond.
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