A linguagem que você usa no WhatsApp, no Twitter e nos comentários também é objeto de estudo, e cai em prova. Ela tem características próprias, gêneros próprios e uma lógica própria.
O erro mais comum ao tratar do tema é o julgamento apressado: dizer que a internet “está destruindo o português”. Neste post você vai encontrar a análise que a prova espera, que é outra.
As características da linguagem digital
Hibridismo entre fala e escrita
Esta é a marca central. A comunicação digital é escrita, mas funciona com a dinâmica da fala: é rápida, dialógica, informal e espera resposta imediata.
Daí decorre quase tudo o mais.
Economia
O internetês reduz para ganhar velocidade:
- Abreviações: vc, pq, tb, blz, kd.
- Supressão de vogais: msg, qdo.
- Siglas: rs, sqn, pdc.
Recursos expressivos que substituem a entonação
Na fala, a voz carrega emoção. Na escrita digital, ela é reposta por:
- Emojis e emoticons.
- Caixa alta para gritar.
- Repetição de letras: “muitoooo”.
- Alongamento de risadas: “kkkk”, “hahaha”.
- Pontuação expressiva: “sério???”.
Multimodalidade
Texto, imagem, áudio, vídeo e GIF convivem na mesma mensagem. Um sticker pode responder a uma frase; um áudio substitui um parágrafo.
Hipertextualidade
O texto digital é não linear: links levam a outros textos, e o leitor constrói seu próprio percurso.
Interatividade
O leitor é também produtor. Comenta, compartilha, remixa, responde. A fronteira entre quem escreve e quem lê se dissolve.
Os gêneros digitais
Novos gêneros surgem conforme surgem novas práticas:
| Gênero | Característica |
|---|---|
| Mensagem instantânea | brevidade, dialogia, uso de áudio |
| mais formal, com estrutura de carta | |
| Post | público, com apelo à interação |
| Comentário | responsivo, breve |
| Meme | multimodal, intertextual, humorístico |
| Stories | efêmero, visual |
| Thread | argumentação fragmentada em partes |
O meme merece atenção especial. Ele é um dos gêneros mais complexos da comunicação contemporânea: combina imagem e texto, depende de repertório compartilhado, opera por intertextualidade e produz sentido por deslocamento. Quem não conhece a referência não entende a piada, e é exatamente isso que faz do meme um marcador de pertencimento a um grupo.
O ponto que a prova quer: adequação
Aqui está a análise que a banca espera, e ela contraria o senso comum.
A linguagem digital não é português errado. Ela é uma variedade situacional: um registro adequado ao contexto em que é usado.
Escrever “vc tb vem?” para um amigo no WhatsApp é perfeitamente adequado. Escrever isso em um e-mail para uma banca examinadora é inadequado. A questão nunca é certo ou errado: é adequação ao contexto.
E há um dado que desmonta a tese da destruição do português: as abreviações não são invenção da internet. Bilhetes, telegramas e anotações sempre abreviaram. O que a internet fez foi ampliar a escala e dar visibilidade a uma escrita informal que antes não circulava publicamente.
Um falante competente é aquele que transita entre registros. Quem só escreve em internetês tem repertório limitado; quem não consegue escrever informalmente também.
O que cai na UERJ
O tema aparece de várias formas:
- Adequação linguística. A banca apresenta um texto digital e pergunta por que aquele registro é adequado à situação, ou pede a versão formal.
- Meme e multimodalidade. Leitura da relação entre imagem e texto, e da intertextualidade envolvida.
- Preconceito linguístico. Questões que exploram o julgamento das variedades digitais como forma de discriminação.
- Novas práticas de leitura. Hipertextualidade e não linearidade como transformação do ato de ler.
Na redação, o tema rende repertório em propostas sobre desinformação, bolhas informacionais, saúde mental, privacidade e regulação das plataformas. E vale o cuidado óbvio: nenhuma marca de internetês deve aparecer no texto dissertativo.
Aula completa no YouTube
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Sobre o uso de abreviações como vc e pq em mensagens instantâneas, é correto afirmar que:
a) constituem erro de português e devem ser combatidas em qualquer contexto. b) caracterizam um registro adequado à situação comunicativa em que ocorrem. c) são invenção exclusiva da internet, sem precedentes na escrita. d) demonstram desconhecimento da norma culta por parte de quem as usa. e) tornam a comunicação incompreensível entre os interlocutores.
Gabarito: b
Comentário: As abreviações respondem à necessidade de rapidez própria da comunicação instantânea e são plenamente compreendidas pelos interlocutores, o que afasta a alternativa e. Trata-se de variedade situacional adequada ao contexto, e não de desvio. A alternativa c é historicamente falsa, pois telegramas, bilhetes e anotações pessoais já empregavam abreviações muito antes da internet.
Questão 2 (Estilo UERJ)
O meme caracteriza-se como gênero digital complexo porque:
a) utiliza exclusivamente linguagem verbal. b) combina imagem e texto, depende de repertório compartilhado e opera por intertextualidade. c) não admite variação em sua estrutura. d) tem finalidade exclusivamente informativa. e) dispensa qualquer conhecimento prévio do leitor.
Gabarito: b
Comentário: O meme articula dois códigos e produz sentido por deslocamento de uma referência conhecida, o que exige que o leitor domine o repertório mobilizado. Quem desconhece a referência não acessa o efeito pretendido, o que invalida a alternativa e. Justamente por depender desse conhecimento compartilhado, o meme funciona também como marcador de pertencimento a determinado grupo.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A afirmação de que “a internet está destruindo o português” pode ser criticada porque:
a) a linguagem digital não apresenta características próprias. b) desconsidera que a variação de registro conforme o contexto é próprio do funcionamento da língua. c) todos os falantes usam apenas o registro formal. d) a internet não influencia a linguagem de nenhuma forma. e) as abreviações já foram oficialmente incorporadas à norma culta.
Gabarito: b
Comentário: A afirmação criticada parte do pressuposto de que existe uma única forma legítima de escrever, ignorando que falantes competentes ajustam o registro à situação comunicativa. Usar linguagem informal no WhatsApp e formal em um documento não indica deterioração da língua, e sim domínio de mais de um registro. A alternativa d nega, por outro lado, uma influência que de fato existe.
Revisão rápida
- A linguagem digital é escrita com dinâmica de fala: rápida, dialógica e informal.
- Suas marcas são economia, recursos expressivos, multimodalidade e hipertextualidade.
- Emojis e repetição de letras substituem a entonação que a fala teria.
- O meme depende de repertório compartilhado e opera por intertextualidade.
- A questão não é certo ou errado, é adequação ao contexto.
- Abreviar não é invenção da internet: telegramas e bilhetes já faziam isso.
Leia também:
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