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Variação Linguística: tipos e preconceito linguístico

Variação linguística explicada por tipo. Regional, social, histórica e situacional, além de adequação, norma padrão e preconceito linguístico para a UERJ.

Capa do artigo: Variação Linguística: tipos e preconceito linguístico

Variação linguística são os diferentes modos de usar uma mesma língua. O ponto de partida do tema é uma afirmação simples e que contraria o senso comum: não existe uma única língua portuguesa, existem múltiplas realizações dela, todas legítimas.

Cada variedade responde a fatores históricos, sociais, culturais e geográficos. Entender isso é o que separa a leitura competente de um texto do julgamento apressado sobre “falar certo” e “falar errado”. Neste post você vai aprender os quatro tipos de variação, o conceito de adequação e o que é preconceito linguístico.

Os quatro tipos de variação

Variação regional ou diatópica

É a variação no espaço. Cada região desenvolve suas próprias palavras, pronúncias e construções.

  • Mandioca, aipim e macaxeira nomeiam a mesma raiz.
  • Biscoito e bolacha dividem o país.
  • O “r” do interior paulista, o “s” chiado carioca, o “t” e o “d” do Nordeste.

Nenhuma dessas formas é superior à outra. Cada região tem uma identidade linguística, e todas merecem estudo e respeito.

Variação social ou diastrática

É a variação entre grupos sociais. Depende de fatores como escolaridade, profissão, faixa etária e convívio.

Dois casos importantes:

  • Gírias: marcam pertencimento a um grupo. Dizer que uma garota “é um broto” não identifica só a gíria, identifica a geração de quem fala.
  • Jargões: vocabulário técnico de uma profissão. O jargão jurídico, o médico, o da informática.

O acesso à escolarização amplia o repertório e o domínio da norma padrão, mas isso não torna a variedade de quem teve menos acesso menos eficiente como sistema de comunicação.

Variação histórica ou diacrônica

É a variação no tempo. A língua muda, e textos antigos revelam formas que hoje soam estranhas.

  • “Vossa Mercê” virou “você”, que na fala vira “cê”.
  • “Farmácia” já se escreveu “pharmacia”.

Esse tipo aparece quando a UERJ traz um texto de época e pergunta sobre construções que caíram em desuso.

Variação situacional ou diafásica

É a variação conforme o contexto. O mesmo falante muda seu jeito de falar de acordo com a situação.

Você não escreve uma mensagem de WhatsApp para um amigo do mesmo jeito que escreve um e-mail para uma banca. Não porque uma forma seja errada, mas porque cada situação pede um registro.

Adequação: o conceito que substitui “certo e errado”

Aqui está a chave do conteúdo. O critério de avaliação da língua não é correção, é adequação.

  • Usar gíria numa conversa entre amigos é adequado.
  • Usar gíria numa redação de vestibular é inadequado.
  • Usar norma padrão numa conversa informal soa artificial, e portanto também é inadequado.

O falante competente é aquele que transita entre registros conforme a situação exige. É exatamente essa habilidade que o vestibular avalia: reconhecer o registro de um texto e saber produzir o registro que o gênero pede.

Três conceitos que costumam ser confundidos:

ConceitoO que é
Norma padrãomodelo ideal descrito pela gramática normativa
Norma cultao português efetivamente usado por falantes escolarizados
Variedade popularo português usado por falantes com menor escolarização

A norma padrão é uma referência, não um retrato da língua real. Nem mesmo falantes muito escolarizados a seguem integralmente na fala espontânea.

Preconceito linguístico

Preconceito linguístico é a discriminação de uma pessoa em razão do seu modo de falar. Ele quase nunca é sobre a língua: é sobre a origem regional e a classe social de quem fala.

O mecanismo é este: ao classificar uma variedade como “errada” ou “feia”, desqualifica-se quem a usa. E desqualificar o modo de falar de alguém é um jeito eficiente de tirar dessa pessoa o direito de ser ouvida.

Formas comuns:

  • Ridicularizar sotaques regionais, sobretudo o nordestino.
  • Corrigir publicamente a fala de alguém em situação informal.
  • Associar variedade popular a incapacidade intelectual.
  • Tratar como erro construções sistemáticas da variedade popular, como “nós vai” ou “os menino”.

O ponto que a prova cobra: essas construções não são aleatórias, elas seguem regras. “Os menino” marca o plural uma vez, no artigo, em vez de marcar em todas as palavras. É economia, não ignorância.

O que cai na UERJ

O tema aparece em duas frentes:

  • Reconhecimento de registro. A banca apresenta uma canção, um quadrinho, um trecho de conversa ou uma propaganda e pergunta qual variedade está em jogo e por que ela é adequada àquela situação. Chico Buarque, com seu domínio de registros populares, é fonte recorrente.
  • Efeito de sentido da escolha linguística. Quando um autor coloca na boca de um personagem uma variedade popular, isso constrói caracterização. A questão pergunta o que essa escolha produz: verossimilhança, crítica social, humor, denúncia do preconceito.

Na redação, o tema é um repertório poderoso: preconceito linguístico conecta língua, desigualdade social e cidadania, e rende argumentação consistente em propostas sobre educação, exclusão e identidade.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

As formas mandioca, aipim e macaxeira exemplificam a variação linguística de tipo:

a) histórica b) social c) regional d) situacional e) estilística

Gabarito: c

Comentário: As três palavras nomeiam o mesmo referente e são empregadas em diferentes regiões do país, o que caracteriza variação regional ou diatópica. Não há relação com a passagem do tempo, o que excluiria a histórica, nem com grupos sociais distintos dentro de uma mesma região, o que excluiria a social. Também não se trata de mudança de registro conforme o contexto, o que excluiria a situacional.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Leia o trecho de uma carta de leitor:

“Sou nordestino e já ouvi mais de uma vez que ‘falo errado’. Ninguém nunca me disse o mesmo quando ouviu meu chefe engolir o ‘r’ do infinitivo.”

O trecho denuncia:

a) a inexistência de variedades regionais no português brasileiro. b) o preconceito linguístico, que discrimina variedades associadas a grupos socialmente desprestigiados. c) a superioridade da norma padrão sobre as variedades regionais. d) a necessidade de eliminar sotaques em contextos formais. e) um erro gramatical cometido pelo chefe do autor.

Gabarito: b

Comentário: O autor aponta uma assimetria reveladora: dois fenômenos de variação são tratados de modo diferente. A supressão do “r” no infinitivo é praticamente universal no português brasileiro, inclusive entre falantes escolarizados, mas não é julgada. Já o sotaque nordestino é. A diferença de tratamento não se explica pela língua, e sim pelo prestígio social atribuído a quem fala, o que é a definição de preconceito linguístico.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Sobre o conceito de adequação linguística, é correto afirmar que:

a) determina que a norma padrão deve ser usada em todas as situações comunicativas. b) classifica as variedades linguísticas em corretas e incorretas. c) avalia o uso da língua conforme a situação comunicativa, e não conforme um padrão único. d) aplica-se apenas à modalidade escrita da língua. e) é sinônimo de correção gramatical.

Gabarito: c

Comentário: A adequação substitui o par certo e errado pelo par adequado e inadequado, deslocando a avaliação para o contexto de uso. Uma gíria é adequada entre amigos e inadequada numa redação de vestibular, sem que isso torne a gíria incorreta. A alternativa a inverte o conceito, pois o uso da norma padrão em contexto informal também constitui inadequação, soando artificial e distante.

Revisão rápida

  • Não existe uma única língua portuguesa: existem variedades, todas legítimas.
  • São quatro tipos: regional, social, histórica e situacional.
  • O critério de avaliação não é correção, é adequação à situação comunicativa.
  • Norma padrão é o modelo da gramática; norma culta é o uso real dos falantes escolarizados.
  • Preconceito linguístico discrimina a pessoa pelo modo de falar, e é sobre classe e origem, não sobre língua.
  • Construções da variedade popular seguem regras próprias, não são aleatórias.

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