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Machado de Assis: as duas fases, estilo e obras

Machado de Assis explicado pelas duas fases da obra, o que muda com Memórias Póstumas e os recursos de estilo que a UERJ mais cobra, com questões comentadas.

Capa do artigo: Machado de Assis: as duas fases, estilo e obras

Machado de Assis é considerado o maior escritor brasileiro. A frase é repetida por todo professor de literatura, e é justa: se José de Alencar ajudou a criar uma literatura brasileira, foi Machado quem lhe deu autonomia, identidade e maturidade.

Mas o Machado que todos conhecem não é o Machado do início. Sua obra se divide em duas fases muito distintas, e entender o que aconteceu entre elas é a chave para ler qualquer romance dele. Neste post você vai encontrar essa divisão, os recursos de estilo que o tornaram singular e o que costuma ser cobrado nas provas.

Primeira fase: o Machado romântico

Machado não começou realista. Seus primeiros romances seguem a fórmula do Romantismo:

  • Casal de protagonistas.
  • Pegada sentimental.
  • Personagens planas, sem grande profundidade psicológica.
  • Enredo movido por obstáculos ao amor.

São dessa fase Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia.

São bons romances, mas ainda dentro de uma estética que outros também praticavam. Nada ali anunciava o que viria.

A virada: Memórias Póstumas de Brás Cubas

A publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas é o marco que separa as duas fases de Machado e, mais do que isso, inaugura o Realismo no Brasil.

O que muda é quase tudo:

  • O narrador. Brás Cubas narra depois de morto, o que libera o texto de qualquer compromisso com convenções sociais. É o “defunto autor”, não o “autor defunto”, como o próprio narrador faz questão de esclarecer.
  • A estrutura. Capítulos curtíssimos, digressões, conversas diretas com o leitor, um capítulo feito só de pontos.
  • A construção das personagens. Complexas, contraditórias, esféricas. Elas mudam e escondem coisas de si mesmas.
  • O tom. Pessimismo, descrença nos valores burgueses, análise fria da hipocrisia social.

Machado mudou a forma de contar histórias, a construção de personagens e o próprio modo de se fazer romance no país.

Segunda fase: o Machado realista

Além de Memórias Póstumas, integram a fase realista Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.

As marcas dessa fase:

  • Análise psicológica. O interesse se desloca da ação para o interior das personagens.
  • Ironia. É a arma central do estilo machadiano, e quase nunca explícita.
  • Pessimismo. Uma visão desencantada da natureza humana e das instituições.
  • Crítica social. Dirigida à elite carioca, ao favor, à aparência e à hipocrisia religiosa.
  • Metalinguagem. O narrador comenta o próprio ato de narrar.

Os recursos de estilo que caem em prova

Narrador não confiável

Este é o recurso mais explorado pelas bancas. Em Dom Casmurro, Bentinho narra décadas depois dos fatos, movido por ciúme, e apresenta como prova de adultério indícios frágeis.

O romance não afirma que Capitu traiu. Ele mostra um homem convencido disso. A ambiguidade é construída pelo foco narrativo, e é deliberada.

O mesmo mecanismo opera em Memórias Póstumas: um narrador morto, que não tem nada a perder, mas também nenhuma obrigação com a verdade.

Ironia

Machado raramente ataca de frente. Ele elogia com palavras que, no contexto, significam o oposto.

Quando o narrador de Memórias Póstumas dedica o livro “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, a dedicatória parodia as dedicatórias solenes da época e anuncia o tom do que vem.

Digressão

O narrador interrompe a história para comentar, filosofar ou provocar o leitor. A digressão não é desvio: ela é parte do projeto do romance.

Diálogo com o leitor

O narrador machadiano se dirige diretamente a quem lê, cobra atenção, atribui culpas. É o narrador onisciente intruso levado ao extremo.

Machado e o Realismo brasileiro

Vale a distinção, porque a prova cobra:

RealismoNaturalismo
Focopsicologia do indivíduocomportamento como fenômeno
Métodoanálise interiorromance de tese, base científica
Marco inicial no BrasilMemórias Póstumas de Brás CubasO Mulato, de Aluísio Azevedo

As duas escolas surgem praticamente ao mesmo tempo no Brasil e compartilham a postura antirromântica, mas seguem caminhos distintos. Machado analisa a alma; o Naturalismo analisa o organismo social.

O que cai na UERJ

Machado aparece nas provas da UERJ por três caminhos:

  • Como obra do programa. Quando um romance seu é adotado, as questões giram em torno do foco narrativo, da ironia e da confiabilidade do narrador.
  • Como texto de interpretação. Trechos de crônicas e contos são usados em questões de linguagens, e o reconhecimento da ironia costuma ser a chave da resposta.
  • Como marco do Realismo. Questões de literatura que pedem a caracterização da escola quase sempre passam por Memórias Póstumas.

Um alerta recorrente: narrador não é autor. Bentinho não é Machado de Assis, e Brás Cubas tampouco. Confundir os dois leva a leituras equivocadas e a alternativas erradas.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

A obra que marca a transição de Machado de Assis para a fase realista e inaugura o Realismo no Brasil é:

a) Helena b) A Mão e a Luva c) Memórias Póstumas de Brás Cubas d) Dom Casmurro e) Memorial de Aires

Gabarito: c

Comentário: Memórias Póstumas de Brás Cubas rompe com a estética romântica ao introduzir o narrador defunto, a estrutura fragmentada em capítulos curtos, as digressões e o pessimismo analítico, inaugurando o Realismo brasileiro. As alternativas a e b pertencem à primeira fase, ainda romântica. As alternativas d e e integram a fase realista, mas são posteriores ao marco inicial.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Sobre a construção do narrador em Dom Casmurro, é correto afirmar que:

a) o narrador onisciente revela os pensamentos de Capitu, comprovando a traição. b) a narração em primeira pessoa, feita por um homem movido pelo ciúme, produz um relato parcial e ambíguo. c) o narrador é imparcial, o que confere veracidade aos fatos relatados. d) a ambiguidade da obra decorre de inconsistência na construção do enredo. e) o narrador coincide com o autor, o que garante a confiabilidade do relato.

Gabarito: b

Comentário: Bentinho é narrador personagem e, portanto, tem acesso apenas à própria perspectiva, o que invalida a alternativa a. Ele narra décadas após os fatos, tomado pelo ciúme, e apresenta como evidências indícios que não se sustentam isoladamente. A ambiguidade resultante não é falha, e sim recurso deliberado: o romance não afirma a traição, apresenta um homem convencido dela.


Questão 3 (Estilo UERJ)

A diferença fundamental entre a proposta estética do Realismo machadiano e a do Naturalismo está no fato de que:

a) o Realismo idealiza a realidade e o Naturalismo a critica. b) o Realismo constrói personagens planas e o Naturalismo, esféricas. c) o Realismo investiga a complexidade psicológica do indivíduo, enquanto o Naturalismo constrói romances de tese apoiados em teorias científicas. d) o Naturalismo antecede o Realismo em várias décadas no Brasil. e) apenas o Naturalismo apresenta postura antirromântica.

Gabarito: c

Comentário: As duas escolas surgem praticamente no mesmo momento no Brasil e compartilham a ruptura com o Romantismo, o que afasta as alternativas d e e. A distinção está no método: o Realismo volta-se para a análise interior da personagem, revelando contradições e autoenganos, enquanto o Naturalismo utiliza a narrativa para demonstrar teorias como o determinismo e o darwinismo social, tratando o comportamento humano como fenômeno observável.

Revisão rápida

  • Machado deu autonomia e maturidade à literatura brasileira.
  • Sua primeira fase é romântica: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia.
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas marca a virada e inaugura o Realismo no Brasil.
  • A fase realista traz análise psicológica, ironia, pessimismo e metalinguagem.
  • O narrador não confiável é o recurso mais cobrado, e Dom Casmurro é o caso exemplar.
  • Realismo analisa a psicologia do indivíduo; Naturalismo constrói romance de tese.

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