Metalinguagem é o uso de um código para falar sobre o próprio código. A definição é curta e resolve todos os casos: se a linguagem se volta para si mesma, há metalinguagem.
É um conceito que está no programa da UERJ e que aparece com regularidade, sobretudo em textos literários. Neste post você vai aprender a reconhecê-lo em qualquer suporte.
O princípio
O prefixo meta indica reflexão sobre si. Portanto:
- Um poema que fala sobre poesia é metalinguístico.
- Um samba que fala sobre o samba é metalinguístico.
- Um desenho que representa uma mão desenhando é metalinguístico.
- Uma pintura sobre o ato de pintar é metalinguística.
- Um filme sobre a produção de um filme é metalinguístico.
O exemplo mais cotidiano é o dicionário: um livro que usa palavras para explicar palavras. Ele existe inteiramente dentro da metalinguagem.
Outro exemplo: uma gramática é um texto em português que explica o funcionamento do português.
Metalinguagem não é só verbal
Aqui está o ponto que a prova mais explora, e o que a maioria não considera.
A metalinguagem vale para qualquer código:
| Suporte | Exemplo metalinguístico |
|---|---|
| Literatura | poema sobre o fazer poético |
| Cinema | filme sobre a realização de um filme |
| Pintura | quadro que representa o pintor pintando |
| Música | canção que fala sobre compor |
| Quadrinhos | tirinha em que a personagem sabe que está num quadrinho |
| Fotografia | foto de alguém fotografando |
Quando a UERJ apresenta uma imagem, e não um texto, a metalinguagem continua sendo uma resposta possível.
Metalinguagem e função metalinguística
Os dois termos se relacionam, mas não são exatamente a mesma coisa:
- Metalinguagem é o fenômeno: o código voltado sobre si.
- Função metalinguística é uma das seis funções da linguagem, aquela que coloca o código em evidência.
Na prática, quando a questão pergunta pela função predominante e o texto reflete sobre a própria linguagem, a resposta é função metalinguística.
Metalinguagem na literatura
Este é o terreno mais fértil, e o mais cobrado.
O narrador que comenta a narração
Machado de Assis é o mestre brasileiro do recurso. Seus narradores interrompem a história para discutir como estão contando, dirigem-se ao leitor, comentam a estrutura dos capítulos e chegam a se desculpar pelo ritmo do romance.
Ao fazer isso, o texto expõe sua própria condição de construção: ele lembra ao leitor que aquilo é um livro sendo escrito, não a vida acontecendo.
O poema sobre o poema
Os parnasianos escreveram sobre o ofício de lapidar o verso. Os modernistas escreveram sobre o direito de romper com as formas. Drummond escreveu sobre a dificuldade de escrever.
Em todos esses casos, o poema tem dois assuntos ao mesmo tempo: o que ele diz e o próprio ato de dizer.
A quebra do pacto ficcional
Quando a obra expõe deliberadamente sua ficcionalidade, ela rompe o pacto ficcional: o acordo pelo qual o leitor aceita temporariamente aquele universo como se fosse real.
Essa ruptura não é falha, é recurso. Ela obriga o leitor a pensar sobre a própria leitura.
Como identificar em três perguntas
- O texto fala sobre linguagem, arte ou sobre o ato de criar?
- O código usado é o mesmo código sobre o qual se fala?
- A obra chama atenção para sua própria construção?
Se a resposta for sim, há metalinguagem.
O segundo ponto merece atenção: um texto em português que fala sobre pintura não é metalinguístico, porque o código do texto e o código comentado são diferentes. Já uma pintura sobre pintura é.
O que cai na UERJ
O tema aparece de três formas:
- Identificação da função predominante. Um texto que reflete sobre a linguagem é apresentado, e a resposta é função metalinguística.
- Metalinguagem em imagem. Charges, tirinhas e obras visuais que se voltam sobre si mesmas. A banca gosta desse formato porque exige que o candidato aplique o conceito fora do verbal.
- Narradores metalinguísticos nas obras do programa. Quando um romance com narrador intruso é adotado, o recurso vira matéria de questão.
Na redação, a metalinguagem pode ser repertório em temas sobre arte, comunicação e produção cultural, mas raramente cabe como recurso de escrita: o texto dissertativo não deve comentar a si mesmo.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Uma imagem apresenta a mão de um desenhista traçando o contorno de uma mão que, por sua vez, desenha a primeira. Essa construção caracteriza:
a) intertextualidade b) metalinguagem c) ironia d) hipérbole e) função apelativa
Gabarito: b
Comentário: A imagem utiliza o desenho para representar o próprio ato de desenhar, o que configura o código voltado sobre si mesmo. Trata-se, portanto, de metalinguagem em suporte visual. A alternativa a descreveria diálogo entre obras distintas, e não a reflexão de uma obra sobre o seu próprio processo de construção, que é o caso apresentado.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa em que não há metalinguagem:
a) Um verbete de dicionário que define a palavra “palavra”. b) Um poema que discute a dificuldade de escrever poemas. c) Um artigo em português que analisa a pintura barroca. d) Um filme que mostra os bastidores de uma filmagem. e) Uma canção cuja letra fala sobre compor canções.
Gabarito: c
Comentário: Para que haja metalinguagem, o código empregado deve coincidir com o código comentado. Em c, o texto verbal trata de pintura, ou seja, de um código distinto do que ele próprio utiliza, o que caracteriza discurso sobre arte, mas não metalinguagem. Nas demais alternativas há coincidência entre o código usado e o objeto de reflexão.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Em um romance, o narrador interrompe a narrativa para comentar a extensão dos capítulos e pedir paciência ao leitor. Esse procedimento:
a) constitui falha de construção narrativa. b) caracteriza metalinguagem, ao expor a condição de obra construída e romper o pacto ficcional. c) configura intertextualidade com outros romances. d) indica narrador observador em terceira pessoa. e) demonstra função referencial predominante.
Gabarito: b
Comentário: Ao comentar a própria estrutura e interpelar quem lê, o narrador desloca a atenção do enredo para o ato de narrar, tornando visível a natureza construída do romance. Esse gesto rompe o pacto ficcional, pelo qual o leitor aceitava o universo narrado como se fosse real. Longe de constituir falha, trata-se de recurso deliberado, marcante na obra de Machado de Assis.
Revisão rápida
- Metalinguagem é o código voltado sobre si mesmo.
- Vale para qualquer suporte: texto, imagem, música, cinema, quadrinhos.
- O dicionário e a gramática são exemplos cotidianos do fenômeno.
- Para haver metalinguagem, o código usado deve coincidir com o código comentado.
- Na literatura, aparece no narrador que comenta a narração e no poema sobre poesia.
- Expor a ficcionalidade rompe o pacto ficcional, e isso é recurso, não falha.
Leia também:
- Funções da Linguagem: as 6 funções com exemplos
- Verossimilhança: o que torna uma ficção convincente
- Machado de Assis: as duas fases, estilo e obras
- Guia completo do Vestibular UERJ
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