Quincas Borba, de Machado de Assis, publicado em 1891, acompanha a ascensão e a queda de um homem comum que herda uma fortuna e se lança, despreparado, à sociedade carioca do século XIX. Neste post você vai encontrar o resumo do romance e as chaves de leitura mais exploradas em prova.
Machado de Assis e o romance
Machado de Assis (1839-1908) foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e dramaturgo, com produção vastíssima que consolidou sua posição como o maior nome da literatura brasileira. Quincas Borba foi publicado originalmente em formato de folhetim semanal, antes de ser reunido em romance, prática comum na época para ampliar o alcance e a renda com a publicação.
O título faz referência ao filósofo fictício Quincas Borba, personagem que já aparecera em Memórias Póstumas de Brás Cubas, e criador da teoria do Humanitismo.
O Humanitismo: a filosofia que sustenta a crítica
O Humanitismo é uma filosofia inventada por Quincas Borba dentro do universo machadiano, uma paródia de teorias evolucionistas e positivistas da época. Em síntese, ela defende que a vida se resume a uma disputa constante entre indivíduos, na qual os vencedores esmagam os perdedores em nome de um princípio superior chamado “Humanitas”. A célebre síntese da teoria, “ao vencedor, as batatas”, ironiza o darwinismo social ao reduzir toda complexidade humana a uma disputa por sobrevivência e vantagem.
Essa filosofia não é apresentada como verdade a ser aceita pelo leitor: ela funciona como lente crítica através da qual Machado de Assis constrói sua análise implacável da sociedade carioca da época, em que interesse, hipocrisia e bajulação movem as relações sociais.
O enredo: a ascensão de Rubião
O protagonista é Rubião, um antigo professor simples que se torna herdeiro de uma fortuna deixada por Quincas Borba, seu amigo, ao falecer. Ao saber da morte do filósofo pelo jornal, Rubião sente, paradoxalmente, um misto de tristeza pela perda e alívio, pensando que o amigo finalmente descansaria do sofrimento que vivia.
De posse da herança, Rubião se muda para o Rio de Janeiro, decidido a viver como um homem rico e socialmente relevante. É nesse momento que a narrativa começa a expor, capítulo a capítulo, a hipocrisia da sociedade carioca do século XIX, movida por interesse e aparência.
Os aproveitadores: Freitas e Palha
Rubião se torna alvo de dois tipos de aproveitadores. Freitas é um homem falido que se aproxima dele por puro interesse financeiro, mas que esconde, por trás de uma máscara de alegria, uma tristeza profunda, quase autodestrutiva. Sua morte é um dos momentos mais impactantes do romance, e revela a fragilidade da própria posição social que Rubião ocupa entre pessoas que o cercam apenas por conveniência.
Cristiano Palha, por sua vez, é caracterizado como um “bom vivant” sedutor, que prefere a companhia das mulheres à dos homens, considerados por ele “tolos e grosseiros”, e que utiliza sua sedução para tirar vantagens sociais e financeiras de quem o cerca.
A paixão platônica por Sofia
Rubião nutre uma paixão platônica por Sofia, esposa de Cristiano Palha. Em determinado momento, convencido de que ela também nutriria sentimentos por ele, declara-se em pleno jardim da casa dela em Santa Teresa. Sofia se surpreende e consegue se desvencilhar da situação, deixando Rubião desapontado ao não receber nenhuma resposta ou sinal posterior de reciprocidade.
Esse episódio de rejeição marca uma das etapas do processo de deterioração psicológica de Rubião ao longo do romance, que se intensifica em capítulos posteriores, quando ele passa a ter comportamentos cada vez mais erráticos, incluindo invadir a carruagem de Sofia e relatar, obsessivamente, momentos passados que ela já não reconhece com o mesmo significado.
Maria Benedita e Dona Maria Augusta
Rubião conhece também Dona Maria Augusta, senhora viúva que vive com a filha, Maria Benedita, no interior. Essas personagens acrescentam novas camadas à teia social que envolve Rubião, com desdobramentos que exploram ainda mais os interesses e as movimentações sociais em torno de sua fortuna.
A decadência de Rubião
À medida que o romance avança, Rubião mergulha em progressivo desequilíbrio mental, sintoma tanto da fragilidade psicológica pessoal quanto do efeito corrosivo de viver cercado por interesse e hipocrisia, sem os vínculos afetivos genuínos que sua condição anterior, mais simples, talvez lhe garantisse. A jornada de Rubião ilustra, em escala individual, a crítica social mais ampla que Machado de Assis constrói ao longo da obra: dinheiro e status não garantem, por si só, dignidade ou felicidade, e podem, inclusive, acelerar a destruição de quem não está preparado para navegar as convenções e hipocrisias que os cercam.
O que cai na UERJ
Quando Quincas Borba está no programa, as questões costumam explorar:
- A teoria do Humanitismo como paródia crítica de teorias evolucionistas e sua função na construção da crítica social da obra.
- A hipocrisia da sociedade carioca do século XIX, representada pelos aproveitadores que cercam Rubião.
- A decadência psicológica de Rubião, e o que ela revela sobre a fragilidade da ascensão social sem preparo ou vínculos genuínos.
- A intertextualidade com Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra em que Quincas Borba e sua filosofia já haviam aparecido.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A teoria do Humanitismo, criada pelo personagem Quincas Borba, funciona na obra como:
a) uma filosofia apresentada como verdade absoluta a ser aceita pelo leitor. b) uma paródia crítica de teorias evolucionistas, usada como lente para expor a lógica de interesse que rege as relações sociais retratadas. c) um sistema religioso alternativo praticado pelos personagens. d) uma teoria puramente cômica, sem qualquer função crítica. e) uma defesa da igualdade social entre os personagens.
Gabarito: b
Comentário: O Humanitismo, com sua síntese irônica “ao vencedor, as batatas”, parodia teorias evolucionistas e positivistas em voga na época, reduzindo a existência humana a uma disputa constante por vantagem. Machado de Assis usa essa filosofia inventada como instrumento crítico para expor a lógica de interesse e hipocrisia que efetivamente rege as relações sociais representadas ao longo do romance, e não como doutrina a ser endossada.
Questão 2 (Estilo UERJ)
A relação de Freitas e Cristiano Palha com Rubião ao longo do romance ilustra, sobretudo:
a) amizades genuínas e desinteressadas, movidas por afeto sincero. b) o interesse e a hipocrisia que caracterizam a sociedade carioca representada na obra. c) uma crítica exclusiva à pobreza, sem relação com a riqueza de Rubião. d) a ausência total de conflito social no romance. e) a defesa do isolamento social como única forma de proteção.
Gabarito: b
Comentário: Tanto Freitas, que se aproxima por interesse financeiro escondendo uma tristeza profunda, quanto Cristiano Palha, sedutor que tira vantagens de suas relações sociais, exemplificam o retrato crítico que Machado de Assis constrói de uma sociedade movida por conveniência e aparência, em que a fortuna recém-adquirida de Rubião o torna alvo de interesses alheios disfarçados de amizade.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A progressiva deterioração mental de Rubião ao longo do romance pode ser interpretada como:
a) consequência exclusiva de fatores biológicos sem relação com o contexto social. b) resultado, entre outros fatores, do efeito corrosivo de viver cercado por interesse e hipocrisia, sem vínculos afetivos genuínos. c) prova de que a riqueza garante automaticamente felicidade e estabilidade. d) elemento irrelevante para a interpretação crítica da obra. e) situação resolvida satisfatoriamente ao final do romance.
Gabarito: b
Comentário: A decadência psicológica de Rubião funciona, na construção machadiana, como ilustração da crítica social mais ampla da obra: a riqueza e o status social não garantem, por si só, dignidade ou bem-estar, podendo inclusive acelerar a destruição de quem, despreparado para as convenções e hipocrisias da elite carioca, não encontra vínculos afetivos genuínos em sua nova condição social.
Revisão rápida
- Quincas Borba foi publicado em 1891, originalmente em formato de folhetim.
- A obra retoma a teoria do Humanitismo, já apresentada em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
- Rubião, herdeiro de uma fortuna, torna-se alvo de aproveitadores como Freitas e Cristiano Palha.
- Sua paixão platônica por Sofia termina em rejeição, intensificando sua decadência psicológica.
- O Humanitismo funciona como paródia crítica, e não como filosofia a ser aceita.
- A obra critica a hipocrisia e o interesse que regem a sociedade carioca do século XIX.
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