A banca da UERJ tem tradição de propor temas reflexivos e delicados: violência, desigualdade, dignidade, questões que dividem opiniões. E a reação mais comum do candidato é tentar não se comprometer.
Esse é exatamente o erro. Neste post você vai encontrar cinco passos para abordar um tema polêmico sem perder a nota.
Passo 1: saia de cima do muro
Diante de um tema controverso, existe a tentação de apresentar os dois lados e não concluir nada. Parece prudente. Não é.
Uma dissertação argumentativa exige tese. Sem posicionamento, não há o que argumentar, e o texto vira exposição. A banca avalia justamente a defesa consistente de um ponto de vista.
Você pode reconhecer a complexidade do tema e ainda assim se posicionar. Aliás, é isso que se espera: reconhecer a complexidade e tomar posição diante dela.
Passo 2: identifique o que é polêmico
Antes de escrever, pergunte: onde exatamente está a divergência?
Em temas polêmicos, o desacordo raramente é sobre o problema em si. Quase ninguém defende a violência ou a desigualdade. A divergência está nas causas, nas soluções ou na hierarquia de valores.
Localizar o ponto exato do desacordo é o que permite construir um argumento que dialogue com a controvérsia real, em vez de combater posições que ninguém defende.
Passo 3: sustente com argumento, não com emoção
Temas polêmicos mobilizam sentimentos, e é fácil escorregar para o apelo emocional.
Mas o texto dissertativo exige argumentação, que apela à razão, e não persuasão, que apela à emoção. Um parágrafo indignado não é um parágrafo argumentado.
Sustente com:
- Dados e evidências.
- Encadeamento lógico de causa e consequência.
- Repertório histórico, literário ou científico.
- Exemplos concretos que ilustrem o raciocínio.
A indignação pode estar no texto, mas precisa vir acompanhada de demonstração.
Passo 4: reconheça o contra-argumento
Este é o passo que separa o texto bom do texto muito bom.
Reconhecer a posição contrária e responder a ela demonstra maturidade argumentativa. Você mostra que conhece o debate e que sua tese não se sustenta por ignorar objeções.
A estrutura é simples:
“Argumenta-se frequentemente que [posição contrária]. No entanto, [sua resposta], porque [sustentação].”
O que não funciona é apresentar o contra-argumento e não respondê-lo: isso enfraquece o próprio texto.
Passo 5: respeite os direitos humanos
Este passo é inegociável, e não apenas por exigência de grade.
Em temas que envolvem grupos vulneráveis, propostas ou argumentos que violem a dignidade humana são inaceitáveis. No ENEM, isso zera a competência da proposta de intervenção. Na UERJ, compromete a avaliação do ponto de vista.
Mas a razão é anterior à regra: há coerência lógica em jogo. Se o problema discutido fere a dignidade de alguém, uma solução que a fira também não resolve nada, apenas desloca a violação.
Isso não significa evitar posições impopulares. Significa que qualquer posição precisa ser defendida sem desumanizar ninguém.
O que cai na UERJ
Vale repetir o que essa prova especificamente procura em temas polêmicos:
- Posicionamento claro, não o meio-termo confortável.
- Marcas de autoria: a sua leitura do tema, não o senso comum sobre ele.
- Repertório incorporado, e não citações encaixadas para parecer erudito.
- Reflexão, porque a banca tem tradição de propor temas que exigem pensar, não repetir.
Um texto que apresenta os dois lados e conclui que “é preciso equilíbrio” diz muito pouco. E o corretor lê centenas deles.
Um roteiro de aplicação
- Leia o enunciado e localize o recorte.
- Identifique onde está a divergência real.
- Escolha um lado e escreva a tese em uma frase.
- Liste dois argumentos que a sustentem, com evidências.
- Antecipe o contra-argumento mais forte e responda a ele.
- Verifique se nenhuma passagem viola a dignidade de qualquer grupo.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Diante de um tema polêmico, o candidato que apresenta os dois lados da questão sem defender nenhum deles:
a) demonstra imparcialidade, o que é valorizado na correção. b) compromete a avaliação, pois a dissertação argumentativa exige defesa de um ponto de vista. c) atende ao critério de repertório sociocultural. d) garante pontuação máxima no eixo de projeto de texto. e) produz um texto expositivo, plenamente adequado à proposta.
Gabarito: b
Comentário: A proposta pede texto dissertativo-argumentativo, e argumentar pressupõe sustentar uma posição. Sem tese, o texto se limita a expor perspectivas alheias, o que não atende ao gênero solicitado. A alternativa e reconhece corretamente a natureza expositiva do resultado, mas erra ao considerá-la adequada, já que o gênero exigido é outro.
Questão 2 (Estilo UERJ)
O reconhecimento do contra-argumento em uma redação sobre tema polêmico:
a) enfraquece a tese, pois dá espaço à posição adversária. b) demonstra maturidade argumentativa, desde que seja acompanhado de resposta. c) deve ser evitado, pois confunde o corretor. d) substitui a necessidade de apresentar argumentos próprios. e) só é adequado na conclusão do texto.
Gabarito: b
Comentário: Antecipar a objeção mais forte e respondê-la evidencia domínio do debate e torna a tese mais robusta, pois ela não se sustenta apenas por ignorar posições contrárias. A ressalva da alternativa é essencial: apresentar o contra-argumento sem refutá-lo produz o efeito oposto, deixando a objeção em aberto e enfraquecendo o próprio texto.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A exigência de respeito aos direitos humanos em redações sobre temas polêmicos justifica-se porque:
a) trata-se de formalidade das grades de correção. b) impede que o candidato assuma posições impopulares. c) uma solução que viola a dignidade humana não resolve um problema que a fere, apenas desloca a violação. d) os temas propostos versam sempre sobre direitos humanos. e) elimina a necessidade de posicionamento no texto.
Gabarito: c
Comentário: Há coerência lógica anterior ao critério formal: os temas costumam envolver situações que atingem a dignidade de determinados grupos, e propor solução que a viole reproduz o problema em outro lugar. A alternativa b interpreta mal a exigência, pois posições impopulares continuam admissíveis, desde que defendidas sem desumanizar qualquer grupo.
Revisão rápida
- Em tema polêmico, saia de cima do muro: sem tese não há dissertação argumentativa.
- Identifique onde está a divergência real, que raramente é sobre o problema em si.
- Sustente com argumento e evidência, não com apelo emocional.
- Reconheça o contra-argumento e responda a ele: isso fortalece a tese.
- Respeite os direitos humanos, por coerência lógica antes de por exigência formal.
- A UERJ valoriza posicionamento claro e leitura própria, não o meio-termo confortável.
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