Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é leitura obrigatória para a prova de qualificação da UERJ. Neste post você vai encontrar o resumo da obra, organizada em seus três ciclos, e as chaves de leitura mais exploradas em prova.
Lima Barreto e o Pré-Modernismo
Lima Barreto é um dos nomes centrais do Pré-Modernismo, período de transição entre o século XIX e o século XX que antecede a Semana de Arte Moderna de 1922. O contexto histórico é fundamental para compreender a obra: a queda do Império, a Proclamação da República, a insatisfação de setores do Exército e dos positivistas, e conflitos como a Guerra de Canudos marcam um Brasil em transformação, permeado por promessas republicanas que, na prática, mantinham privilégios, bajulação e oportunismo.
Triste Fim de Policarpo Quaresma foi publicado originalmente em formato de folhetim, em 1911, no Jornal do Comércio, sendo o próprio Lima Barreto responsável por bancar boa parte da publicação em livro, com ajuda de amigos. Lima Barreto é um escritor do subúrbio carioca, que conhece de perto a classe média suburbana e a retrata com precisão e ironia ao longo de toda a obra.
A estrutura em três ciclos
O romance se organiza em três partes, cada uma com cinco capítulos, que correspondem a três ciclos distintos na trajetória do protagonista: o ciclo urbano, no Rio de Janeiro; o ciclo rural, no interior, na fazenda batizada de Sossego; e o ciclo militar, marcado pela participação de Policarpo na Revolta da Armada contra o governo de Floriano Peixoto.
O protagonista: um Dom Quixote brasileiro
Policarpo Quaresma, apesar do título de major, é um funcionário público que trabalha no Arsenal de Guerra da Marinha, homem de hábitos regrados havia trinta anos, que vive isolado no subúrbio na companhia da irmã, Dona Adelaide. A crítica já aproximou o personagem de Dom Quixote: um sonhador idealista, movido por um nacionalismo sincero e ingênuo, cuja loucura aparente talvez revele, na verdade, a hipocrisia e o preconceito de uma sociedade incapaz de acolher quem age de boa-fé.
O primeiro capítulo, “A Lição de Violão”, já introduz esse nacionalismo levado ao extremo: Policarpo defende com fervor os costumes e a cultura nacionais, incluindo a modinha brasileira tocada ao violão, num retrato inicial de sua obsessão por tudo que considera genuinamente pátrio.
O ciclo urbano: o nacionalismo levado ao absurdo
Na primeira parte, ambientada no Rio de Janeiro da Primeira República, Policarpo convive com uma galeria de personagens movidos por interesse e conveniência, como o major Albernaz, pai de várias filhas, sempre em busca de um “pistolão” para arranjar casamentos e cargos vantajosos para a família. Nesse contexto, o nacionalismo de Policarpo se manifesta em atitudes cada vez mais radicais, como a defesa de que o tupi-guarani deveria substituir o português como língua nacional, argumento que expõe tanto sua sinceridade idealista quanto sua desconexão com a realidade concreta do país. Esse excesso de idealismo acaba levando à sua internação, marcando o fim do primeiro ciclo.
O ciclo rural: a utopia agrícola na fazenda Sossego
Na segunda parte, já fora da internação, Policarpo se muda para o interior, para uma propriedade batizada ironicamente de Sossego, decidido a colocar em prática seu ideal de que o Brasil deveria prosperar através da agricultura nacional. A ironia do nome é proposital: no sítio, Policarpo encontra apenas trabalho excessivo, percepção crescente da injustiça social do campo e sucessivas frustrações com a realidade agrícola, muito distante da imagem idealizada que fazia do Brasil rural.
Nessa etapa, casamentos por conveniência, como o de Olga, seguem funcionando como retrato da hipocrisia social: maridos que se casam mais interessados nas vantagens financeiras e sociais do enlace do que em qualquer afeto genuíno pela esposa. O ciclo se encerra com Policarpo enviando um telegrama ao presidente Floriano Peixoto, oferecendo-se para lutar contra a Revolta da Armada, decisão que o leva de volta ao Rio de Janeiro e abre o terceiro e último ciclo da obra.
O ciclo militar: patriotismo, guerra e desilusão
A terceira parte, iniciada com o capítulo intitulado, de forma irônica, “Patriotas”, acompanha o envolvimento de Policarpo na defesa do governo de Floriano Peixoto. O título é provocativo: Lima Barreto usa a narrativa para denunciar como a recém-instaurada república, sustentada pelos militares, está cercada de bajuladores e oportunistas interessados apenas no poder, sem qualquer compromisso genuíno com o país. A figura do próprio Floriano é descrita de forma cruel, como um homem rude e incompetente, símbolo do fracasso do projeto republicano idealizado.
Ao longo dessa parte, Policarpo testemunha a crueldade e os absurdos cometidos durante a repressão à revolta, incluindo mortes de brasileiros inocentes. Indignado, escreve uma carta direta ao próprio Floriano, questionando se o marechal sabia dos absurdos praticados em seu nome e defendendo que uma pátria não pode aceitar impunemente a morte de seus próprios filhos. Esse gesto de coragem e sinceridade, no entanto, não é bem recebido: o regime não tolera quem questiona abertamente suas práticas, por mais patriótica que seja a intenção.
O desfecho trágico
O capítulo final, intitulado “A Afilhada” em referência a Olga, sua afilhada, fecha a obra com o desfecho mais sombrio da trajetória de Policarpo: depois de denunciar os absurdos da repressão governamental em sua carta a Floriano, ele é preso e, ao final, fuzilado por ordem do próprio governo que um dia serviu com devoção patriótica. O título do romance se justifica plenamente nesse capítulo final: o “triste fim” é literal, e a morte de Policarpo simboliza a incompatibilidade entre o idealismo sincero e um sistema político movido por interesse, oportunismo e intolerância a qualquer forma de crítica.
A crítica de Lima Barreto
O percurso de Policarpo Quaresma, do nacionalismo linguístico exagerado à utopia agrícola frustrada e, finalmente, à morte por fuzilamento nas mãos do próprio Estado que defendia, constrói uma crítica contundente à Primeira República brasileira: um regime que se apresentava como moderno e patriótico, mas que, na prática, perseguia e eliminava justamente os cidadãos mais sinceramente comprometidos com o bem público, enquanto recompensava bajuladores e oportunistas.
O que cai na UERJ
Quando Triste Fim de Policarpo Quaresma está no programa, as questões costumam explorar:
- O contexto histórico da Primeira República, indispensável para compreender a crítica construída pela obra.
- A estrutura em três ciclos, urbano, rural e militar, e a evolução do fracasso de Policarpo em cada um deles.
- O nacionalismo ingênuo do protagonista, e sua aproximação com a figura de Dom Quixote.
- A ironia dos títulos de capítulo, como “Sossego” e “Patriotas”, que contrastam com o conteúdo efetivamente narrado.
- O desfecho trágico, e o que ele revela sobre a intolerância do poder político à crítica sincera.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
A aproximação crítica entre Policarpo Quaresma e a figura de Dom Quixote se justifica, sobretudo, porque ambos:
a) são personagens cômicos sem qualquer dimensão trágica. b) são sonhadores idealistas cuja aparente loucura pode revelar, na verdade, a hipocrisia e o preconceito da sociedade que os cerca. c) representam a defesa incondicional do sistema político vigente em suas respectivas obras. d) alcançam êxito completo em todos os projetos que idealizam. e) são personagens secundários sem relevância para o enredo central.
Gabarito: b
Comentário: Tanto Policarpo quanto Dom Quixote são movidos por idealismo sincero que os coloca em choque constante com a realidade prática e com o julgamento de uma sociedade movida por interesse e conveniência. Em ambos os casos, a aparente loucura do protagonista funciona como espelho que expõe a hipocrisia e a intolerância do mundo ao seu redor.
Questão 2 (Estilo UERJ)
O nome irônico dado à fazenda de Policarpo Quaresma no interior, “Sossego”, relaciona-se ao fato de que, nesse ciclo da narrativa, o protagonista:
a) finalmente encontra a paz e o descanso que buscava. b) enfrenta trabalho excessivo, frustração e a percepção crescente da injustiça social do campo, em contraste direto com o nome do sítio. c) abandona definitivamente qualquer projeto relacionado à agricultura nacional. d) recebe apoio unânime da comunidade rural para seus projetos. e) é imediatamente bem-sucedido em sua utopia agrícola.
Gabarito: b
Comentário: O nome “Sossego” contrasta ironicamente com a experiência vivida por Policarpo no sítio, marcada por trabalho exaustivo e sucessivas frustrações diante da realidade agrícola brasileira, muito distante da imagem idealizada que ele fazia do campo como solução para o progresso nacional.
Questão 3 (Estilo UERJ)
O desfecho trágico de Policarpo Quaresma, fuzilado após denunciar os absurdos cometidos pelo governo de Floriano Peixoto durante a repressão à Revolta da Armada, evidencia, sobretudo:
a) a recompensa do Estado aos cidadãos que o defendem com sinceridade e coragem. b) a incompatibilidade entre o idealismo sincero do protagonista e um sistema político que não tolera a crítica, mesmo quando movida por patriotismo genuíno. c) um final feliz que encerra positivamente a trajetória do personagem. d) a ausência de qualquer crítica social na obra de Lima Barreto. e) a vitória definitiva dos ideais nacionalistas de Policarpo.
Gabarito: b
Comentário: Ao ser fuzilado justamente por questionar, em carta direta, os absurdos cometidos pelo governo que um dia defendeu com devoção, Policarpo revela a incompatibilidade entre o idealismo sincero e um sistema movido por interesse e intolerância à crítica. O desfecho sintetiza a denúncia de Lima Barreto à hipocrisia da Primeira República brasileira.
Revisão rápida
- Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é obra central do Pré-Modernismo brasileiro.
- A narrativa se organiza em três ciclos: urbano, rural e militar.
- No ciclo urbano, Policarpo defende, entre outras ideias, a adoção do tupi-guarani como língua nacional.
- No ciclo rural, sua utopia agrícola na fazenda Sossego termina em frustração.
- No ciclo militar, ele se envolve na defesa do governo de Floriano Peixoto contra a Revolta da Armada.
- A obra termina com o fuzilamento de Policarpo, após ele denunciar os absurdos da repressão governamental.
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