Colocação pronominal é o estudo da posição do pronome oblíquo átono em relação ao verbo. São três posições possíveis, e cada uma tem um nome.
O conteúdo parece decoreba, mas na prática se resume a uma pergunta: há palavra atrativa antes do verbo? Se há, próclise. Se não há, o resto se resolve. Neste post você vai aprender a lista dos atratores e os casos particulares.
Os pronomes envolvidos
São os oblíquos átonos: me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes.
Eles são átonos, ou seja, não têm acento próprio e se apoiam foneticamente no verbo. Daí a necessidade de regras de posicionamento.
As três posições
| Posição | Nome | Exemplo |
|---|---|---|
| antes do verbo | próclise | ”Não me disseram.” |
| no meio do verbo | mesóclise | ”Dir-me-ão a verdade.” |
| depois do verbo | ênclise | ”Disseram-me a verdade.” |
Próclise: a regra das palavras atrativas
A próclise é obrigatória quando existe, antes do verbo, uma palavra atrativa. São seis grupos:
1. Palavras de sentido negativo
não, nunca, jamais, nada, ninguém, nenhum
- “Não me disseram nada.”
- “Ninguém se manifestou.”
2. Advérbios
aqui, ali, sempre, talvez, bem, mal, ainda, agora
- “Aqui me ajudam sempre.”
- “Talvez se resolva amanhã.”
Atenção: se houver vírgula depois do advérbio, a atração se desfaz. “Aqui, ajudam-me sempre.”
3. Pronomes relativos
que, quem, o qual, cujo, onde
- “A casa que me abriga é boa.”
- “O amigo a quem se dirigiu não respondeu.”
4. Pronomes indefinidos
alguém, tudo, todos, poucos, muitos, outro
- “Alguém me avisou.”
- “Tudo se resolve com calma.”
5. Pronomes demonstrativos
isto, isso, aquilo, este, esse, aquele
- “Isso me preocupa.”
6. Conjunções subordinativas
que, quando, se, embora, porque, conforme, como
- “É bom que se diga a verdade.”
- “Quando me chamarem, irei.”
E mais dois casos
Frases exclamativas e optativas (que expressam desejo):
- “Deus te abençoe!”
Orações com em + gerúndio:
- “Em se tratando de gramática, ele é rigoroso.”
Mesóclise: só com futuro
A mesóclise ocorre exclusivamente com verbos no futuro do presente e no futuro do pretérito, e apenas quando não houver palavra atrativa.
- “Dir-me-ão a verdade.” (futuro do presente)
- “Dir-me-iam a verdade.” (futuro do pretérito)
Se houver atrator, a próclise prevalece:
- “Não me dirão a verdade.” (não “não dir-me-ão”)
Na fala cotidiana a mesóclise praticamente desapareceu, mas ela permanece exigida pela norma culta em contexto formal escrito, e é justamente por isso que aparece em prova.
Ênclise: o caso padrão
A ênclise é a colocação natural do português quando nada atrai o pronome.
Ela é obrigatória em duas situações:
1. Verbo iniciando a oração. Nunca se começa frase com pronome oblíquo átono na norma culta.
- Correto: “Disseram-me a verdade.”
- Errado na escrita formal: “Me disseram a verdade.”
Vale registrar: iniciar frase com pronome é absolutamente corrente na fala brasileira e não constitui erro de comunicação. É inadequação ao registro formal escrito, e é isso que a prova cobra.
2. Verbo no imperativo afirmativo.
- “Diga-me a verdade.”
Locuções verbais
Com duas formas verbais, as possibilidades se ampliam:
- Auxiliar + infinitivo ou gerúndio: o pronome pode vir antes do auxiliar, depois do auxiliar ou depois do principal.
- “Vou lhe dizer.” / “Vou dizer-lhe.” / “Vou-lhe dizer.”
- Auxiliar + particípio: o pronome não pode vir depois do particípio.
- Correto: “Tinha-me dito.” / “Me tinha dito.”
- Errado: “Tinha dito-me.”
Havendo palavra atrativa, a próclise ao auxiliar é a escolha segura.
O que cai na UERJ
O tema aparece de duas formas:
- Na correção da redação. A próclise em início de frase é o desvio mais comum, e o mais facilmente identificado pelo corretor.
- Em questões de adequação linguística. A banca apresenta uma construção coloquial e pergunta pela versão formal, ou explora o contraste entre norma padrão e uso real como tema de variação linguística.
Esse segundo ponto é interessante: a colocação pronominal é um dos conteúdos em que a distância entre a norma padrão e o português brasileiro falado é maior. Reconhecer essa distância é parte do que a prova avalia.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa em que a colocação pronominal está de acordo com a norma culta:
a) “Me disseram que a prova foi adiada.” b) “Não disseram-me que a prova foi adiada.” c) “Ninguém me avisou sobre a mudança.” d) “Quando chamarem-me, eu irei.” e) “Tudo resolveu-se rapidamente.”
Gabarito: c
Comentário: Em c, o pronome indefinido ninguém funciona como palavra atrativa e exige próclise, o que foi corretamente observado. Em a, o pronome inicia a oração, o que a norma culta não admite. Em b, d e e, há palavras atrativas antes do verbo, respectivamente a negação não, a conjunção quando e o indefinido tudo, todas exigindo próclise em lugar da ênclise empregada.
Questão 2 (Estilo UERJ)
A mesóclise é empregada corretamente em:
a) “Não dir-me-ão a verdade.” b) “Dir-me-ão a verdade quando for possível.” c) “Que dir-me-iam eles sobre isso?” d) “Ontem dir-me-ão o resultado.” e) “Ninguém contar-me-á o ocorrido.”
Gabarito: b
Comentário: A mesóclise exige verbo no futuro do presente ou do pretérito e ausência de palavra atrativa antes dele, condições atendidas apenas em b. Nas alternativas a, c e e, há atratores, respectivamente a negação, a conjunção e o pronome indefinido, que impõem próclise. Em d, o advérbio “ontem” também atrai o pronome, além de o tempo verbal ser incompatível com a referência temporal.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Sobre a construção “Me empresta a caneta”, frequente na fala dos brasileiros, é correto afirmar que:
a) constitui erro de comunicação, pois compromete o entendimento. b) é inadequada ao registro formal escrito, embora corrente e plenamente compreensível na fala. c) está de acordo com a norma padrão, que admite próclise em início de oração. d) caracteriza uso exclusivo de falantes com baixa escolaridade. e) deve ser evitada em qualquer situação comunicativa.
Gabarito: b
Comentário: A norma padrão não admite pronome oblíquo átono iniciando oração, o que torna a construção inadequada em contextos formais escritos, como a redação de vestibular. Isso não a torna erro de comunicação: o enunciado é perfeitamente compreensível e a construção é usada por falantes de todos os níveis de escolaridade na modalidade oral, o que afasta as alternativas a e d. Trata-se de questão de adequação ao registro.
Revisão rápida
- Colocação pronominal é a posição do pronome oblíquo átono em relação ao verbo.
- Próclise é antes, mesóclise é no meio e ênclise é depois do verbo.
- Próclise é obrigatória com palavras atrativas: negativas, advérbios, relativos, indefinidos, demonstrativos e conjunções subordinativas.
- Mesóclise ocorre só nos futuros e apenas quando não há atrator.
- Ênclise é obrigatória quando o verbo inicia a oração e no imperativo afirmativo.
- Com particípio, o pronome nunca vem depois do verbo principal.
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