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Como Desenvolver uma Redação: os parágrafos do meio

Como desenvolver uma redação com argumentos que sustentam a tese. Tópico frasal, tipos de abordagem e o uso de repertório sem cair na decoreba de citações.

Capa do artigo: Como Desenvolver uma Redação: os parágrafos do meio

Depois de contextualizar o tema e apresentar a tese, começa a parte que mais gente considera difícil: o desenvolvimento. É aqui que a redação se sustenta ou desaba, porque é aqui que você precisa convencer.

O desenvolvimento é o recheio do texto: os dois parágrafos em que você mostra ao leitor por que a sua tese é válida. Neste post você vai aprender a estruturar cada parágrafo e a escolher a abordagem certa para cada tema.

A arquitetura de um parágrafo de desenvolvimento

Todo parágrafo argumentativo bem construído tem três partes:

1. Tópico frasal

A ideia central do parágrafo, formulada em uma frase, logo no início. Ele anuncia o argumento que virá.

“A ausência de políticas de permanência escolar é o principal fator por trás da evasão no ensino médio.”

O tópico frasal cumpre uma função dupla: organiza o seu raciocínio e orienta o corretor sobre o que esperar do parágrafo.

2. Sustentação

O argumento propriamente dito. É aqui que entram dados, exemplos, referências, comparações e o encadeamento lógico que dá peso à afirmação.

3. Fechamento

Uma frase que retoma a tese, mostrando como aquele argumento a sustenta. Ela impede que o parágrafo fique solto no texto.

Se um parágrafo do seu desenvolvimento não tem essas três partes, provavelmente ele está apenas afirmando algo, sem argumentar.

Tipos de abordagem argumentativa

A escolha da abordagem depende do tema. Estas cinco cobrem quase tudo:

Passado e presente

Contrapõe dois momentos para mostrar permanência ou transformação.

Funciona bem para temas como corrupção, papel da mulher, estrutura familiar, trabalho. Mostrar que a corrupção não começou hoje e apontar o que mudou na sua forma de operar é um argumento consistente.

Causa e consequência

Um parágrafo pode apresentar as causas no tópico frasal e desdobrar as consequências na sustentação, ou dedicar um parágrafo a cada.

Comparação

Confronta duas realidades, dois países, dois grupos sociais, duas políticas. A comparação evidencia o que estava implícito.

Exemplificação

Parte do geral para o particular, usando um caso concreto que ilustre a afirmação. O cuidado é que o exemplo sustente o argumento, e não o substitua.

Autoridade

Recorre a uma referência reconhecida: um pensador, um dado de pesquisa, uma obra literária, um episódio histórico. Aqui mora a maior armadilha do desenvolvimento, tratada no tópico seguinte.

Repertório: use o seu, não o emprestado

Esta é a orientação mais insistente do Prof. Monteiro sobre desenvolvimento, e vale repetir com todas as letras: não decore frases de filósofos.

O aluno que memoriza três citações de Bauman, duas de Foucault e uma de Kant e tenta encaixá-las em qualquer tema produz um texto artificial. A citação fica solta, não sustenta nada, e o corretor percebe.

O caminho é o oposto:

  • Gosta de história? Use história. Faça o recorte histórico do tema.
  • Gosta de biologia ou geografia? Use. Muitos temas sociais têm dimensão ambiental, demográfica, territorial.
  • É cinéfilo? Use cinema. Um filme que dialoga com o tema é repertório legítimo.
  • Lê literatura? Use. Na UERJ, a obra adotada é fonte natural de reflexão.
  • Acompanha atualidades? Use dados e episódios recentes.

Repertório vale quando é seu e quando dialoga de fato com a tese. Um argumento bem construído a partir de algo que você domina vale mais do que uma citação célebre encaixada à força.

Erros que enfraquecem o desenvolvimento

  • Parágrafo que só repete a tese. Reformular a introdução com outras palavras não é argumentar. O texto não progride.
  • Dois parágrafos com o mesmo argumento. Cada parágrafo precisa atacar a tese por um ângulo distinto.
  • Argumento sem sustentação. Afirmar que algo é grave sem mostrar por quê.
  • Exemplo no lugar do argumento. O exemplo ilustra; ele não substitui o raciocínio.
  • Senso comum. Repetir o que todo mundo diz sobre o tema é o oposto de autoria.
  • Parágrafo desconectado da tese. Interessante em si, mas que não apoia o que você defende.

Como saber se o argumento é bom

Três perguntas rápidas resolvem:

  1. Este parágrafo sustenta a minha tese? Se a resposta for “mais ou menos”, reescreva.
  2. Ele acrescenta algo que o outro parágrafo não disse? Se não, você tem um argumento só.
  3. Alguém poderia discordar disso? Se a afirmação é óbvia demais para ser contestada, provavelmente é senso comum.

O que cai na UERJ

Na UERJ, o desenvolvimento é onde a autoria mais se manifesta. Dois candidatos podem defender a mesma tese e receber notas muito diferentes conforme a consistência e a originalidade da sustentação.

A obra literária adotada pela banca é aliada aqui. Não para ser resumida, mas para alimentar a reflexão: os dilemas, as personagens e as situações do livro fornecem material de argumentação que outros candidatos, que não leram, simplesmente não têm.

Aula completa no YouTube

Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:

Questões comentadas

Questão 1 (Estilo UERJ)

O tópico frasal, em um parágrafo de desenvolvimento, tem a função de:

a) retomar integralmente a tese apresentada na introdução. b) anunciar, em uma frase, a ideia central que o parágrafo desenvolverá. c) apresentar a proposta de solução para o problema discutido. d) introduzir uma citação de autoridade. e) estabelecer a conexão entre o último parágrafo e a conclusão.

Gabarito: b

Comentário: O tópico frasal condensa em uma frase o argumento que será desenvolvido no parágrafo, orientando tanto a organização do raciocínio quanto a leitura do corretor. A alternativa a descreve uma falha comum: repetir a tese em vez de apresentar argumento novo compromete a progressão do texto. A alternativa c refere-se à conclusão, e apenas em provas que exigem proposta de intervenção.


Questão 2 (Estilo UERJ)

Um candidato memoriza cinco citações de pensadores consagrados e as insere em todas as suas redações, independentemente do tema. Essa prática tende a:

a) garantir pontuação máxima no critério de repertório. b) demonstrar amplo domínio de cultura geral. c) produzir citações desconectadas da tese, comprometendo a argumentação e as marcas de autoria. d) ser neutra, sem impacto sobre a nota. e) substituir com vantagem a necessidade de argumentação própria.

Gabarito: c

Comentário: O repertório só cumpre função argumentativa quando dialoga com a tese defendida e se integra ao raciocínio. Citações encaixadas de modo mecânico ficam soltas no texto, não sustentam a argumentação e revelam ao corretor o uso de fórmula pronta. Em bancas que valorizam marcas de autoria, como a da UERJ, o efeito é duplamente negativo, pois evidencia a ausência de olhar próprio sobre o tema.


Questão 3 (Estilo UERJ)

Assinale a alternativa que caracteriza corretamente uma falha de progressão argumentativa:

a) o segundo parágrafo de desenvolvimento apresenta um argumento distinto do primeiro. b) cada parágrafo inicia com tópico frasal próprio. c) os dois parágrafos de desenvolvimento sustentam a tese por ângulos diferentes. d) o segundo parágrafo reformula, com outras palavras, o argumento já apresentado no primeiro. e) o parágrafo encerra retomando a tese defendida.

Gabarito: d

Comentário: A progressão exige que o texto avance a cada parágrafo, acrescentando sustentação nova. Quando o segundo parágrafo apenas reformula o primeiro, o leitor não recebe informação adicional e a tese permanece apoiada em um único argumento. As alternativas a, b, c e e descrevem, todas, características de um desenvolvimento bem construído.

Revisão rápida

  • Cada parágrafo de desenvolvimento tem tópico frasal, sustentação e fechamento.
  • Os dois parágrafos precisam sustentar a tese por ângulos distintos.
  • Cinco abordagens funcionam bem: passado e presente, causa e consequência, comparação, exemplificação e autoridade.
  • Use o repertório que é seu, não citações decoradas e encaixadas à força.
  • Argumento sem sustentação e senso comum são as falhas mais frequentes.
  • Na UERJ, a obra literária alimenta a argumentação, mas nunca deve ser resumida.

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