O momento mais decisivo da redação acontece antes de você escrever a primeira palavra. Planejar exige disciplina, mas é o que separa o texto que se sustenta do texto que muda de rumo no meio.
Cinco minutos de rascunho resolvem a maior parte dos problemas de estrutura. Neste post você vai encontrar o método.
Ponto de partida: entender o recorte
Antes de planejar qualquer coisa, leia o enunciado duas vezes e sublinhe o recorte.
Repare que o tema quase nunca é apenas um assunto. Ele é um assunto com delimitação:
- Não é “violência contra a mulher”: é a persistência dessa violência.
- Não é “miséria”: é a desumanização provocada por ela.
- Não é “educação”: é a evasão no ensino médio.
A palavra que delimita é a que orienta o texto inteiro. Ignorá-la é tangenciar o tema, e tangenciamento derruba nota.
O método das causas e consequências
Este é o caminho mais prático para gerar conteúdo, e vale para praticamente qualquer tema social.
Pergunte, no rascunho:
1. Quais são as causas?
Os problemas sociais brasileiros costumam ter causas em três camadas:
- Históricas: desigualdades estruturais, heranças que nunca foram enfrentadas.
- Institucionais: ausência ou falha de políticas públicas.
- Culturais: valores e comportamentos que sustentam a situação.
Vale um alerta que o Prof. Monteiro costuma fazer: existe uma explicação preguiçosa que atribui tudo à falta de recursos. Ela raramente se sustenta. Se um problema persiste apesar de recursos existirem, é porque há interesses na sua permanência. Reconhecer isso rende argumento muito mais consistente.
2. Quais são as consequências?
O que o problema produz, para quem, e com que gravidade.
3. O que sustenta a permanência?
Esta é a pergunta que responde aos recortes com “persistência”, “manutenção” e “permanência”, e é a mais esquecida.
O roteiro do rascunho
Cinco minutos, quatro linhas:
- Tese: o que eu defendo, em uma frase.
- Argumento 1: primeira sustentação, em uma frase.
- Argumento 2: segunda sustentação, por outro ângulo, em uma frase.
- Conclusão: como fecho.
Só isso. Não é preciso escrever parágrafos no rascunho: é preciso ter a arquitetura.
Duas verificações antes de passar a limpo:
- Os dois argumentos são diferentes entre si, ou o segundo repete o primeiro?
- Os dois sustentam a tese, ou apenas falam do assunto?
Se a resposta a qualquer uma delas for insatisfatória, refaça o rascunho. Ainda dá tempo.
Escolha a abordagem
Definida a tese, escolha por qual caminho conduzir a argumentação:
| Abordagem | Quando funciona |
|---|---|
| Histórica | o problema tem raiz antiga |
| Causa e consequência | há relação clara de efeito |
| Comparativa | há dois casos ou dois momentos a confrontar |
| Conceitual | o termo central do tema precisa ser delimitado |
A escolha consciente da abordagem é o que garante que os parágrafos tenham funções distintas, e não sejam intercambiáveis.
Divisão do tempo
Uma sugestão de distribuição, para uma prova com cerca de uma hora dedicada à redação:
- 5 minutos: ler o enunciado e a coletânea, sublinhar o recorte.
- 5 minutos: rascunho da tese e dos argumentos.
- 30 minutos: escrever o texto.
- 10 minutos: revisar.
- 10 minutos: passar a limpo.
Os dez minutos de revisão são os mais negligenciados e os que mais rendem: é neles que se pegam erros de concordância, crase e pontuação que custariam pontos.
O que cai na UERJ
O planejamento não é cobrado como conteúdo, mas o seu resultado é avaliado diretamente. A banca examina se existe projeto de texto, ou seja, se o texto foi pensado como um todo.
O que denuncia a ausência de planejamento:
- Parágrafos que poderiam trocar de lugar sem prejuízo.
- Texto que muda de direção no meio.
- Conclusão que abre assunto novo.
- Segundo argumento que repete o primeiro.
Todos esses problemas se resolvem no rascunho, e nenhum se resolve depois que o texto já está escrito na folha definitiva.
Aula completa no YouTube
Assista à aula completa do Prof. Monteiro sobre este tema:
Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Diante de uma proposta sobre “a persistência da desigualdade educacional”, o candidato que planeja adequadamente deve concentrar-se em:
a) descrever o funcionamento do sistema educacional brasileiro. b) explicar por que a desigualdade se mantém, e não apenas que ela existe. c) narrar sua experiência pessoal na escola pública. d) apresentar dados sobre educação em outros países. e) defender que a educação é importante para o país.
Gabarito: b
Comentário: O recorte da proposta está na palavra persistência, que exige explicar os mecanismos que sustentam a manutenção do problema ao longo do tempo. Limitar-se a constatar a existência da desigualdade configura tangenciamento. A alternativa e apresenta afirmação consensual que não constitui tese, pois ninguém a contestaria, e por isso não sustenta um texto argumentativo.
Questão 2 (Estilo UERJ)
No rascunho de uma redação, o candidato escreve dois argumentos que, ao serem comparados, expressam a mesma ideia com formulações distintas. A providência adequada é:
a) manter os dois, pois a repetição reforça a tese. b) reformular um deles para que sustente a tese por um ângulo diferente. c) eliminar o segundo parágrafo de desenvolvimento. d) transformar o segundo argumento em conclusão. e) escrever o texto assim mesmo, corrigindo depois na folha definitiva.
Gabarito: b
Comentário: Cada parágrafo de desenvolvimento deve acrescentar sustentação nova, abordando a tese por perspectiva distinta. Argumentos repetidos comprometem a progressão do texto e revelam ausência de projeto. A alternativa e é especialmente equivocada na prática, pois problemas de arquitetura não se resolvem depois que o texto já foi passado a limpo, e sim no rascunho, quando ainda há tempo.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Sobre a etapa de revisão na produção da redação, é correto afirmar que:
a) é dispensável quando o candidato domina a norma culta. b) deve ocupar a maior parte do tempo disponível. c) é etapa em que se identificam desvios de concordância, crase e pontuação, com impacto direto na nota. d) serve apenas para verificar a contagem de linhas. e) deve ser feita antes da elaboração do rascunho.
Gabarito: c
Comentário: A revisão é a etapa em que se recuperam pontos que seriam perdidos por desvios pontuais e evitáveis, sobretudo nos conteúdos treináveis de norma culta. Ela costuma ser a mais negligenciada e a de melhor retorno. A alternativa a é problemática justamente porque o nervosismo e a pressão de tempo produzem deslizes mesmo em quem domina o conteúdo.
Revisão rápida
- Antes de planejar, leia o enunciado duas vezes e sublinhe o recorte do tema.
- Gere conteúdo perguntando pelas causas históricas, institucionais e culturais.
- Pergunte também o que sustenta a permanência do problema.
- O rascunho tem quatro linhas: tese, argumento 1, argumento 2 e conclusão.
- Verifique se os argumentos são distintos entre si e se sustentam a tese.
- Reserve dez minutos para revisar: é a etapa de melhor retorno.
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