O Humanismo é o período de transição entre o Trovadorismo medieval e o Classicismo renascentista, em Portugal. Se você já domina o que vem antes e o que vem depois, o Humanismo se explica quase sozinho: ele é a ponte.
O que significa “transição”
Nenhum movimento cultural muda de um dia para o outro. Entre o teocentrismo medieval e o antropocentrismo renascentista, há um período em que as duas visões de mundo convivem em tensão.
É exatamente esse o Humanismo: um momento em que a mentalidade ainda carrega elementos medievais, mas já aponta para as ideias que o Renascimento consolidaria.
O contexto histórico
O período corresponde aproximadamente ao século XV em Portugal, marcado por:
- Expansão marítima e as primeiras grandes navegações.
- Fortalecimento da burguesia e das cidades.
- Ascensão de uma nobreza cortesã e de uma vida de corte mais refinada.
- Início do interesse pelos textos clássicos greco-romanos, que floresceria no Classicismo.
As manifestações do Humanismo
Poesia palaciana
Produzida nas cortes, reunida no Cancioneiro Geral, organizado por Garcia de Resende. É poesia de ocasião, cortesã, ainda ligada às formas medievais, mas já com temas mais mundanos e refinados.
Historiografia
Surge a preocupação em registrar a história de forma mais sistemática e crítica, com nomes como Fernão Lopes, considerado o pai da historiografia portuguesa.
Teatro: Gil Vicente
O nome central do Humanismo, e o que mais interessa à prova.
Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português. Sua obra é ampla e inclui:
- Autos religiosos: ainda ligados à tradição medieval de teatro de catequese, como os de Anchieta no Brasil.
- Autos de crítica social: o que torna Vicente singular. Ele satiriza o clero, a nobreza e os costumes da época com humor ácido.
- Farsas: peças cômicas que ridicularizam tipos sociais e comportamentos.
A obra mais conhecida é o conjunto das Barcas (do Inferno, do Purgatório, da Glória), em que personagens de diferentes estratos sociais são julgados após a morte, e Gil Vicente aproveita para satirizar cada tipo social representado.
A crítica como marca
O que torna Gil Vicente uma figura de transição é justamente a crítica. Um autor medieval não questionaria abertamente a Igreja e a nobreza; Vicente o faz, e essa postura já anuncia a mentalidade renascentista, mais disposta a questionar autoridades estabelecidas.
Humanismo não é Classicismo
Uma confusão frequente. Compare:
| Humanismo | Classicismo | |
|---|---|---|
| Período | transição, século XV | Renascimento pleno, século XVI |
| Forma | ainda medieval, menos rigorosa | rigor formal, soneto |
| Modelo | ainda não plenamente greco-romano | retorno consciente à Antiguidade |
| Nome central | Gil Vicente | Luís de Camões |
| Gênero central | teatro | lírica e épica |
O Humanismo prepara o terreno; o Classicismo o consolida.
O que cai na UERJ
O Humanismo é um período menos frequente na prova, comparado a Barroco e Arcadismo, mas aparece:
- Identificação do período de transição. Questões que pedem a caracterização do Humanismo como ponte entre Trovadorismo e Classicismo.
- Gil Vicente e a crítica social. Trechos de autos ou farsas que exigem reconhecer o alvo da sátira: clero, nobreza ou costumes.
- Distinção em relação ao Classicismo. Confundir os dois períodos é erro comum, e a banca explora justamente essa fronteira.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
O Humanismo é caracterizado como período de transição porque:
a) rejeita completamente qualquer elemento da tradição medieval. b) combina elementos ainda medievais com traços que anunciam a mentalidade renascentista. c) coincide exatamente com o auge do Classicismo português. d) não apresenta qualquer produção literária relevante. e) é posterior ao Barroco na periodização portuguesa.
Gabarito: b
Comentário: O Humanismo se situa entre o teocentrismo trovadoresco e o antropocentrismo classicista, período em que as duas mentalidades convivem em tensão. A obra de Gil Vicente ilustra bem essa transição: ainda produz autos religiosos de tradição medieval, mas também critica abertamente instituições estabelecidas, postura que já dialoga com o espírito renascentista.
Questão 2 (Estilo UERJ)
Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português principalmente por:
a) escrever exclusivamente peças de temática religiosa e conformista. b) produzir autos e farsas que satirizam o clero, a nobreza e os costumes sociais. c) adaptar para o português obras clássicas gregas e latinas. d) inaugurar o soneto como forma poética em Portugal. e) fundar o primeiro teatro físico em Lisboa.
Gabarito: b
Comentário: Além dos autos religiosos, ainda ligados à tradição medieval de teatro catequético, Gil Vicente produziu farsas e autos de crítica social que satirizam diferentes estratos da sociedade portuguesa, como se vê no conjunto das Barcas. Essa disposição crítica em relação a instituições estabelecidas é o que confere singularidade à sua obra dentro do contexto de transição do Humanismo.
Questão 3 (Estilo UERJ)
Assinale a alternativa que diferencia corretamente Humanismo e Classicismo:
a) o Humanismo tem Camões como figura central, e o Classicismo, Gil Vicente. b) o Classicismo antecede o Humanismo na periodização portuguesa. c) o Humanismo é período de transição, com produção ainda ligada a formas medievais, enquanto o Classicismo consolida o retorno pleno aos modelos clássicos. d) apenas o Classicismo produziu textos teatrais. e) o Humanismo e o Classicismo são sinônimos na tradição crítica portuguesa.
Gabarito: c
Comentário: O Humanismo prepara o terreno que o Classicismo consolidará: enquanto o primeiro ainda mantém traços formais medievais e representa uma fase de transição, o segundo, com Camões, realiza o retorno consciente e pleno à estética e à mitologia greco-romanas, com rigor formal característico do soneto e da epopeia.
Revisão rápida
- O Humanismo é o período de transição entre Trovadorismo e Classicismo em Portugal.
- Corresponde ao século XV, com expansão marítima e ascensão da vida cortesã.
- A poesia palaciana está reunida no Cancioneiro Geral, organizado por Garcia de Resende.
- Gil Vicente é o nome central, fundador do teatro português.
- Sua obra combina autos religiosos medievais com crítica social que anuncia o Renascimento.
- Não confunda com o Classicismo: este consolida o retorno pleno aos modelos clássicos.
Leia também:
- Classicismo: Camões e o retorno aos moldes greco-romanos
- Trovadorismo: as cantigas medievais e seus tipos
- Barroco: o conflito entre fé e razão na literatura
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