O Trovadorismo é o primeiro período da literatura em língua portuguesa, e antecede em séculos a própria existência do Brasil. Estudá-lo é entender de onde vem a nossa literatura.
Sua produção é feita de cantigas: poemas destinados a serem cantados, acompanhados de instrumentos. E toda a matéria do período se organiza em quatro tipos, que a prova cobra pela distinção entre eles. Neste post você vai aprender a reconhecê-los.
O contexto medieval
A produção trovadoresca nasce na Idade Média, num mundo organizado por três marcas:
- Teocentrismo. Deus no centro de tudo; a Igreja como autoridade máxima.
- Feudalismo. A sociedade dividida em estamentos rígidos, com relações de vassalagem entre senhor e servo.
- Cultura oral. A poesia é cantada, não lida. O acesso à escrita é restrito ao clero.
A relação de vassalagem é especialmente importante, porque ela vai estruturar a forma como o amor é representado nas cantigas.
Marco inicial: a Cantiga da Ribeirinha, atribuída a Paio Soares de Taveirós.
As cantigas líricas
Cantiga de amor
O eu lírico é masculino. O trovador dirige-se à mulher amada, chamada de senhor ou mia senhor, forma que na época não tinha marcação de gênero.
Características:
- Vassalagem amorosa. O trovador se coloca como servo, e a amada como senhora feudal. A estrutura social se transfere para a relação amorosa.
- Amor cortês. Idealizado, respeitoso, inatingível.
- Coita de amor. O sofrimento amoroso, tema central.
- Ambiente palaciano. A corte.
- Influência provençal, vinda do sul da França.
A amada nunca é descrita fisicamente com precisão, e a relação nunca se realiza. O sofrimento é o assunto, não o obstáculo.
Cantiga de amigo
O eu lírico é feminino, embora o autor seja homem. Uma mulher do povo fala sobre o amado ausente.
Aqui amigo significa namorado ou amado, não companheiro.
Características:
- Voz feminina. A moça fala de sua saudade e de sua espera.
- Ambiente popular e rural. O campo, a fonte, o mar, a romaria.
- Interlocutoras. A mãe, as amigas, elementos da natureza.
- Paralelismo e refrão. Estrutura repetitiva, com pequenas variações a cada estrofe.
- Origem autóctone, da própria Península Ibérica.
O paralelismo é a marca formal mais reconhecível: os versos se repetem com uma palavra trocada, criando um efeito de ladainha.
As cantigas satíricas
Cantiga de escárnio
Crítica indireta. Usa ironia, ambiguidade e trocadilhos, e não nomeia o alvo.
O leitor precisa decifrar de quem se fala. A graça está justamente na construção velada.
Cantiga de maldizer
Crítica direta. Nomeia o alvo, usa linguagem agressiva e por vezes obscena.
Não há sutileza: a ofensa é explícita.
Tabela de consulta rápida
| Cantiga | Eu lírico | Ambiente | Marca |
|---|---|---|---|
| Amor | masculino | palaciano | vassalagem, coita de amor |
| Amigo | feminino | popular, rural | paralelismo, refrão, saudade |
| Escárnio | variável | social | crítica indireta, ironia |
| Maldizer | variável | social | crítica direta, nomeia o alvo |
Um macete útil para separar as duas primeiras: pergunte quem fala. Se é o homem sofrendo por uma senhora inatingível, é cantiga de amor. Se é a mulher esperando o amado, é cantiga de amigo.
E para separar as satíricas: escárnio esconde, maldizer expõe.
As novelas de cavalaria
Além das cantigas, o período produz as novelas de cavalaria: narrativas em prosa sobre cavaleiros e suas aventuras.
O ciclo mais influente é o bretão, das lendas do Rei Artur, dos cavaleiros da Távola Redonda e da demanda do Santo Graal.
O que cai na UERJ
O Trovadorismo aparece de maneira bem delimitada:
- Identificação do tipo de cantiga. Um texto é apresentado e se pede a classificação. Os critérios decisivos são o gênero do eu lírico e o ambiente.
- Reconhecimento do paralelismo. A estrutura repetitiva das cantigas de amigo é frequentemente objeto de questão sobre construção do texto.
- Vassalagem amorosa. A transposição da relação feudal para a relação amorosa é conceito recorrente.
Vale notar que o Trovadorismo raramente tem peso grande na prova, mas as questões que o abordam costumam ser diretas e recompensam quem domina as quatro categorias.
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Questões comentadas
Questão 1 (Estilo UERJ)
Uma cantiga em que o eu lírico feminino lamenta a ausência do amado, dirigindo-se à mãe e às amigas, em ambiente rural e com uso de paralelismo, classifica-se como:
a) cantiga de amor b) cantiga de amigo c) cantiga de escárnio d) cantiga de maldizer e) novela de cavalaria
Gabarito: b
Comentário: Três marcas identificam a cantiga de amigo: o eu lírico feminino, o ambiente popular e rural, e o uso do paralelismo com refrão. A presença da mãe e das amigas como interlocutoras é traço característico do gênero. A cantiga de amor, descrita na alternativa a, tem eu lírico masculino e ambiente palaciano, com o trovador sofrendo por uma senhora inatingível.
Questão 2 (Estilo UERJ)
O conceito de vassalagem amorosa, presente nas cantigas de amor, consiste em:
a) transposição da relação feudal entre senhor e servo para a relação amorosa. b) crítica direta aos senhores feudais por meio da poesia. c) idealização da vida no campo em oposição à corte. d) representação da mulher como figura submissa ao trovador. e) união entre poesia e música nas apresentações cortesãs.
Gabarito: a
Comentário: A cantiga de amor reproduz na esfera afetiva a estrutura social do feudalismo: o trovador se coloca na posição de vassalo e trata a amada como sua senhora, a quem deve serviço e fidelidade. Daí o tratamento mia senhor, sem marcação de gênero na época. A alternativa d inverte a relação, pois é o eu lírico masculino que se submete, e não a mulher.
Questão 3 (Estilo UERJ)
A diferença entre cantiga de escárnio e cantiga de maldizer reside no fato de que:
a) o escárnio critica o clero e o maldizer, a nobreza. b) o escárnio faz crítica indireta, com ironia e ambiguidade, enquanto o maldizer faz crítica direta e nomeia o alvo. c) o escárnio tem eu lírico feminino e o maldizer, masculino. d) o escárnio é cantado e o maldizer, apenas recitado. e) apenas o maldizer pertence ao Trovadorismo.
Gabarito: b
Comentário: Ambas são cantigas satíricas, e o critério de distinção é o modo da crítica. No escárnio, o alvo não é nomeado e a censura se constrói por ironia, ambiguidade e trocadilhos, exigindo decifração do ouvinte. No maldizer, a agressão é explícita, o alvo é identificado e a linguagem pode ser obscena. A alternativa c aplica indevidamente às satíricas o critério que separa as cantigas líricas.
Revisão rápida
- O Trovadorismo é o primeiro período da literatura em língua portuguesa, medieval e cantado.
- A cantiga de amor tem eu lírico masculino, ambiente palaciano e vassalagem amorosa.
- A cantiga de amigo tem eu lírico feminino, ambiente rural, paralelismo e refrão.
- A cantiga de escárnio critica de forma indireta; a de maldizer, de forma direta.
- A vassalagem amorosa transfere a relação feudal para a esfera do afeto.
- As novelas de cavalaria, sobretudo do ciclo bretão, completam a produção do período.
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